• Aucun résultat trouvé

No que respeita a esta subcategoria, entendendo o Real como toda a Circunstância que envolve o Indivíduo, em uníssono com o postulado de Ortega y Gasset, tomemos como referência alguns dos resultados dos inquéritos aplicados. Iniciando a nossa análise pelo inquérito a priori, os alunos das Visitas de Estudo de Português e de Espanhol (nove), respondendo à questão n.º 12 (Considera que a realização de visitas de estudo enriquece o conhecimento que tem sobre as matérias trabalhadas na sala de aula? Porquê?), revelaram que elas lhe propiciaram uma reflexão sobre as matérias estudadas, como também uma oportunidade e mesmo a capacidade de as colocar em prática. Esta visão de pragmatismo dos conteúdos e da capacidade de desenvolver as suas competências é mais visível nas respostas à pergunta n.º 13 (Que tipo de competências uma visita de estudo desenvolve nos alunos?). Aqui os alunos dos dois grupos (oito) são mais perentórios na expressão das suas representações. Estes discentes, antes de participarem nas nossas atividades, consideravam que as Visitas de Estudo desenvolvem vários tipos de competências. Porém, dentro do apartado em que nos encontramos, consideraram que estas atividades contribuem para uma compreensão da realidade, por um lado, e, por outro, ajudam a encontrar instrumentos e a desenvolver capacidades que permitam precisamente compreender melhor essa realidade. Não deixa de ser interessante que a este nível os alunos também tenham asseverado que uma das grandes competências desenvolvidas pelas Visitas de Estudo, lato sensu, é a capacidade de leitura crítica da Realidade que os rodeia.

Sendo alunos de Humanidades, a Realidade para a qual mais estão despertos prende-se precisamente com esse padrão de circunstâncias. No entanto, os alunos de Espanhol, pertencendo ao 10.º ano de escolaridade, tendo por isso os conteúdos de formação global ainda muito presentes, não descuram os elementos oriundos do campo da Ciências Naturais. A este nível, podemos perceber que os alunos, nas suas representações, consideram a Visita de Estudo como um elemento que desenvolve competências de interpretação da Realidade.

Esta perspetiva é corroborada por algumas das respostas recolhidas ainda no contexto deste inquérito a priori, aquando da pergunta n.º 14 (Se tivesse que organizar uma visita de estudo, que elementos privilegiaria? Porquê?). Alguns dos discentes (seis) consideraram como fator importante, caso fossem eles os organizadores de uma Visita de Estudo, a possibilidade de haver momentos que contemplassem a interpretação dos espaços e da paisagem que se visitasse, promovendo assim o desenvolvimento das capacidades relacionáveis. Nesta senda, quando observámos o seu comportamento durante as Visitas de Estudo implementadas e o modo como as foram interpretando e assimilando, percebeu-se pelas suas reações e opiniões que as Visitas de Estudo criam per se nos discentes essas capacidades de entender, com mais prontidão e aptidão, o meio onde estão inseridos.

Nos Inquéritos in tempus aplicados no decurso das duas Visitas de Estudo, vejamos, então, os assuntos relacionados com essa competência de interpretação do Real. Quando se pergunta qual foram os motivos que levaram a participar na visita de estudo (pergunta n.º 4), as respostas levam-nos a dizer que a maioria destes alunos (treze) viu na viagem um modo de compreender os espaços físicos e culturais; ao terem tido acesso ao programa da Visita de Estudo anteciparam um contacto com a realidade que iria ao encontro dos seus gostos e dos seus interesses. Esta visão acontece de um modo muito flagrante com os alunos de Português, mas sobretudo com os alunos de Espanhol, que fizeram, de acordo com o seu relato, pela primeira vez uma Visita de Estudo a Espanha onde houve um incentivo muito presente para contactar com a realidade e cultura espanholas.

Neste particular, quando os alunos das Visitas de Estudo a Espanha dão conta dos aspetos positivos (questão n.º 5), grande parte (oito alunos) acentua a sua organização, na medida em que esta privilegiou momentos de interpretação dos elementos que os circundavam (fosse um monumento, fosse uma praça, um mercado...), que de acordo com

a sua opinião teve em linha de conta uma leitura de transversalidade proposta pelo professor-guia. A totalidade era vista em cada monumento, cada diversidade era vista no todo da cidade.

