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Summer School Outcomes

A influência do indivíduo como ator das Relações Internacionais não é consenso entre os estudiosos do tema. Logo, sua definição como ator novo ou emergente ainda é incerta e controvertida. De qualquer forma, nota-se que, ao menos, certos indivíduos vêm exercendo um papel muito importante e de grande destaque no cenário político internacional.

Ricardo Seitenfus aborda essa divergência, referindo que foi Norbert Elias238 um dos primeiros autores a perceber a influência do homem individualmente considerado perante as relações internacionais.239 Seitenfus considera que a fragilidade conceitual associada à falta de estudos empíricos não podem afastar a importância do indivíduo no cenário internacional. Para o autor, “as notáveis transformações que o Estado vem sofrendo provocam seu enfraquecimento e o surgimento de uma ação internacional das unidades subnacionais e transnacionais, construindo uma nova realidade na qual se afirma o indivíduo”.240

Apesar de reconhecer essa importância ao indivíduo, Ricardo Seitenfus alerta para o fato de que não é possível conferir atenção a qualquer ação do indivíduo no meio internacional. Assim, observa que “o episódico, o intempestivo, o ruidoso e o passível de ser

237 GOOGLE Helps Battle Deforestation With The Cloud. .The Washington Post. Disponível em:

<http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/12/10/AR2009121002147.html> Acesso em: 12 dez.2009.

238 Cf. ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1994. 239 SEITENFUS, Ricardo. Relações... Op. cit., p. 167. A obra referida por Seitenfus foi escrita por Norbert Elias

em 1987 e publicada originalmente em Paris com o título La societé des individus.

objeto de manipulação não é digno de interesse”.241 Por outro lado, deve-se repensar até que ponto certos comportamentos individuais, ainda que isolados, não podem desencadear reações mais amplas e atingir efeitos além das fronteiras dos Estados. Por meio das novas tecnologias da informação e, em especial, por meio da Internet, os indivíduos passam a ter muito mais instrumentos de divulgação de suas ideias.

Assim, “dentro da nova lógica econômica global”, um novo ator pode assumir um “papel fundamental no equilíbrio futuro do poder, e que ainda está fora do jogo: o consumidor, o gigante adormecido”. Gilberto Dupas, no intuito de analisar um artigo de Ulrich Beck, afirma que um indivíduo que poderia fazer a diferença no cenário internacional seria o consumidor. Em sua concepção, o consumidor “poderia transformar seu ato de compra em um voto sobre o papel político dos grandes grupos em escala mundial, lutando contra eles com suas próprias armas: o dinheiro e a recusa de comprar”.242

É interessante essa reflexão feita por Gilberto Dupas, pois apesar de ainda não existir uma identificação teórica clara quanto a esse “poder” pelo menos com relação aos efeitos em âmbito internacional, certamente a interação entre o indivíduo-consumidor e outro(s) atore(s) poderá causar uma alteração no cenário político internacional.

Um exemplo disso, que será analisado nos próximos capítulos, se dá a partir da maior exposição na mídia de novos produtos criados para enfrentar problemas ambientais e que cativam o consumidor. Ao se identificar um interesse pelo mercado consumidor são realizadas alterações no processo produtivo das empresas e nas posturas governamentais para adoção de novas estratégias políticas e econômicas, em especial, mais recentemente, de caráter ambiental.

Deve-se frisar, todavia, que nem sempre essas opções dos consumidores emergem por consciência ambiental, em certos casos, esse “interesse” somente ocorre quando vem acompanhado de algum benefício individual. Um exemplo disso é quanto à recepção favorável por parte dos consumidores dos veículos bicombustíveis no Brasil e que vem ganhando forte expansão nos demais países. Trata-se de um comportamento e opção do consumidor que por interesses pessoais e/ou econômicos e ambientais passaram a optar por uma categoria de produto que gerou toda uma alteração na matriz no sistema produtivo de veículos com reflexos políticos bastante expressivos. Atualmente, já existem estudos sobre uma profunda alteração na matriz energética na indústria automotiva que prevê a produção já

