Nas páginas anteriores ficou, a modo de preâmbulo, esboçada a finalidade, explicitada a origem e descrita a estrutura da dissertação que aqui principia. Com ela tencionamos assomar-nos ao muro que afasta a China da Tartária, e elegemos o verbo de propósito, por quanto nos ajuda a evocar os vários sentidos para os que gostaríamos de apontar ao utilizá-lo.
Por um lado, estimulados por uma inquietação – ou conjunto de inquietações – que vem de alguns anos atrás, resolvemos com este trabalho assomar-nos ao dito muro; isto é, trepar por essa muralha acima25. Por outro lado, confiamos em que tal percurso ascendente nos conduza até a uma diferente perspectiva das relações interliterárias entre Portugal e Espanha; ou seja, que, no final do percurso, do cimo do muro, algo de novo
assome perante os nossos olhos, mesmo se apenas se ‘começar a mostrar’.
Intuímos à partida que a subida que empreendemos será custosa, pois propomo- nos ir detectando, pelo caminho, as hipotéticas fendas que na muralha levantada entre Espanha e Portugal terá aberto a tradução, nessa direcção. Mas o propósito da nossa escalada não é, entretanto, deter-nos pormenorizadamente nas (presumidas) fendas translativas que possamos encontrar. Ambicionamos, antes, podermos atingir, do alto da muralha, uma visão panorâmica, abrangente, da literatura espanhola traduzida no espaço cultural português entre 1780 e 1850.
Nesta primeira parte da tese, iremos debruçar-nos mais um pouco sobre o alvo das nossas pesquisas e reflexões (para quê assomar-se ao muro). Convirá igualmente, e antes de mais, clarificar (por e com a honestidade a que nos obriga uma abordagem que se pretende e se autoproclama científica) até que ponto ou em que medida nos assomaremos ao muro que afasta a China da Tartária e, ainda, por que razão o fazemos, aferindo a pertinência do estudo. “To begin at a beginning”, diz-nos Anthony Pym, o
25 Este significado do verbo assomar em português (‘aparecer em lugar alto, subir a’: ver, por exemplo,
http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/assomar, consultado a 28/2/2016, primeira acepção), caiu em desuso no castelhano asomar (ver http://dle.rae.es/?id=42cgzQK, consultado a 28/2/2016, quarta acepção). Para esse entendimento de assomar-se, existe no espanhol actual encaramarse (cfr. o português empoleirar-se), subirse, etc. O outro sentido em que empregamos o verbo (nas acepções de ‘mostrar-se, manifestar-se’ e de ‘começar a mostrar-se, surgir’) regista-se no mesmo dicionário electrónico da Porto Editora cujo endereço atrás referimos. Aproveitamos a ocasião para expressar a nossa gratidão à Doutora Ângela Prestes, colega, amiga e generosa consultora linguística, pela sugestão – como falantes não nativos da língua portuguesa, e apesar dos longos anos de convívio diário com ela, desconhecíamos o primeiro dos sentidos aqui invocados através do verbo assomar.
primeiro que o investigador, nomeadamente o historiador (da tradução, da literatura, da cultura...), deve fazer é certificar-se de que está a tratar de responder a uma questão relevante – precisamos, por isso, de conferir se “we are asking an important question” (Pym, 1998: 20). Só nesse caso poderá valer a pena o esforço requerido para assomar-se ao muro à procura do que, do alto, assoma.
Assim, além de se desenvolver a precedente descrição dos fins e as motivações
subjectivas do estudo, justificando ao mesmo tempo o seu interesse (capítulo I.1), serão
estabelecidos igualmente os seus outros fins, demarcando-se os limites epistemológicos (I.2), temporais e espaciais (I.3) dos primeiros – os objectivos gerais enunciados na epígrafe I.1. A exposição do propósito da pesquisa irá, pois, acompanhada dos seus contornos ou limites, entendidos estes no sentido (neutro) de ‘balizas’ ou ‘segmentações’ (extensão espaçotemporal ou termos geográfico-cronológicos), mas invocados também na sua acepção mais negativa de ‘insuficiências’ ou ‘limitações’ no alcance – e não apenas em jeito de captatio benevolentiae.
