Ao girar seu objetivo na poesia de Thompson através do estudo de seus escritos coletados por Fred Inglis em Collected Poems, este trabalho conclui que algumas construções teóricas que são lugares-comuns na historiografia de Thompson foram iniciadas em seus poemas, num movimento completamente orgânico. Não foi interesse revelar alguma dimensão obscurecida na vida e no trabalho de Thompson através de seus poemas. Conclui-se satisfatoriamente essa pesquisa ao perceber que ele foi convicto em suas ideias (o que é diferente de dizer que ele nunca mudou de ideia) e de valores por toda sua vida. Pode-se até afirmar que o grande apreço que tinha pela literatura foi força mobilizadora para essa convicção permanecer imutável. Thompson sempre gostou de literatura. Thompson constantemte defendeu a literatura – o que, de modo geral, era uma defesa da arte. Para ele, ela não era necessária para o trabalho do historiador, mas incontornável para formação humana na construção de um imaginário ativo.
John Goode ao discutir o sentido e a significância (relevo, importância, destaque) da literatura em algumas obras de pesquisa histórica de Thompson e que, segundo ele, “pode somente ser elaborado numa dupla agência não-funcional do escritor”226, é bastante interessante porque ele argumenta que há “diferença entre o sentido de Thompson para a literatura e o sentido da literatura para Thompson”227
. Talvez o que seja incompatível é a concepção de incompatibilidade que Goode atribui quando afirma que ‘o sentido da literatura para Thompson’ é incompatível com ‘o significado de Thompson para literatura’. Quando escreve, Goode não possui conhecimento de todos os poemas de Thompson, a maioria dos poemas do Collected Poems não tinha sido publicada; por outro lado, em 1990, Goode facilmente encontraria o livro de ficção-científica The Sykaos Papers (1988). Porém, não é possível considerar o argumento final da incompatibilidade porque a trajetória de Thompson não dá a possibilidade de inserí-lo nessa relação. Que Thompson entendia a literatura e que ela foi importante para sua trajetória é incontornável. Não se trata de incompatibilidade de Thompson para literatura ou não, mas suspeita-se que os estudos literários poderiam ganhar uma reflexão rica se começassem a observar a forma como Thompson tratou a literatura durante sua vida.
226
“(...) can only be elaborated in the non-functional double agency of the writer”. Cf: GOODE, John. E. P. Thompson and ‘the Significance of Literature’. In. KAYE, Harvey J. and MCCLELLAND (Ed), E. P. Thompson Critical Perspectives. Keith. Cambridge: Polity Press, 1990, p.187.
227 “(...) difference between the significance of Thopson to literature and the significance of literature to Thompson”. Cf: Ibidem, p. 189.
174 Chama atenção que Thompson não deu tanta atenção aos seus poemas durante sua vida, mesmo que sua ocupação no fim da vida foi poética – William Blake e Tagore. Não é possível afirmar o porquê ele não trabalhou seus poemas como um todo – ele publicaria
Powers and Names, e Infant and Emperor foi distribuído entre poucos.