241 Ibidem, p. 168.

para o ano de 2011, de veículos elétricos à disposição do mercado consumidor a preços competitivos, algo impensável nos últimos dez anos.243

Para melhor compreender essa participação do indivíduo no cenário internacional, Seitenfus o classifica em três grupos. O primeiro grupo é aquele integrado por especialistas, os quais, além de serem detentores de um saber, possuem vasta experiência em algum assunto que já foi colocado em prática. Diante disso, os especialistas podem influenciar “importantes decisões internacionais nas áreas da energia nuclear, do meio ambiente e da saúde pública vinculada ao comércio exterior”.244. De qualquer forma, o autor reconhece a possibilidade de manipulação no comportamento e resultado da atuação desses especialistas, o que merecerá ser analisado com maior propriedade no decorrer do presente estudo no que tange aos efeitos dos relatórios emitidos pelos especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).245

O segundo grupo de indivíduos classificados por Seitenfus é o composto por profetas. Nesse grupo estariam todos aqueles indivíduos despreocupados com a legitimidade, sendo que Seitenfus os chama de “pseudocientistas”, eis que se julgam detentores de um saber “autônomo e absoluto, desprovido do princípio da incerteza e avesso ao contraditório”.246 Nas questões ambientais, em especial naquelas que envolvem dados científicos polêmicos, a exemplo do que ocorre com o aquecimento global, é possível encontrar um vasto campo de

243 CARROS elétricos se destacam no Salão de Detroit. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/

vidae,carros-eletricos-se-destacam-no-salao-de-detroit,500166,0.htm> Acesso em: 22 jan.2010.

244 SEITENFUS, Ricardo. Relações... op. cit. p.169.

245 O IPCC é o principal organismo de avaliação das mudanças climáticas. Foi estabelecido pelo Programa das

Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) para fornecer ao mundo uma visão científica mais clara sobre o atual estado do clima e das mudanças climáticas, bem como, sobre suas potencialidades ambientais e sócio-econômicas. Enquanto entidade científica, o Painel analisa e avalia as mais recentes informações científicas, técnicas e sócio-econômicas produzidos a nível mundial e que sejam relevantes para a compreensão das mudanças climáticas. Milhares de cientistas de todo o mundo contribuem para o trabalho do IPCC de forma voluntária. O IPCC é um organismo intergovernamental e é aberto a todos os países membros da ONU e da OMM. Devido à sua natureza científica e intergovernameltal, o IPCC incorpora uma oportunidade única para fornecer informações científicas rigorosas e equilibradas para os tomadores de decisão. Ao aprovar os relatórios do IPCC, os governos reconhecem a autoridade do seu conteúdo científico. IPCC- The Intergovernmental Panel of Climate Change. Organization. Disponível em: <http://www.ipcc.ch/organization/organization.htm> Acesso em: 18 nov.2009.

246 SEITENFUS, Ricardo. Relações... Op. cit., p.169. Nessa categoria talvez seja apropriado mencionar a

importância da relação entre indivíduo e mídia. Na medida em que para a divulgação de notícias em áreas específicas torna-se necessário conferir credibilidade ao discurso, os especialistas são amplamente utilizados pelos jornais. Entretanto, em função da velocidade com a qual os acontecimentos se dão, e, por sua vez, os relatos sobre os mesmos são realizados, esses sujeitos acabam se revestindo do que Pierre Bourdieu chama de

fast thinkers, ou seja, pessoas tidas como referências em suas áreas e que teriam a capacidade de formular

pensamentos acerca de fatos importantes expostos em notícias, com a mesma instantaneidade. Isso, é claro, leva a que sempre as mesmas pessoas sejam chamadas para tratar de assuntos de suas áreas, e que frequentemente se utilizem de lugares comuns em suas análises, em consonância com a proposta televisiva do fast food cultural. BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Tradução de Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 38-