I.1. Objectivos e motivações
“Portugal e Castella continuão a estar de estremados por uma bruta muralha de compléta indifferença, mais massiça e alta que o muro que affasta a China da Tartaria!”. Quando, a 7 de Outubro de 1841, António Feliciano de Castilho emprega a hipérbole humorístico-metafórica que serve de mote a esta tese26, ia só no segundo número o semanário onde se publica o artigo em que aparece a frase em questão, por ele próprio dirigido até 1845 – a Revista Universal. Chronica Judicial, Artistica, Scientifica,
Litteraria, Agricola, Commercial e Economica de todo o mundo, que tal era o seu nome
completo, embora seja de todos mais conhecida como Revista Universal Lisbonense,
26 E cuja ideia vem ecoando em jeito de lugar-comum no discurso de todos aqueles que se ocuparam das
relações entre Portugal e Espanha até, praticamente, aos nossos dias. Referimos apenas um exemplo relativamente próximo. No ano de 1986 veio a lume, sob o título de Portugal, Povo de Suicidas, uma colectânea, preparada por Rui Caeiro, de vários escritos de Unamuno traduzidos para português e retirados, fundamentalmente, de Por tierras de Portugal e España – uma obra que não tinha sido vertida para a língua portuguesa até aí. No prefácio á primeira edição deste volume, podemos ler, logo nas primeiras linhas: “Toda a literatura espanhola é mal conhecida em Portugal. Não foi possível até à data, não obstante uma ou outra tentativa isolada, romper o recíproco e teimoso desconhecimento em que os dois povos têm vivido, como se uma peculiar muralha da China os separasse” (itálicos nossos). Citamos por Miguel de Unamuno, Portugal, Povo de Suicidas, tradução, apresentação e selecção de textos de Rui Caeiro, Lisboa, Letra Livre, 2012, 4ª ed. (1ª ed. de 1986). Destaque-se, já agora, que no prefácio à segunda edição (2008) Caeiro frisa como o desconhecimento da literatura espanhola em Portugal anteriormente notado tinha sido alterado graças a um intensivo labor de tradução ou retradução de “alguns clássicos do país vizinho, bem como importantes autores modernos ou contemporâneos”.
segundo se passou a chamar a partir de 20 de Janeiro de 1842. O espaço que o editor e redactor principal havia concebido para a divulgação, nas últimas páginas do periódico, das novidades literárias fora ocupado, no número inaugural, pelas “obras portuguezas que se acham no prelo”, com a promessa de em breve lapso alargar essas notícias à produção forânea:
Por falta de espaço damos hoje pouca bibliographia portugueza, e nada da estrangeira27: no
seguinte numero resarciremos [sic] amplamente esta omissão; e em todos [sic] diligenciaremos satisfazer com a maior cópia de taes noticias, que nos seja possivel, a insaciavel avidez dos apaixonados da leitura.28
Nesta ocasião – o segundo número da revista, deve reiterar-se – é a “Bibliographia Castelhana” a escolhida. Mas o título não faz jus ao conteúdo do artigo. Com efeito, enumera Castilho, no post scriptum, os rótulos de sete “obras castelhanas proximas a sahir à luz”, duas das quais são traduções do alemão, acrescentando mínimas informações de cada livro citado (em português)29, ao passo que anuncia, para finalizar, e entre parênteses, a intenção de continuar “com esta e mais bibliographia estrangeira” em próximas entregas. Mas o grosso do artigo, que é o pequeno texto que precede essa relação bibliográfica, excede o meramente informativo (de que tem pouco) para se constituir numa declaração apologética em favor de um (no seu entender, inexistente na altura) “mutuo commercio intellectual” entre os “povos irmãos” de Portugal e Espanha, instando a que se abram “novos meios de consumo ás duas litteraturas”. Não faz sentido que estes dois “não vizinhos, senão moradores quasi, do mesmo terreno”, continuem “um do outro afastados por milhões de leguas”, máxime no quadro (supranacional, dirá Claudio Guillén cerca de um século e meio depois30) da “confederação universal de républicas [sic] litterarias” que “hoje” se impõe, fazendo com que fiquem “varridas de
27 Não é bem assim. A literatura italiana já é atendida nesse primeiro número da Revista, em que Castilho
redige, por engano, uma nota obituária – rectificada, logo, no seguinte fascículo – a Sílvio Pellico, cujas Le mie prigioni tinham aparecido recentemente vertidas para português por um anónimo – tradução que o autor vivamente recomenda.
