Integrating semantic and video segmentation
CHAPTER 6. INTEGRATING SEMANTIC AND VIDEO
7.1 Summary of contributions
"O Rancho Douro Litoral nasceu a propósito dum concurso que houve na cidade há 54 anos atrás (...) a propósito dos vestidos de chita: foi um festival de folclore e de vestidos de chita entre todas as freguesias da cidade... Cada freguesia mandava um grupo, a sua representação, o seu grupo de folclore... Cultural! Desfilaram todos aqui na Cordoaria e quem ganhou foi o rancho aqui da freguesia. Foi uma quadra de euforia aqui por ter ganho o nosso rancho, mas qual o espanto de todos nós, o Presidente da Junta da circunstância dissolveu o Rancho da Vitória... Foi uma confusão! Ganhou o melhor rancho enquadrado em doze freguesias (na altura eram doze!) e dissolveu o rancho?! Eu tinha quatorze anos e lembro-me bem, foi uma grande polémica.
A maneira de resolver o problema foi o antigo ensaiador do rancho e mais um grupo de dissidentes da Junta, em conversa, terem deci- dido criar o Rancho, um rancho com vocação cultural... O Zeca Afonso, o ensaiador, tratou de tudo e pediu ao meu pai para eu fazer parte. A primeira grande reunião fez-se ali numa adega atrás que ainda hoje existe, a Adega Oliveira. Eram doze, doze elementos e o meu pai ficou como Tesoureiro, só que ele não ligava nenhuma e eu é que o representava...
Mas a alma do rancho era o Zeca Afonso, ele era o braço esquerdo e direito de tudo e, é claro, foi ele quem arranjou e descobriu ali em Belmonte dois escritórios de advogado que conseguiu transformar em sede. Chorava, ria, fazia tudo pelo rancho, era... Como nunca tínhamos dinheiro, fizemos as obras a pedir aqui e acolá. Depois quando se formou o corpo cénico, o grupo cultural, era preciso dezenas e dezenas de metros de tecido e lá fomos nós pedir para as fiações... Precisámos de peúgas?! Fomos na mesma... Como os componentes precisavam de socos e chinelos também fomos à procura e arranjámos tudo de graça. Só as botas e alguns chinelos é que tivemos de comprar.
Quando tudo ficou pronto fez-se uma grande inauguração da sede, uma grande festa para apresentação oficial do rancho com as auto- ridades civis e religiosas. Para apresentar os futuros membros do Rancho vestiu-se um casal, um rapaz e uma rapariga... O rapaz era eu! Era para ver se gostavam da farda!
Na altura não faltava gente, a casa estava sempre cheia, faziam-se festas ao fim-de-semana, tudo. Hoje funciona com grandes dificulda- des, às vezes nem tem Direcção, épreciso Comissões Administrativas e se não fosse a Junta da Vitória e de Miragaia aquilo quase não sobrevivia ".
Américo, Caldeireiro reformado.
"Nunca me esqueço disso... Eu jogava no Porto e às cinco da tarde vinha jogar para o Vitória, Sempre houve uma grande tradição des- portiva na Vitória, e o primeiro Vitória foi muito grande no boxe. Não tínhamos sede nem nada, reuniamo-nos aqui e ali e chegámos a ter grandes campeões de boxe, rapazes que chegaram à categoria de profissionais e, coitados, hoje estão velhos ou já morreram... Não havia partida de boxe no Palácio onde o Vitória não estivesse repre- sentado. Só que, depois, acabou... Foi há quarenta anos. Este Vitória formou-se passado alguns anos, mas era um clube popular, não fazia campeonatos de amadores, não fazia nada. Jogava ao domingo de vez em quando. Agora treinam todos os dias, menos à
sexta-feira, e têm uma preparação como um clube da Distrital, embora joguemos na 1." Divisão Amadora.
Mas isto já não é como dantes. Temos aqui uma boa equipa, mas nin- guém quer saber disto. Actualmente estamos com uma Comissão Administrativa e eu é que trato da Polícia, da Associação de Futebol... Vamos conseguindo umas ajudas daqui e dali e a Junta apoia-nos muito, porque senão então era impossível".
