Objetivando angariar elementos pertinentes ao desenvolvimento da pesquisa, visando responder a pergunta fundamental que norteia este trabalho: “como se forma o arte-educador que atua com a linguagem musical e em que dimensão a disciplina artes ou educação artística mostrou-se relevante durante seu processo de escolarização contribuindo para sua formação culminando em sua opção pela docência em artes”, foram desenvolvidas entrevistas com dois arte-educadores que atuam com a linguagem musical além do desenvolvimento de uma auto-biografia, que teve como referência para sua elaboração a obra de Amaral (2004): Resgatando o passado: deficiência como figura e vida como fundo.
No caso das entrevistas com o dois arte-educadores que atuam com a linguagem musical fundamentei-me nos indicativos expostos por Santos Netos (2006)29, que detalhadamente apresenta um roteiro para o desenvolvimento de um trabalho com histórias de vida:
1. Estudar com o grupo de educadores os fundamentos epistemológicos e sociopolíticos do trabalho com (auto)biografias (Encontro 1);
2. Apresentar as perguntas provocadoras da construção (auto)biográfica: Como me tornei o educador que sou hoje? Como elaborei as idéias que tenho sobre educação? Que problemas e desafios estão postos hoje para mim como educador? Que direção quero imprimir em minha prática pedagógica e
29 Encontrado em http://www.metodista.br/poseducacao/corpo-docente/elydio-dos-santos-neto-
formativa a partir da reflexão que fiz sobre meu itinerário formativo? (Encontro
1);
3. Fundamentar para o grupo de educadores a importância da articulação entre o trabalho individual e o trabalho coletivo5 em pequenos grupos. Mostrar também a importância da escrita e do registro (Encontro 2);
4. Apresentar as etapas que serão percorridas entre o primeiro momento da elaboração do esboço da trajetória formativa e o último momento no qual se apresenta, em um texto, a reflexão final, individual, a partir das perguntas provocadoras e no qual também há o empenho para identificar alguns aspectos gerais que expliquem o processo formativo daquele conjunto de educadores
(Encontro 3);
5. Definir os eixos temáticos em torno dos quais os sujeitos organizados em grupos deverão construir suas (auto)biografias7 (Encontro 3);
6. Trabalho individual: 1. Responder à pergunta: Que problemas e
desafios estão postos para mim hoje como educador? 2. Construir uma
linha do tempo, do presente para o passado, procurando identificar os eventos mais significativos para o seu processo formativo dentro do eixo temático no qual você está trabalhando. Neste eixo você também já vai identificando seus momentos-charneira.
7. Trabalho em grupos organizados pelos eixos temáticos escolhidos: partilhar, com os demais participantes de seu grupo, as respostas à pergunta provocadora anteriormente apresentada e também a linha do tempo construída por você. (Encontro 4)
8. Trabalho individual: a partir da partilha do grupo redigir um relato de sua trajetória formativa apoiado na linha de tempo que você construiu. Apenas relate sem ainda a preocupação de uma análise aprofundada. Não se esqueça de identificar e descrever os momentos-charneira e de mostrar as direções de seu comportamento neles.
9. Apresentar aos grupos algumas ferramentas teóricas possíveis de serem utilizadas para a análise dos relatos (auto)biográficos8. Acolher sugestões de referências teóricas que eles tragam para a análise. Buscar
identificar, com o grupo, outras referências de acordo com a necessidade específica (Encontro 5);
10. Trabalho individual: Realizar uma análise de sua trajetória formativa a partir de seu relato. Faça uso das referências teóricas que trouxemos à discussão. Procure responder, com fundamento crítico e argumentativo, às perguntas: Como me tornei o educador que sou hoje?
Como elaborei as idéias que tenho sobre educação?
11. Trabalho em grupos: partilha das análises individuais realizadas com vistas a aprofundamento e busca de elementos comuns. (Encontro 6)
12. Trabalho individual para responder à pergunta: Que direção quero
imprimir em minha prática pedagógica e formativa a partir da análise e reflexão que fiz sobre meu itinerário formativo?