A este nível entroncam as respostas à pergunta n.º 7 (Considera que a atividade foi ao encontro das suas expectativas? Porquê?), que nos dois casos patenteiam que as expectativas foram superadas claramente, sendo uma das razões o facto de terem desenvolvido as suas capacidades de interpretação do contexto. Já no que toca às respostas recolhidas em relação à pergunta n.º 8 (Na sua opinião, o que é que esta visita de estudo lhe trouxe?), algumas delas (seis) entroncam na defesa e legitimação das capacidades que estas Visitas de Estudo conferiram aos alunos para compreensão e interpretação do espaço exterior (e interior) que os rodeia. Sendo pelo espaço da novidade do estrangeiro, sendo pelo espaço ignoto do esotérico, estes alunos foram per se, em harmonia com as suas opiniões, conseguindo analisar sinais, elementos, realidades que lhes propiciaram no final da visita de estudo uma competência que ou não tinham ou estava pouco desenvolvida. Aliás, na Visita de Estudo que teve a duração de dois dias, no segundo os alunos já tinham incorporado essa dinâmica, fruto do trabalho realizado no dia pretérito. Desta evidência nos é dado conta quer nas notas de campo, que no grupo focal da Visita de Estudo de Espanhol.

De um modo mais focalizado em relação às competências, os alunos puderam expressar o seu ponto de vista na resposta n.º 12 (Qual o contributo destas atividades para a aquisição dos conteúdos da disciplina, ou para o desenvolvimento de competências?) sobre as competências adquiridas. Muitos alunos dos dois grupos houve (nove) que afirmaram que o contacto com o contexto, com a circunstância e com a conjuntura foram elementos importantes. Não olvidemos neste campo que por Real não se entende apenas a coordenada espacial, mas também a temporal. Neste particular, os alunos do grupo de Espanhol indicaram que conseguiram perceber diacronicamente o percurso evolutivo de um espaço urbano.

Nos inquéritos a posteriori, os alunos referem precisamente a competência de interpretação do Real como um domínio trabalhado e incrementado. Em resposta à pergunta n.º 8 (Considera que a “rua” pode ser um bom laboratório para o estudo de língua(s) e cultura(s)? Porquê?) os alunos dos dois grupos (sete) referiram que o facto de se estar no exterior, na rua, a língua e a cultura são compreendidas com mais eficácia. No

capítulo da cultura, a capacidade de interpretar o espaço exterior que é diferente da realidade a que os alunos estão acostumados, implicou, segundo as suas representação, um esforço e uma ginástica de interpretação do espaço. O contacto com realidades diferentes permitiu e demandou que a competência de interpretação do Real se transformasse, tendo sido refletido em introspeção e em debate. Estas representações foram veiculadas pelas representações dos alunos dos dois grupos de trabalho, conquanto saibamos que as exigências sejam diferentes.

Na mesma medida, podemos encontrar ressonâncias da importância conferida à competência da interpretação do Real na pergunta n.º 9 (Em que áreas considera que enriqueceu o seu conhecimento? Porquê?). Os alunos (quatro) aqui reconheceram que não apenas evoluíram em conhecimentos como também em competências, contribuindo inclusivamente a sua evolução cognitiva para a evolução das suas competências. Neste particular, o facto sublinhado pelos alunos foi a análise oblíqua e em transversalidade dos conhecimentos, o que implicou uma interpretação face ao contexto em que se estava, espacial e temporal, levando os alunos à sua interpretação. Claro está que a situação concreta em que estes alunos se encontravam os incentivou à realização desse tipo de interpretação.

Por último, a questão n.º 11 (Depois desta visita de estudo, recomendaria aos seus colegas uma futura participação? Porquê?) ajuda a perceber que a interpretação do Real foi uma competência desenvolvida e tida como relevante pelos participantes destas duas Visitas de Estudo. Perante a unanimidade dos discentes das duas visitas na recomendação para que os seus colegas participassem, essa opinião foi sustentada na sensação de pragmatismo com que contactaram com o real e no modo como o “aprenderam” a ver, a ler e a entender. A vivificação dos conteúdos, de acordo com alguns destes alunos (quatro), adveio dessa relação de interpretação com o Real, sendo entendido e descoberto.

Ainda ao nível dos outros instrumentos de recolha de dados, sobre a temática em discussão, urge que façamos menção às notas de campo, destacando o caso da Visita de Estudo de Português, que pelas suas características particulares desenvolveu nos alunos uma obrigatoriedade de análise do espaço. Não olvidemos que o jardim iniciático da Quinta da Regaleira implica esta postura de análise do Real, pois só assim conseguimos verdadeiramente entrar na dimensão cenográfica proposta. Daqui decorre que os alunos

foram instigados pelo próprio espaço a desenvolverem capacidades que lhes possibilitasse a sua compreensão.

Documents relatifs