João, Artesão reformado, ex-jogador do F. C. Porto.
"O Vitória é a colectividade mais antiga da Vitória, porque é a única que há mais tempo existe aqui dentro da freguesia. Foi criada como continuação do Sport Lisboa e Vitória, filial do Benfica que se extin- guiu e foi formado por uma nova geração de moradores em 16/08/1958.
A motivação do Vitória como clube era nitidamente desportiva, por- que cultural já existia o Douro Litoral, e para além disto tentou-se sempre proporcionar a celebração de festividades de forma a criar aspectos mais recreativos para os sócios e isto porque esta é sempre uma maneira dos associados e das pessoas da freguesia, das famí- lias, se juntarem todas e de brincarem um bocado. Conviver é sempre um aspecto salutar".
Adriano, Presidente da Comissão Administrativa do Vitória Sport Clube
"O Lindouro foi fundado em 1980. O clube é recente, as pessoas é que não. São quase todos também sócios de uma outra colectividade: o Rancho Douro Litoral. Isto porque cerca de 10 sócios do Rancho lembraram-se de criar uma colectividade desportiva dentro do ran- cho, só que os estatutos não o permitiam e nós teríamos de desenvol- ver uma vertente desportiva noutra colectividade. Foi o que fizemos... No início reuniamo-nos em casa dos associados e chegámos a dar cem escudos por semana de quota. Andámos nisto cerca de dois anos e depois alguém falou aqui com o 'Ti Meço' que era senhorio aqui do imóvel e lá o convenceram a alugar esta garagem. Os sócios com o trabalho de dois trolhas melhoraram isto e isto foi crescendo. Somos federados no Futsal nas camadas jovens e somos candidatos a um bom lugar na fase final".
"Quando no Rancho combinaram fazer um clube de jogo vieram ter comigo e com dois ou três rapazes já com um bocado mais de idade a ver se tomávamos conta disto. Fizemos clube e eu é que era o Tesoureiro. E claro que não tínhamos casa ejá naquela altura a pri- meira quota semanal foi de trinta escudos e sempre a aumentar... Eu é que guardava o dinheiro e não havia recibos nem nada. Eu trazia um papelinho comigo onde dizia os nomes (Francisco Soares, Zé Pinho...) e ao fim-de-semana andava atrás deles de papelzinho na mão. Oh pá, já me chamavam o 'azeiteiro' deles. Ao fim de um ano comprámos os equipamentos e depois falaram com o meu tio e viemos para aqui... "
Presidente do Lindouro, Caldeireiro residente nas Antas.
4.4.2. Efervescência, conflitualidade e interconhecimento nas práticas de sociabilidade das colectividades da Vitória
Salvo no caso do rancho folclórico, em que devido às competências musicais e de dança exigidas nem sempre se encontra localmente toda a gente indispensável ao seu funcionamento, a origem daqueles que frequen- tam as colectividades da Vitória é predominantemente local.
Como nos cafés a marca de forte interconhecimento é acompanhada por predominância masculina, sendo mais uma vez o Rancho que mais se destaca no que respeita à composição feminina (sobretudo em noite de ensaio).
Tanto nos muitos homens como no menor número de mulheres iden- tificam-se indivíduos de meia-idade, somente complementados pela "gente nova que tanta falta cá faz" (como nos dizia um frequentador do Rancho) nos dias de maior actividade associativa — no caso dos clubes desportivos, o Sábado e o seu fím-de-tarde depois dos jogos; no caso do rancho, na noite de ensaio.
Assim, excepto nos dias onde avultam actividades especificas das colectividades e ao Domingo à tarde (altura em que as mulheres dos asso- ciados mais frequentam as colectividades 180), as colectividades são fre- quentadas por homens de meia idade, não deixando de existir alguma influência da proveniência social no tipo de configuração assumido por cada uma. Assim, se, segundo o Presidente do Vitória, a origem operária do clube e de muitos dos seus sócios não levanta muitas dúvidas, para o
180 Donde devemos excluir a Cruzada de Bem-Fazer dos Amigos de S. Fiel por apenas
Lindouro a marca da PB nas suas variantes proprietária — quantas vezes residente já fora da freguesia — e de execução, não deixa muitas dúvidas ao observador atento, o mesmo se passando com os elementos do Rancho donde estes são originários.