28 [Castilho], nota de encerramento a Revista Universal, tomo I, n.º 1, p. 12, acedido a 7/4/2012 em
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/RUL/1841-1842/Outubro/N.º%20001/RULN1.pdf.
29 São eles “Compendio Chronologico da Historia de Hespanha, desde os tempos mais remotos até
nossos dias. Curso de Direito Natural, ou de filosofia do direito. Traducção do Allemão. Livraria de Juizes, Letrados, e Escrivães. Fastos Hespanhoes, ou Ephemérides da guerra civil desde 1832 até hoje. Bibliotheca Infantil, dedicada aos meninos e amigos da meninice. Traducção do Allemão. Musêu Infantil, ou colecção de historias curiosas e instructivas para incitar a applicação dos meninos. Viagem Pitoresca á roda do Mundo, resumo geral das viagens e descobertas de Magalhães, Tasmar, Dampierre, etc., etc.” (Castilho, 1841).
30 Guillén, 2005: 27 e 394, nota 1, onde esclarece: “respecto a mi propia definición [de Literatura
Comparada como o ramo dos estudos literários que se ocupa do estudo sistemático de conjuntos supranacionais], advierto que coincido con Dyserinck 1972: 11: «[wir können] die Komparatistik spezifisch supranational nennen».”
sobre a terra” as preocupações de “casta” (Castilho, 1841). De semelhante despropósito (“absurdo” é o termo empregado por Castilho) acusa principalmente os livreiros de um e outro lado da raia:
Porque [sic] razão, perguntal’o-hemos a Portugal e á Hespanha, por que razão havendo em Lisboa e Madrid venda publica e abundante de livros francezes, de livros inglezes, de livros americanos, e ainda um pouco de livros italianos e allemães, em Madrid se não encontra um livro Portuguez, em Lisboa se não encontra um livro Castelhano?! (Castilho, 1841).
Remata Castilho com uma (nova) exigência de reciprocidade, justo antes da assinatura: “Da generosidade e justiça dos nossos visinhos fiamos que será lá imitado o nosso exemplo” (Castilho, ibidem).
Do valor simbólico deste escrito (e do tempo em que surge) no tocante às relações interliterárias aqui atendidas, já ponderado por Pérez Corrales (2003: 10, 78- 80), motivo principal pelo qual figura como epígrafe para esta dissertação o muro que ali se denuncia, ocupar-nos-emos muito em breve. Declararemos, primeiro, mais algumas razões (ligadas ao local e à autoria) que também nos levaram a essa utilização, apesar de que a reclamação de Castilho é endereçada ao consumo das obras em versão original, como atrás se pôde verificar – isto é, ao que a teoria polissistémica designa de interferências directas entre literaturas (Even-Zohar, 1990b31).