atuação desses profetas.247

Por fim, o terceiro grupo de indivíduos classificados por Ricardo Seitenfus, é aquele composto por detentores de notório saber. Para esses indivíduos há um rito de passagem obrigatório que, segundo o autor, ocorre por meio do reconhecimento público internacional, o que geralmente acontece com o recebimento de algum prêmio internacional, especialmente aquele que é considerado “o mais prestigioso de todos”, o Prêmio Nobel.248 O autor justifica a inclusão desses indivíduos pois afirma que ao serem premiados, tais indivíduos passam a se utilizar da mídia eis que foram “laureados com tamanha notoriedade”, que passam a discutir com ares de especialistas os grandes temas internacionais do momento, apesar de em muitos casos serem distantes de sua área de atuação e/ou especialização.249 Para Seitenfus, “os vencedores do Nobel desvinculam-se de seus Estados e adquirem um status de inatacáveis intelectuais moralizadores das relações internacionais”.250

Um desses indivíduos, que emergiu como um verdadeiro ator no cenário internacional, foi Albert Arnold Gore Jr, mais conhecido por Al Gore251. Em 2007, o ex-vice presidente dos Estados Unidos recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços em divulgar os efeitos das alterações climáticas e apresentar as medidas necessárias para o seu enfrentamento, sendo que o prêmio também foi compartilhado com o IPCC.252 Com essa premiação, solidificou-se perante a opinião pública internacional o papel de respeitabilidade do trabalho que tanto Al Gore como o IPCC vinham até o momento realizando.

Al Gore causou tanto impacto quanto os relatórios do IPCC, porém, o seu

247 Quanto à manipulação de pesquisas científicas visando a afastar a existência do aquecimento global,

recomenda-se a leitura da obra “Heat” de George Monbiot na qual é realizada uma profunda investigação de quais as possíveis alternativas para amenizar/solucionar o efeito estufa. Nessa obra o autor apresenta dados estatísticos sobre os níveis de CO2 e os principais emissores e desmascara pesquisas “pseudocientíficas” que

manipulam e criam falsas informações para sustentar que o aquecimento global é um fenômeno normal e que está havendo um exagero na sua divulgação. MONBIOT, George. Heat: How to Stop the Planet Burning. London: Allen Lane, 2006.

248 SEITENFUS, Ricardo. Relações... op. cit. p.171. 249 Ibidem. p. 170-171.

250 Ibidem. p. 171.

251 O ex-Vice Presidente dos Estados Unidos, atualmente, é presidente da Current TV, rede independente de

televisão por cabo e satélite, dedicada à não-ficção e voltada para jovens, com conteúdos criados pelos espectadores e jornalismo-cidadão. Também é diretor da Generation Investment Management, firma que propõe uma nova abordagem aos investimentos sustentáveis. Ainda é membro do Conselho Diretor da Apple Computer Inc. e consultor sênior da Google Inc. Foi eleito para a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos em 1976 e para o Senado americano em 1984 e 1990. Em 20 de janeiro de 1993 tornou-se o 45º vice-presidente do país, cumprindo essa função por oito anos. É autor do best-seller de 1992, A Terra em Balanço: ecologia e o espírito

humano e Uma Verdade Inconveniente que foi objeto de um documentário vencedor do Oscar. NOBEL PRIZE. Al Gore - Biography. Disponível em: <http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2007/gore-bio.html>

Acesso em: 02 jan.2010.

252 NOBEL PRIZE. The Nobel Peace Prize 2007. Disponível em: <http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/

documentário Uma Verdade Inconveniente com imagens fortes sobre as mudanças climáticas conseguiu atingir a um imenso público no mundo inteiro. Como resultado, sua produção foi premiada com o Oscar de melhor documentário no ano de 2007. O filme foi bastante elogiado, mas, recentemente, passou a receber severas críticas. Em novembro de 2009, antes do início da COP-15, surgiu uma denúncia de que Climatic Research Unit (CRU-EA), departamento da Universidade de East Anglia, em Londres, teria forjado informações para exagerar a participação do homem no aquecimento global. Os dados do CRU-EA serviram de base para os relatórios do IPCC e para as palestras de Al Gore e, consequentemente, para o seu documentário. A denúncia proveio de emails trocados entre cientistas do CRU-EA e que foram interceptados por hackers. Nesses milhares de emails estariam mensagens que demonstrariam que o grupo de pesquisadores teria omitido ou alterado dados para justificar o aquecimento global.253