No entanto, as diferenças sociais e de vocações específicas (e de que cada membro de colectividade é defensor acérrimo, até como forma de evitar competições ainda mais acrescidas entre estas) parece não materiali- zar-se quando captada do ponto de vista das práticas quotidianas que aí decorrem (a não ser o dia específico das práticas de cada uma, pareceriam todas iguais): "(...) uma fervilhante actividade de jogo, de cartas (...)", de matrecos, "a ocupação da sala de televisão, a conversa mais ou menos rui- dosa, mais ou menos regada no espaço do bufete" 181 é o que nos é dado a ver no "noite-a-noite" das colectividades da Vitória 182.
Ao fim-de-semana, nomeadamente ao Sábado, os prazeres culinários aumentam à medida que o entardecer avança e muitos sócios aqui se diri- gem em busca de mais um petisco, de uma cerveja ou mesmo de um copo de whisky.
Pontualmente, por altura do Carnaval, da data de aniversário da colectividade ou do S, João, as colectividades vivem a azáfama do extraor- dinário feito de celebrações, de almoços e jantares comemorativos, de fes- tivais, de grandes torneios de sueca ou de garujo intersócios e intercolecti- vidades 183, de discursos de "sócios número Um"... E, se a solenidade do discurso tem poder para romper com a discórdia e reunificar o grupo, não se pode nunca esquecer a conflitualidade que logo a seguir se pode desen- cadear.
Caracterizadas por um respeito (feito de muita oficialidade) dos "car- gos de responsabilidade", não faltam a todas as colectividades importantes "organigramas", havendo estatutariamente que cumprir sempre os desígnios da posse de um Presidente da Colectividade, um Presidente da Assembleia Geral, um Presidente do Concelho Fiscal e vários Directores. Estes dividem entre si as responsabilidades pela resolução dos problemas que atravessam a colectividade: o grau de complexidade da gestão dos fundos, os concursos a subsídios, a gestão do bar e das equipas ou diferentes agrupamentos obri- gam a um controle de recursos muito apurado, sendo, por vezes, esta aten- ção constantemente exigida às Direcções que desmotiva os associados a
181 CORDEIRO, Graça índias — Op. cit, p. 207.
182 A maioria das colectividades abre durante a semana apenas à noite, e à tarde e à
noite ao fim-de-semana.
183 Sob impulso da Junta de Freguesia têm sido criadas novas modalidades de concur
sos intercolectividades que têm conhecido grande sucesso local, como os torneios de pesca, "onde até aparece gente que nunca põe os pés nas colectividades".
tomarem iniciativas do género de "constituir uma lista": "— Cai sempre tudo em cima do Presidente, é terrível e estou um bocado farto disto; prefiro ser Tesoureiro, acaba por ser mais fácil!" (dizia-nos o Presidente do Lindouro). Não espantará, por isso, que muitos dos actuais presidentes das colectividades locais sejam pessoas que há muito não vivem na freguesia e que aproveitam "os bons lugares" dos sítios onde trabalham, "os meus conhecimentos" para "pedir um subsídio a um, um favor a outro..." 184.
A conflitualidade 185 de que falámos passa assim por uma luta, nem sempre silenciosa, entre as "ordens" da Direcção e os "desrespeitos" da lei por parte dos associados — frequentemente identificados como sendo "devidos à inconsciência dos mais jovens" 186. De resto, não fossem os pro-
blemas da juventude da Vitória e a necessidade de os responsabilizar e
empenhar nas actividades associativas — sempre presente no discurso dos dirigentes associativos locais — e, concerteza, estes conflitos poderiam ser bem menos fáceis de resolver do que normalmente são, e isto porque actualmente o mesmo empenhamento juvenil (visível, por exemplo, na prá- tica desportiva dos clubes locais) é muito reduzido 187.