A primeira dessas razões prende-se com o peso histórico, do ponto de vista intra como interliterário, sincrónico como diacrónico, concedido ao autor deste breve texto reivindicativo. António Feliciano de Castilho desponta, por uma parte, como um dos
patriarcas do Romantismo português, onde conforma, com Almeida Garrett e
Alexandre Herculano, a tríada da sua primeira geração – ou seja, faz parte de um elenco de indivíduos que, dito mais uma vez em termos sistémicos, sobressaem enquanto
arquiprodutores ou construtores destacados do repertório literário (enquanto indivíduos
envolvidos na produção de um repertório inovador aceite e replicado por um grupo) e aos quais lhes é outorgada a condição de “productores oficialmente autorizados por el conjunto de la sociedad” (Even-Zohar, 1999a: 47). Mesmo não sendo “en absoluto un espíritu romántico, sino clásico”32, e mesmo não gozando hoje do prestígio literário que
31 Na ulterior exploração dos modos de interferência possíveis entre literaturas, iremos utilizar os termos
em português (directa / indirecta, mediada / não mediada) que, a partir do supracitado trabalho de Even- Zohar (1990b), cunha Maia, 2012: 46-47. Sobre a interferência literária, vid. tm. Even-Zohar, 1990a e 1990d.
32 Pérez Corrales, 2003: 40. As únicas excepções seriam os poemas byronianos A noite do castelo e Os
lhes é concedido a Garrett e a Herculano33, Castilho continua a ser uma referência ineludível – nominal, ao menos – na historiografia que se ocupa do movimento. É, ao mesmo tempo, por paradoxal ou contraditório que possa parecer, representante paradigmático do modelo literário (ultrarromântico34) da segunda geração romântica, contra o qual (ou os quais – o modelo literário e o próprio Castilho, que o encarnava) se insurgiu o grupo da Questão Coimbrã. Por outra parte, trata-se, igualmente (e, de novo, com Garrett e Herculano), de uma figura destacada e “fundacional” (Pérez Corrales, 2003: 10) na aproximação entre a literatura portuguesa e a literatura espanhola, perfurador de fronteiras e muralhas a vários títulos, entre os quais se destaca o seu labor, precisamente, como tradutor, pois foi co-autor de uma das mais célebres (e mais lidas, em Portugal como no Brasil) versões para português do livro que, segundo se verá no capítulo I.3.2, ajuda a marcar aqui o termo a quo – o Quixote de Miguel de Cervantes35. Isto, ainda que na Revista Universal, fora a “Bibliographia Castelhana” de 1841, predicasse pouco “con el ejemplo, ya que sólo nos da, en 1843 […], un artículo sobre
romanticismo era un romanticismo «decorativo», y la generación del 70 lo llamará «árcade póstumo»” (Pérez Corrales, ibid.). De resto, toda a produção literária da primeira geração romântica se caracterizaria por um sincretismo entre um Neoclassicismo em que se formaram os seus integrantes e um Romantismo que, a partir daquele, introduzem.
33 Fátima Freitas Morna estende-se nas primeiras páginas das suas “Notas acerca da poesia romântica
portuguesa e espanhola” (1999) sobre as raízes e as consequências do “apagamento” de Castilho na visão simplificadora do Romantismo português dominante na historiografia contemporânea. Também Carlos Castilho Pais (2013) deixa constância das “injustas apreciações que têm constantemente denegrido o lugar de A. Feliciano de Castilho no Romantismo Português” (Pais, 2013: 20) – é para as tentar reverter que escreve este ensaio (Pais, 2013), tal como o fizeram outros autores nele referidos, nomeadamente: António Coimbra Martins (De Castilho a Pessoa. Achegas para uma Poética Histórica Portuguesa, Lisboa, Institut Français au Portugal, 1969), J. A. Osório Martins (“Um ofício em centenário”, Colóquio/Letras, n.º 28, 1975), David Mourão-Ferreira (“António Feliciano de Castilho, poeta”, separata de Memórias da Académia das Ciências, vol. XIX, 1976) ou Fernando Venâncio (Estilo e Preconceito. A Língua Literária em Portugal na Época de Castilho, Lisboa, Cosmos, 1998).
34 Um Ultrarromantismo que seria praticamente concomitante ao próprio Romantismo ainda em
desenvolvimento. Esta e outras inconsistências terminológicas e periodológicas serão apresentadas, sem apenas debatê-las, no capítulo II.6.1.