No primeiro capítulo tratou-se de pensar o processo de amadurecimento intelectual de Thompson. Quando ele escreve seus poemas durante a guerra, com forte apelo à ação e a mobilização contínua à luta, é perceptível a preocupação acerca da agência humana na história. (Pre)ocupação essa que foi construída e possibilitada pelo seu contexto familiar e intelectual. Já The Place Called Choice pode ser considerado um poema de transição no seu amadurecimento intelectual, visto que nele se encontra uma constelação de questões centrais que Thompson desenvolveria na década de 1950. William Morris deu um grande estalo e direcionou a maioria dessas suas querelas. No poema Homage to Tibor Dery¸ ele reúne sinteticamente sua perpeção do lugar e do compromisso dos intelectuais diante do mundo. Por outro lado, em Homage to Salvador Allender e My Study, Thompson congrega suas reflexões sobre seu lugar no mundo, seu trabalho e sua poesia. Em My Study, tem uma visão da poesia diferente da que teria em “Commitment in Poetry” – a constatação da inutilidade da poesia para lógica da sociedade contemporânea capitalista é substituída por uma análise de como a poesia e os poetas são importantes na sociedade e como essa só perde ao relegá-los a escanteio. Traços de sua formação estão impregnados em sua poesia. Como não organizou livros de poesia e não os publicou continuamente, possivelmente Thompson escrevesse poesia para falar e expressar aquilo que não conseguiria colocar num texto analítico e em prosa. Essa condição criou um aparente entrave na pesquisa que é a organização do trabalho. Se os poemas falam de tanta coisa, sugerem tantas questões, durante toda sua vida, organizá-los revelou-se não mais um entrave, mas um incentivo. É justamente por esse carácter desordenado que se fez necessário e deu a abertura para a escrita de uma dissertação mais livre no sentido de deixar os poemas levarem e guiarem a escrita de suas análises, mesmo que no final as conclusões sobre uma poesia ou um conjunto de poemas se mostrassem organicamente atrelada ao pensamento de Thompson naquele momento. Infant and Emperor, além de possibilitar pensar a religião, é uma profunda crítica ao pensamento bélico e gélido da Guerra Fria e seus armamentos nucleares. Nesse sentido, a pesquisa se acrescenta por trazer Thompson poeta para historiografia, como ele escrevia poesia, o que ele escrevia e como ele pensava a poesia. Ademais de publicizar seus poemas traduzidos em conjunto para o Brasil,
175 ela, por fim, traz a figura extremamente necessária de Edward Palmer Thompson para o mundo e sua terrível realidade.
176
BIBLIOGRAFIA
AGAMBEN, Giorgio. O reino e a glória: uma genealogia teológica da economia e do governo. Trad. Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2011.
AGGIO, Alberto. Democracia e socialismo: a experiência chilena. São Paulo: Editora da Unesp, 1993.
BERLIN, Isaiah. O sentido de realidade: estudo das ideias e de sua história. Organizador por Henry Hardy, tradução Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. BOER, Roland. Apocalyptic and Apocalypticism in the Poetry of E. P. Thompson. Spaces of Utopia: An Eletronic Journal, nº 7, 2009, p. 34-53. Disponível em ler.letras.up.pt. Acesso em agosto de 2016.
CERUTI, Mauro. “O materialismo dialético e a ciência dos anos 30”. In. SOCHOR, Lubomír
et al. HOBSBAWM, Eric (Org.). O Marxismo na época da Terceira Internacional:
problemas de cultura e da ideologia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
CHAGAS, Eduardo Ferreira . A crítica da religião como crítica da realidade social no pensamento de Karl Marx. TRANS/FORM/AÇÃO (Unesp. Marília. Impresso) , v. 40, 2017.
DASSÚ, Marta. “Frente única e frente popular: O VII Congresso da Internacional Comunista”. In: JOHNSTONE, Monty et al. HOBSBAWM, Eric (Org.). O Marxismo na época da Terceira Internacional:da internacional comunista de 1919 às frentes populares. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo, Perspectiva, 1970.
FERREIRA, Eduardo. A tradução e o tempo. Rascunho. Curitiba, junho de 2017a. _______. Passeio em Budapeste, Rascunho. Curitiba, agosto de 2017b.
FURTADO FILHO, J. E. Fragmentos da literatura de Edward P. Thompson: a prosa de The Sykaos Papers e os versos de ‘My Study'.. História da Historiografia, v. 18, p. 110-126, 2015.
_______. No Calor da Guerra Fria: E. P. Thompson e a luta antinuclear, Fortaleza: Imprensa
Universitária, 2017
FROMM, Eric. O medo à liberdade. Trad. Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1970.
GOODE, John. E. P. Thompson and ‘the Significance of Literature’. In. E. P. Thompson Critical Perspectives. (ed) KAYE, Harvey J. and MCCLELLAND, Keith. Cambridge: Polity Press, 1990, p.183-203.
GONZALÉN, Alejandro E. Clio ante el espejo: un socioanálisis de E. P.Thompson. Cádiz: Universidad de Cádiz, 2011.
177 GUMBRECHT, Hans Ulrich. Depois de 1945: latência como origem do presente. Trad. Ana Isabel Soares. São Paulo, Editora da Unesp, 2014.