Até o momento não foi adotada nenhuma medida contra o Oscar recebido pelo documentário de Al Gore, tampouco quanto aos estudos apresentados pelo IPCC. A principal autoridade em clima da Organização das Nações Unidas (ONU), Yvo de Boer, afirmou que os emails podem ter abalado a imagem das pesquisas sobre o aquecimento global; contudo, a evidência do aquecimento da Terra é sólida.254

De qualquer forma, ultrapassando momentaneamente essa discussão, que será retomada nos próximos capítulos, faz-se necessário, ainda, refletir se efetivamente são apenas esses indivíduos isoladamente que podem fazer alguma pressão internacional, ou se a soma de vários indivíduos, formando uma opinião pública sobre certos assuntos também possui poder de interferir nos assuntos políticos que ultrapassam as fronteiras dos Estados. Isso é importante, pois conforme visto anteriormente, foram apenas alguns indivíduos – hackers255

253 CLIMATE change data dumped. The Sunday Times. Disponível em: <http://www.timesonline.co.uk/tol/

news/environment/article6936328.ece> Acesso em: 8 jan.2010

254 ONU: e-mails não afetam negociação em Copenhague. Agência Estado. Disponível em:

<http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/estado/2009/12/07/onu-e-mails-nao-afetam-negociacao- em-copenhague.jhtm?action=print> Acesso em: 7 dez.2009.

255 O professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília, Pedro Antonio

Dourado de Rezende, traz esclarecimentos importantíssimos sobre essa expressão. Segundo o professor, "Hackear é esmiuçar. Não significa, e nem mesmo é condição para piratear, vandalizar ou vender serviços criminosos, como querem alguns jornalistas. Para designar tal conduta existem outros termos, como "lamer" ou "cracker", por exemplo. Insistir no uso do termo hacker como sinônimo de criminoso digital esconde uma componente ideológica ruim, que pretende igualar a habilidade curiosa com a intenção criminosa. [...] Os hackers não podem ser coletivamente classificados como criminosos indesejáveis, pois alguns deles desempenham para o software um papel semelhante ao da seleção natural na evolução das espécies naturais, descobrindo falhas de segurança nos softwares em uso pelo mundo e reportando suas descobertas aos desenvolvedores, às vezes sugerindo estratégias de reparo. São também os grandes responsáveis pelo enorme

que ao obterem ilegalmente emails confidenciais dos cientistas do IPCC causaram uma grande repercussão no debate sobre o aquecimento global durante a COP15.

A existência de uma opinião pública interferindo internamente nos Estados é algo consensual entre os pesquisadores. A dúvida, que por vezes paira no ar, é quanto à existência de uma opinião pública internacional. Para Tomás Vives, “a opinião pública não é o nome de algo, senão uma classificação de uma série de algos”, ou seja, “uma soma de opiniões individuais sobre uma questão de interesse público, podendo exercer tais opiniões certa influência sobre o comportamento de um indivíduo, de um grupo ou de um governo”.256

Diante disso, Marcel Merle refere que “a opinião pública é primeiro um fenômeno nacional que se enraíza numa história, desenvolve-se numa cultura e inscreve-se num espaço determinado através dos meios de expressão que ainda permanecem, em sua parte essencial, instrumentos nacionais”.257 O autor sustenta que “concretamente, uma opinião pública internacional só pode resultar da aproximação ou convergência entre diferentes opiniões nacionais” e que este “fenômeno pode produzir-se de três maneiras diferentes”.258

Na primeira delas, “a opinião pública internacional pode resultar primeiro da convergência dos pontos de vista expressos pelos representantes qualificados das diferentes coletividades nacionais – em outras palavras – governos”.259 Na segunda, Merle também credita à opinião publica internacional “os fenômenos de concordância que se produzem espontaneamente entre as diversas opiniões públicas nacionais em relação a tal ou tal problema”. 260 Com isso, o autor considera que “[...] esses movimentos podem ser revelados por um confronto sistemático do conteúdo das mensagens difundidas pelos meios de comunicação (imprensa, rádio e televisão) como também por sondagens de opinião, comparativas ou simultâneas”.261 Na terceira maneira, o autor observa que “as coisas são diferentes no que se refere às manifestações mais ou menos combinadas pelas quais grupos agindo simultaneamente em diversos países, fazem esforços para criar uma corrente de opinião em defesa de tal ou tal causa”.262

digital estão se beneficiando." REZENDE, Pedro Antonio Dourado de. Sobre o uso do termo "hacker". Disponível em: <http://www.cic.unb.br/~pedro/trabs/hackers.htm> Acesso em 8 jan.2010.