13. Trabalho em grupos: partilhar das respostas à pergunta provocadora anterior. Buscar identificar e discutir alguns princípios explicativos gerais que possibilitem compreender o processo formativo deste grupo de educadores tomando como ponto de partida as respostas a que cada um chegou. (Encontro 7)
14. Avaliação final do trabalho num primeiro momento com a elaboração da mesma de forma individual e depois, num segundo momento, com a partilha no grupo. (Encontro 8)
A partir dos 14 tópicos apresentados em Santos Neto (2006), foram adaptados os procedimentos às condições reais dos entrevistados, que envolveram acima de tudo horários incompatíveis e escassas condições de promoção de reuniões coletivas visando o aprofundamento dos questionamentos que envolviam as histórias de vida dos arte-educadores. De qualquer forma, dois encontros coletivos foram organizados, onde os objetivos da pesquisa puderam ser explicitados. Por se tratar de indivíduos que vivenciaram situações de aprendizagem e de trabalho nos mesmos ambientes (Casa de Apoio – Vida e a Prefeitura Municipal de Guarulhos) a proposta acabou se efetivando da forma que melhor atendia as necessidades da pesquisa. Foram definidos encontros virtuais com o objetivo de aproximar os agentes envolvidos no processo (entrevistados e entrevistador), além da
elaboração de entrevistas individuais que seriam gravadas em áudio e posteriormente transcritas afim de constar no corpo do trabalho de pesquisa. Para tanto foi desenvolvido um questionário que foi o elemento norteador das entrevistas:
a) Quem é o arte-educador; interessando à pesquisa saber origem, meio social onde se formou o individuo;
b) Onde o arte-educador despertou o gosto pela arte? c) Onde o arte-educador teve sua iniciação artística?
d) Quais aspectos foram motivantes na aprendizagem artística e culminaram na continuidade do processo de aprendizagem?
e) Em que medida a disciplina artes ou educação artística durante o ensino fundamental, contribuiu e motivou (ou não), a sua formação e sua trajetória como arte-educador?
f) Em que momentos da educação básica, promoveram-se encontros significativos com a linguagem musical?
g) Como arte-educador desenvolveu o gosto docência?
h) Onde se deu a formação técnica e didática do arte- educador?
i) Em que medida as suas experiências durante sua formação artística influenciam ou incentivaram a sua práxis como docente?
j) É possível desenvolver o gosto pela docência em artes nos educandos?
Após o desenvolvimento das entrevistas, os registros que inicialmente foram gravados e posteriormente transcritos, foram submetidos aos entrevistados que puderam interagir com os conteúdos, promovendo os devidos complementos e alterações. Um novo encontro entre entrevistados e entrevistador foi agendado, para as devidas considerações sobre a elaboração das entrevistas, culminando com as versões finais que se encontram expostas neste trabalho, e que contribuem na aferição da relevância da disciplina artes ou educação artística na formação do arte-educador, podendo o ensino da arte ser considerado lastro ou peso-morto nas matrizes curriculares das escolas brasileiras.
CAPÍTULO IV
DE ARTISTA À EDUCADOR, DE EDUCADOR À ARTISTA
Os relatos expostos no presente capítulo expressam as trajetórias formativas de três arte-educadores que trabalham com a linguagem musical tanto no ambiente escolar do ensino fundamental, no ensino superior e nos espaços extra-escolares. Todos são formados em licenciatura em educação artística com habilitação plena tanto em artes quanto em música. O objetivo das entrevistas é aferir através de um processo auto-biográfico elaborado pelos arte-educadores, como se constituíram profissional e artísticamente, mesmo que em diferentes épocas e instituições de ensino; pretende-se compreender a relevância da disciplina artes em suas trajetórias e ainda aferir quais foram os elementos significativos que conduziram os artistas à docência: “como me tornei no que sou?...como tenho as idéias que tenho?” (Josso in Nóvoa e Finger, 2010, p.66). Para tanto as entrevistas foram desenvolvidas com arte- educadores que atuaram na Prefeitura Municipal de Guarulhos, especificamente na Secretaria Municipal de Educação, no projeto Violino nas Escolas.