_______. Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea. Trad. Ana Isabel Soares. São Paulo, Editora da Unesp, 2015.
HILL, Christopher. Christopher Hill por Christopher Hill. Varia Historia (UFMG). Vol. 11, n. 14, september 1995.
HOBSBAWM, Eric J. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
__________. A Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras: São Paulo, 1994.
__________. Tempos Interessantes: Uma vida no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
___________. “Os intelectuais e o antifascismo”. SOCHOR, Lubomír et al. O Marxismo na época da Terceira Internacional: problemas de cultura e da ideologia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HOUAISS, Antônia e AVERY, Catherine B. (Eds.) The New Barsa Dictionary of the English and Portuguese Languages. New York: Appleton-Century-Crofts, 1970 [1964].
KIRK, Russel. A era de T.S Elliot: a imaginação moral do século XX. São Paulo: É Realizações, 2011.
KEYNES, Geoffey; (ed). Blake Complete Writings with variant readings. Oxford University Press, 1976.
LUXEMBUGO, Rosa. O Socialismo e as Igrejas: o Comunismo dos Primeiros Cristãos. Rio de Janeiro: Achiáme, 1980.
MATTOS, Marcelo Badaró . E. P. Thompson e a tradição de crítica ativa do materialismo histórico. 1. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2012. v. 1.
_______. E. P. Thompson no Brasil. Outubro (São Paulo) , v. 14, p. 81-110, 2006.
MERRILL, Michel. Uma entrevista com E. P. Thompson (1976). Trad. MORAIS, Sergio Paulo e ROCHA, Rafael Correia. História e Perspectivas, Uberlândia (1): 417-445, jan./jun. 2014.
MORRIS, William (Ed). The American Heritage Dictionary of the English Language. Boston: Houghton Mifflin Company, 1981 [1969].
NUTTALL, Jeff. Las culturas de posguerra. Barcelona, Ediciones Martinez Roca S.A., 1974.
178 PALMER, Bryan D. E. P. Thompson: Objeções e Oposições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Inútil poesia e outros ensaios breves. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
RAINE, Kathleen. William Blake: (156 plates 28 in colour). London, Thames and Hudson, 1974/1970.
RICOEUR, Paul. Sobre a tradução. Trad.e prefácio Patrícia Lavelle. BH: Editora UFMG, 2011.
SANZ, Julián; BABIANO, José; ERICE, Francisco (Ed.). E. P.Thompson: Marxismo e História Social. Madri:Siglo XXI de España Editores, S.A., 2016.
SPRIANO, Paolo. “O movimento comunista entre a guerra e o pós-guerra: 1938-1947”. In: BADALONI et. al., História do Marxismo: o marxismo na época da Terceira Internacional: de Gramsci à crise do stalinismo.Tradução Carlos N. Coutinho e Luiz Sergio Henriques Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, v. 10.
SCHAFF, Adam. Marxismo e o indivíduo. São Paulo, Civilização Brasileira, 1967. HAMILTON, Scott. The crisis of theory. Manchester University Press, 2011.
SPENCER, Luke. The uses of literature: Thompson as writer, reader and critic. In. E. P Thompson and English radicalism (ed). FIELDHOUSE, Roger and TAYLOR, Richard. Manchester: Manchester Unversity Press, 2013, p. 96-117.
TAYLOR, Richard. Thompon and the Peace movement: from CND in the19650s and 1960 to END in the 1980s. In. E. P Thompson and English radicalism (Ed.). FIELDHOUSE, Roger and TAYLOR, Richard. Manchester: Manchester Unversity Press, p. 181-201.
THOMPSON, Dorothy. Outsiders. Class, Gendera and Nation. London: Verso, 1993. WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro, Zahar, 1979.
________. A produção social da escrita. Trad. André Glaser. São Paulo, Editora da Unesp, 2014.
________. Recursos da esperança. Trad. Nair Fonseca, João Alexandre Peschansk. São Paulo, Editora da Unesp, 2015.
________. Cultura e materialismo. Trad. Andre Glaser. São Paulo, Editora da Unesp, 2011. The Penguin Book of Contemporary British Poetry. Edited by Blake Morrison and Andre Montion.1982
179
FONTES