CHAPTER II: Major Activities Undertaken by the Secretariat Since June 2004 . 13
7. Supporting subregional activities for development
Se do ponto de vista das regras metodológicas é possível compreender como Laudan acredita que elas funcionam, algo precisa ser dito sobre as metas ou objetivos cognitivos, pois “metodologia não leva a lugar nenhum sem axiologia” (LAUDAN, 1987, p. 29). Analisando a sumarização de Laudan sobre o naturalismo normativo observamos que ele defende uma concepção de racionalidade instrumental que dialoga simultaneamente com algumas questões. Primeiro, com a maneira como certas metas cognitivas são estabelecidas ao longo da história da ciência; e, segundo, como haveria certa similaridade entre a forma como as regras epistêmicas e as teorias científicas se comportam diante de novas informações empíricas, ou seja, em como o Modelo Reticulado explicita a mudança das metas ou objetivos.
O Modelo Reticulado estabelece uma relação recíproca entre teorias, métodos e objetivos, sendo que os objetivos são avaliados com base nas informações fornecidas pelas teorias e métodos. Olhando para a História da Ciência – e também da Epistemologia – percebemos como alguns objetivos foram sistematicamente perseguidos, como a busca por um conhecimento infalível. No entanto, após muitas disputas, os cientistas – e também os epistemólogos – acabaram por aceitar que não parece haver um método que nos permita demonstrar a infalibilidade de qualquer teoria, ainda que teorias, inclusive epistemológicas, sugerissem que tal demonstração fosse possível. Portanto, se um agente acredita que um objetivo que ele persegue é irrealizável, ou seja, não havendo a possibilidade de conceber os meios para realizar certas metas, então “nenhuma epistemologia [...] pode sustentar tais metas” (LAUDAN, 1990a, p. 47).
As metas ou objetivos buscados pelas ciências precisam estar em conformidade com nossos melhores métodos, pois, de outra forma, poderíamos estabelecer objetivos irrealizáveis, o que obviamente pode ocorrer quando ainda não se tem evidências empíricas suficientes para descartar certa meta como irrealizável atualmente. No entanto, isso pode ocorrer simplesmente porque as metas são utópicas, ou seja, quando são estabelecidas sem uma devida comunicação com as teorias e métodos vigentes. Elas são metas que podem ser desejáveis, mas não sabemos quais métodos adotar para que elas sejam realizadas. O autor dá o seguinte exemplo para esclarecer seu ponto:
Se, para começar com um exemplo bizarro, alguém me diz que sua meta básica é viajar a velocidades mais altas que a da velocidade da luz, ou estar em dois lugares ao mesmo tempo, minha resposta seria que, dado o estado atual de nosso conhecimento do mundo e das possíveis leis que o regem, essa pessoa está almejando o impossível (LAUDAN, 1984b, p. 51).
A intenção é clara: estabelecer uma relação entre o estabelecimento das metas e as práticas científicas, mostrando que o Modelo Reticulado explica um processo de naturalização em todos os níveis, inclusive o axiológico. Adotar uma meta é acreditar que ela pode ser realizada e essa crença depende de uma relação entre teoria e prática, afinal, as metas que orientam nossas melhores investigações devem também ser motivadas pelas melhores possibilidades desejadas e desejáveis a partir das nossas investigações.
Porém, é possível adotar metas que não podem ser realizadas. Obviamente, isso nem sempre se manifesta de maneira declarada, exigindo um olhar minucioso. Laudan refere-se por “estratégias utópicas” às posturas que adotam uma meta que não possa ser realizada (LAUDAN, 1984b, p. 51), chegando a aparecer de três formas: utopismo da demonstrabilidade, utopismo semântico e utopismo epistêmico. A primeira forma surge em tentativas de demonstrar que uma lei universal se aplica a todos os casos que a lei pretende explicar, ou seja, tal estratégia é irrealizável, pois se propõe a conhecer o escopo de uma lei universal através de demonstração exaustiva (por exemplo, o conhecimento infalível de leis universais quando se considera as restrições empíricas no estabelecimento de reivindicações universais). A segunda forma surge quando não há clareza por parte de quem defende certas metas em sua caracterização, de forma precisa e sem equívocos. Assim, se um grupo de cientistas não consegue defender e apresentar os valores cognitivos que estão envolvidos em suas práticas científicas, não é possível também dizer se as metas em questão foram realizadas (por exemplo, a meta de buscar teorias e métodos simples é de difícil avaliação pela clara vagueza que o termo “simplicidade” possui). A terceira forma surge quando o critério para determinar se uma meta pode ser realizada não pode ser especificado. Nesse caso, a estratégia não parece utópica imediatamente, pois mesmo que a meta seja atingida, não é possível estabelecer um critério que nos diga se uma teoria manifesta o valor em questão. Laudan estabelece uma distinção entre valores cognitivos e valores epistêmicos, defendendo que apenas os primeiros devem ser do interesse do cientista, pois valores epistêmicos, como buscar teorias verdadeiras, não podem ser especificados. Assim, por não
existirem métodos que possam promover tais metas, Laudan acredita que deveríamos substituir tais valores quando constatarmos que são utópicos.52
Em síntese, Laudan articula uma teoria da racionalidade científica que pretende explicar como a justificação aparece num processo contínuo e imbricado entre os níveis teórico, metodológico e axiológico. Isso nos possibilita dizer que a dimensão normativa do conhecimento científico não existe de maneira independente da dimensão empírica, mas em relação direta com essa. Por isso, explicitar quais são as estratégias irrealizáveis é importante, pois demonstra que até mesmo no estabelecimento das metas é necessário um compromisso com as informações empíricas que, em última instância, conseguiriam fornecer aquilo que é realizável entre as metas desejáveis.
Além disso, não há a necessidade de prescindir de uma formulação tradicional das normas epistêmicas como aquelas que prescrevem certas condutas, mas apenas compreender que as prescrições surgem apenas quando inseridas num cenário mais amplo de perseguir metas cognitivas. O Modelo reticulado fornece a base do seu Naturalismo Normativo expresso na Regra Metodológica Geral como uma forma de articular metas cognitivas e regras metodológicas, estando ambas em relação com as informações empíricas.