35 Castilho morreu, passe o excessivo da frase, a traduzir o Quixote para a edição monumental que
preparava a recém-fundada Companhia Litteraria do Porto (podem ver-se os depoimentos abonatórios de Pinheiro Chagas e Bulhão Pato apud Pais, 2013: 16, n. 10). O contratempo que supôs tal óbito foi resolvido com a participação, primeiro, do visconde de Azevedo e, depois, de quem havia também de redigir o prefácio para esta publicação, Pinheiro Chagas – não sem que antes fosse ponderada a continuação da tradução por parte de outras figuras, entre as quais se destaca o nome de Camilo Castelo Branco (vid. Abreu, 1994: 253-259). Foi assim que a Imprensa da Companhia Litteraria pôde dar a lume, em 1876-1878, a que é a primeira versão portuguesa assinada da obra de Cervantes. A parte realizada por Castilho não vai além do capítulo XXV ou XXXV da primeira parte (Abreu, 1994: 255), o qual não impediu vir a ser esta tradução conhecida como a dos viscondes de Castilho e de Azevedo. O labor de Castilho enquanto importador literário não se limita, de resto, à literatura espanhola. A sua concepção da tradução e das funções dos textos traduzidos na cultura de acolhimento é analisada por Carlos Castilho Pais (2002). Uma compilação preparada pelo mesmo autor, sob o título de António Feliciano do Castilho. O Tradutor e a Teoria da Tradução (Coimbra, Quarteto, 2000), faculta-nos uma visão mais completa dessa alargada actividade de Castilho.
Campoamor, el primero que se dedicó en Portugal a este poeta” (Pérez Corrales, 2003: 80).
Por sua vez, tal como o seu primeiro director, a própria Revista Universal ocupou uma posição central no sistema literário português, ao tempo que conta entre as publicações periódicas que abriram algum espaço ao diálogo entre as literaturas portuguesa e espanhola. A primeira geração romântica portuguesa teve aí um importante órgão de expressão. Colaboradores da revista foram, entre outros nomes mais ou menos
maiores do Romantismo, Garrett, Herculano, Mendes Leal, Bulhão Pato – este
“devorado pela sua caricatura imaginária” encarnada pelo Alencar de Os Maias, “e também devorado por um prato de amêijoas” (Magalhães, 2007c: 121) – ou Camilo. Nela, como é sabido, deu a conhecer Almeida Garrett, entre 1845 e 1846, as suas
Viagens na Minha Terra. E Herculano, vários fragmentos do seu Eurico, o Presbítero
(1844)36. Foram difundidas, ainda, algumas traduções do espanhol, como a emblemática “Canción del pirata”, de José de Espronceda, a qual viu a luz por vez primeira ali, em 1846, em versão de Mendes Leal37. Poeta traduzido este que, por sinal, e por acaso no mesmo ano em que Castilho fazia a sua reivindicação (1841), deixa escritas umas palavras sobre o descabido afastamento entre Portugal e Espanha que parecem calcadas às da “Bibliographia Castelhana”: “la dificultad de comunicaciones entre los dos países ha levantado una barrera que, como la muralla de la China, los separa completamente de nosotros” (apud Dasilva, 2008: 17).
