Nasceu em 21 de janeiro de 1919, no Vale do Iguape, Município de Cachoeira, Bahia, filho de Maria Augusta da Silva Novis e Aristides Augusto Novis.
Estudou no conceituado Colégio Antonio Vieira. Formou-se em 04 de dezembro de 1943, 127ª turma das Faculdade de Medicina da Bahia, tendo sido colega de Carlos Gentile de Mello, que, no Rio de Janeiro, se tornou importante liderança médica nas lutas pela reforma sanitária no país; e Newton Guimarães, que foi Catedrático de Dermatologia e diretor da FAMEB de 1980 a 1984 (TAVARES-NETO, 2008).
Casado com Solange Passos Novis, Dr. Jorge Novis teve oito filhos: Maria Tereza Novis Rocha, que se casou com o prof. Heonir Rocha, presente nesta galeria; Lauro Augusto Passos Novis, Maria Augusta Novis Kirchhoff, Jorge Augusto Novis Filho, Roberto Augusto Passos Novis, Lelia Maria Novis Lepikson, Maria da Gloria Novis Odebrecht e Solange Maria Novis Ribeiro.
Seguindo os passos do seu pai, Prof. Aristides Novis, da 91ª turma, de 1907 e, depois, Professor catedrático da 2ª cadeira (Fisiologia), Jorge Novis iniciou cedo a carreira universitária pois, em 1944, ainda recém-formado, tornou-se Professor Assistente de Fisiologia (PROFESSOR JORGE, s/d; TEIXEIRA, 1999). Foi nomeado Chefe do Laboratório de Fisiologia (PROFESSOR JORGE, s/d). Em abril de 1947 foi nomeado Professor Adjunto (Ibidem).
Fez curso de especialização no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, sob a orientação de Miguel Osório de Almeida, renomado fisiologista e pesquisador (TEIXEIRA, 1999) e, ao regressar a Salvador, submeteu-se ao concurso para Docente Livre de Fisiologia, em 1945, ocasião em que defendeu tese sobre crioepilepsia.
Manteve intercâmbio científico com Virgílio Foglia e Bernardo Houssay, fisiologistas argentinos, sendo, o último, prêmio Nobel de Medicina (TEIXEIRA, 1999; COUTINHO, 2007). Com a Fundação Rockefeller, instituição que, em 1957, viabilizou o seu estágio nos EUA (PROFESSOR JORGE, s/d), ele obteve recursos para montar o laboratório de fisiologia. Foi através dele que o pesquisador Arpad Csapo veio à Bahia e colaborou com o prof. José Adeodato Filho (ver nesta galeria) na criação de um centro de pesquisas na Maternidade Climério de Oliveira.
Segundo o testemunho do Prof. Luiz Fernando Macêdo Costa, Jorge Novis era um professor admirado pelos alunos: ―Talentoso, eloquente, persuasivo, culto, o jovem mestre atraiu os estudantes mais ativos e cristalizou, em torno de si, o principal núcleo de investigação básica da Faculdade de Medicina‖ (MACÊDO COSTA, 1981).
Com esforço e determinação, o jovem professor adquiriu os equipamentos e as bolsas de estudo necessários para formar uma verdadeira ―escola‖. Pretendeu fundar um Instituo Experimental em Fisiologia, mas não conseguiu (TEIXEIRA, 1999), mas com ―uma qualidade toda própria‖, Jorge Novis ―atraía e agradava a quem dele se aproximava, inspirava confiança. Sabia selecionar os melhores e, assim, um dos resultados mais importante de seu labor, foi o de ter congregado o considerável núcleo de companheiros, interessados em sua proposta de ação‖ (TEIXEIRA, 1999, p.,202). Dentre os seus companheiros de trabalho e/ou discípulos destacaram-se José Simões da Silva Júnior, ressaltado pelo memorialista Rodolfo Teixeira, que também pertence a esta equipe; Heonir Rocha, Luiz Fernando Macêdo Costa, Armênio Guimarães, Waldir Medrado, Anníbal Silvany Filho, Elsimar Coutinho, Carlos Marcílio, Antônio Biscaia, Virgílio Pereira, Nestor Piva, Carlos Widmer, Almira Vinhais Dantas, Celeste Tanus, Cesar Orrico e muitos outros (TEIXEIRA, 1999; LEITE, 2011).
Obtido o título por concurso, com defesa de tese, em 1953, tornou-se Professor Catedrático de Fisiologia em 23 de março de 1954 (TEIXEIRA, 1999). Com a liderança da cátedra, o professor conquistou espaços institucionais para a realização da pesquisa básica na Bahia. Com a participação de sua operosa e dedicada equipe, foi autor de incontáveis trabalhos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais. Ainda com o depoimento de um de seus assistentes mais promissores, Prof. Macêdo Costa, que depois se tornaria Professor Titular de Fisiologia da FAMEB e reitor da UFBA, há uma interessante descrição de como era difícil fazer pesquisa básica naquela época.