256 VIVES, Tomás Mestre. La política internacional como política de poder. Barcelona: Labor Universitaria,

1979. p. 300.

257 MERLE, Marcel. Op. cit., p. 311. 258 Ibidem.

259 Ibidem. 260 Ibidem.

261 MERLE, Marcel. Op. cit., p. 313. 262 Ibidem.

Visando a compreender melhor esse fenômeno, Norberto Bobbio, ao analisar o conceito de opinião pública, afirma que a sua existência é um “fenômeno da época moderna” o qual “pressupõe uma sociedade civil distinta do Estado, uma sociedade livre e articulada, onde existam centros que permitam a formação de opiniões não individuais”.263 Cita como exemplos, os “jornais e revistas, clubes e salões, partidos e associações, bolsa e mercado, ou seja, um público de indivíduos associados, interessado em controlar a política do Governo, mesmo que não desenvolva uma atividade política imediata”.264 Bobbio também afirma que uma das funções da opinião pública é permitir uma maior participação política por parte dos cidadãos, eis que através do fluxo de informações favorece o desenvolvimento das condições necessárias para que haja uma discussão coerente e a sociedade possa se manifestar sobre questões que lhe atingem diretamente.

Ao se relacionar esse raciocínio com o papel político da mídia na construção e/ou manipulação da opinião pública, Leonardo Valente destaca que, desde o final do século 20, mais intensamente no início do presente século, esse tipo de prática tem sido empregada com mais frequência. O autor afirma que “o Estado não perdeu poder por conta das transformações na comunicação, não deixou de se basear no econômico, no político e no militar para a conquista do poder. Mas redimensionou e modificou sua atuação para o alcance desse objetivo. Adaptou-se ao jogo como uma nova peça e está aprendendo a usá-la”.265 Com isso, sustenta Valente que “as novas tecnologias tiveram um impacto profundo nesse redimensionamento. Elas encurtaram as distâncias, dispensaram a necessidade de presença física, aumentaram a velocidade com que indagações e respostas chegam aos seus destinatários.” 266 Por fim, esclarece que essas novas tecnologias “tornaram ainda mais complexa a tarefa de fazer política externa, sujeita, agora como nunca antes, à influência de uma série de outros fatores e agentes, entre eles a imprensa e a opinião pública”. 267

Por outro lado, alguns autores questionam se o grande público efetivamente se preocupa com um grande número de problemas ligados à política exterior de seus países e se realmente a mídia ou qualquer outro ator das relações internacionais (ONGs, por exemplo) consegue retirar essas pessoas dessa condição de passividade. Tomás Vives vê essa questão

263 BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Tradução

Carmen C. Varriale et. al. 4. ed. Brasília: UnB, 1992. p. 842.

264 Ibidem.

265 VALENTE, Leonardo. Política externa na era da informação: o novo jogo do poder, as novas diplomacias

e a mídia como instrumentos de Estado nas Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Revan, 2007. p. 21-22.

266 Ibidem. 267

referindo que “no fundo, os apáticos e os ignorantes, geralmente, quando percebem algo que pode causar um impacto direto em sua vida, reagem”, do contrário mantêm-se indiferentes aos problemas externos.268 O autor aponta estudos onde as atitudes públicas, “em sociedades altamente alfabetizadas, indicam que a grande maioria das pessoas no que se refere aos assuntos mundiais é ignorante, desinteressada e apática”, 269 revelando que somente quando ocorrem fatos dramáticos esse comportamento pode sofrer alguma alteração.

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