Depois, está a importância do texto em si, e o valor simbólico, antecipado há umas linhas, de que se reveste o momento em que aparece – o século XIX e, mais precisamente, a passagem da primeira para a segunda metade do século. Para Miguel Pérez Corrales, esta “Bibliographia Castellana” é “un artículo fundamental, que funciona casi como un detonador” (Pérez Corrales, 2003: 78) e marca um antes e um depois nas relações culturais de Espanha e Portugal. Como era o antes e como foi o
depois? Os próprios trabalhos de Pérez Corrales (2000 e 2003) resultam muito
reveladores a respeito da modificação quantitativa e qualitativa dessas ligações, sobretudo ao apreciá-la em termos relativos; ou seja, quando comparada com a situação
36 As duas obras, consideradas ambas marcos na história do género narrativo português, foram traduzidas
para a língua espanhola ainda na centúria de oitocentos. As Viagens, em 1861, em versão escassamente conhecida de Romualdo de Lafuente (retraduzida apenas em 2003, também em edição minoritária). O Eurico, em data mais próxima (significativamente próxima) à publicação do texto original, em 1845 (existe uma retradução de 1875). Para a (in)fortuna tradutiva na literatura castelhana destes e outros autores canônicos da literatura portuguesa do século XIX, vid. Cao, 2008.
na centúria anterior (e até na seguinte38). Basta cotejarmos a sua segunda Pirene (2003), onde se debruça sobre o século XIX, com a primeira (2000), o estudo que dedica ao século XVIII. A mudança que supõe a viragem de centúrias fica patente até no número de páginas destinadas num e noutro volume à análise, especificamente, dos pontos de contacto entre literaturas. Enquanto o capítulo intitulado “El diálogo lusohispano” preenche em Pirene dieciochesca (2000) treze páginas escassas, na Pirene romântica (2003) a parte homónima perfaz um total de oitenta e cinco. O mesmo estudioso nota como, se no século XVIII “las relaciones literarias entre ambos países fueron prácticamente nulas por lo que se refiere a lo propiamente creativo, y quedaban limitadas al intercambio cultural entre algunos intelectuales como Mayans y Verney”, já a partir do Romantismo, e fundamentalmente da década em que publica Castilho a sua “Bibilographia Castelhana” em diante, encontramo-nos, segundo as suas palavras, perante uma “apoteosis de contactos entre críticos y poetas” (Pérez Corrales, 2003: 19) que se prolonga e enriquece com o passar do tempo. Pesquisas como as de Abreu (1994), Lourenço (2005) ou Magalhães (2007d e 2009), entre outras, vieram pôr de manifesto, igualmente, a existência efectiva de um diálogo intersistémico viçoso no decorrer de oitocentos.
Contudo, no entender do mesmo Pérez Corrales, a primeira metade do século XIX pode caracterizar-se como um “foso total” a este título (2003: 79)39. Só a partir da chamada de atenção de Castilho sobre os milhões de léguas que parecem afastar Portugal de Castela, é que “la situación va a mudar de inmediato”, e assinala o ano de 1848, com o aparecimento das publicações periódicas O Trovador (“con numerosos poemas encabezados por epígrafes de românticos españoles”) e Revista Popular (“que
38 Não se dá “nada paralelo” na história da comunicação cultural entre Portugal e Espanha “ni en el siglo
XVIII ni siquiera en el XX” (Pérez Corrales, 2003: 11). Abreu, por sua vez, considera que, pelas mesmas datas, a Revista Peninsular (1855-1856) “levava a cabo, sem dúvida, em Portugal, uma tarefa de divulgação da produção da literária espanhola que até aos nossos dias não parece ter-se repetido” (in Buescu, 1997: 504).
39 Pode matizar-se este parecer consultando a síntese preparada por Maria Fernanda de Abreu para o
Dicionário do Romantismo Literário Português sobre o “Romantismo espanhol (leituras e contactos)” (Abreu in Buescu, 1997: pp. 501-505). Ali ficam indicados vários pontos de relação entre ambas as literaturas desde a década de 1810 até à de 1860, com destaque nos primeiros tempos para Almeida Garrett, cujas ligações à Espanha (e a autores espanhóis com os que estabelece laços pessoais e literários – de ida e volta) já foram sublinhadas em seu momento por Francisco Gomes de Amorim, Teófilo Braga, Menéndez Pelayo, Henrique de Campos Ferreira Lima ou Georges Le Gentil, e foram igualmente atendidas, mais recentemente, por Magalhães (2009). Nessa primeira metade do século, os encontros