―Todos nós, contagiados pelo entusiasmo do professor, nos dedicávamos ao trabalho, com vigor juvenil. A dedicação manifestava-se no interesse, às vezes até excessivo, para executar as tarefas. Recordo – e confesso que recordo com saudade – as inúmeras vezes em que nós próprios laçávamos gatos e cachorros vadios, ali, no Terreiro de Jesus, para realizarmos os experimentos. Relembro ainda – e aqui relembro com um meio-sorriso disfarçado no canto da boca- que deixamos de trabalhar com gato, após um grotesco e imprevisível incidente: o animal traqueostomisado por nós era bicho de estimação de uma senhora da vizinhança. Desde então, cautelosamente, transferimos aquelas técnicas para outro animal; e por esse caminho não convencional, aperfeiçoamo-nos em coelhos. Naturalmente o professor não participava, nem estimulava esses procedimentos pouco ortodoxos. Tinha notícia dos exageros e mantinha um silêncio complacente, por vezes acompanhado do sorriso compreensivo e cúmplice‖ (MACÊDO COSTA, 1981).
Aconselhamos ao leitor a não cometer o anacronismo de querer julgar hoje, procedimentos de ontem. Sem dúvida alguma, estas práticas não seriam possíveis com os avanços éticos e legais que foram feitos sobre a utilização de animais na pesquisa básica.
Prof. Jorge Novis foi também um dos didatas mais destacados do seu tempo. Suas aulas, testemunhadas por este memorialista, eram precisas e quase sempre belas e irretocáveis, tanto que atraía alunos de várias séries do curso médico, os quais lotavam o anfiteatro. Exerceu a clínica particular, na qual gozou de grande prestígio, quer como clínico geral quer como médico de família (TEIXEIRA, 1999; LEITE, 2011).
Foi o 29º Diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, de 17 de maio de 1965 a mesma data de 1968, num momento delicado, na primeira fase da ditadura militar e no momento da implantação da reforma universitária. Até aqui, não encontramos em sua direção nenhum acontecimento que o coloque como cúmplice da violência institucional dessa conjuntura política. No entanto, em 1964, na sessão 29 de abril, o professor se mostrou, assim como o diretor, Prof. Carlos Geraldo de Oliveira, submisso às forças discricionárias, inclusive justificando a violência cometida contra o Prof. Nelson Pires, agredido pelo General Manoel Mendes Pereira, comandante da 6ª Região Militar (ver ofício anexo à ata no cap. 3), lembrando naquela sessão o episódio ―da abertura dos cursos da Universidade, em que o citado professor [Nelson Pires, Catedrático de Psiquiatria, naquele momento foragido por perseguição das forças armadas pelas suas convicções políticas, ver nesta galeria] liderou movimento que foi classificado de baderna‖ (FMB.UFBA. Ata da Congregação, 29/04/1964).
Em 1970 passou a exercer as suas funções no Instituto de Ciência de Saúde (ICS), criado com a reforma universitária de 1968, que transferiu o ciclo básico para os institutos nas diversas áreas, inclusive a de Saúde.
Foi Secretário de Saúde do Estado da Bahia, no período de 1979 a 1983, e entre suas realizações estão a construção do ‗moderno‘ Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira e a implantação da Bahiafarma – Laboratório de Produtos Farmacêuticos do Estado da Bahia (ROCHA, 2004). Como dirigente médico da Associação Bahiana de Medicina, este memorialista testemunhou a lhaneza no trato e sensibilidade para com as questões da categoria e do atendimento à população pela rede de serviços estaduais de saúde, que apresentava crônicos problemas.
Nesse mesmo período (1979-1983), Prof. Jorge Novis foi do Conselho Universitário da UFBA, no reitorado de Macêdo Costa. Prof. Ruy Simões, da Faculdade de Direito, faz seu registro: ―ele, representando a comunidade religiosa; eu, uma faculdade sem religião. Ele sempre formal, retórico, comedido; eu, informal, insurgente, desmedido‖ (SIMÕES, 1991).
Foi o 10º Presidente (1983-1985) da Academia de Medicina da Bahia e foi membro do Conselho de Cultura da Bahia de 1983 a 1987.
Seu encantamento se deu em 15 de novembro de 1987. Aqui retomamos o texto de Ruy Simões (1991) que, ao registrar a perda que ocorre quando do encantamento, dá o testemunho de mais alguns traços do perfil do biografado:
―Não direi que ele foi o homem integral – modelo sonhado por Teilhard de Chardin. Digo-o, sem exagerar, um homem íntegro e integrado; homem raro e caro. Homem que cedo traçou e trilhou o binômio da própria vida. Dois únicos caminhos, paralelos, sem acidentes de percurso que o desviassem, nem hesitações no transcurso que o retardassem. Dois primorosos discursos: o pessoal e o profissional.(...) Figurando-o melhor: homem que viveu para a Família e para a Medicina. Este, o amigo que perdi: Jorge Augusto Novis. Novembro de 1987‖
Leitura recomendada
MACÊDO COSTA, Luiz Fernando de. Discurso de Saudação a Jorge Augusto Novis.
HEITOR DA COSTA PINTO MARBACK