Esta pesquisa representa o primeiro trabalho relacionado à gravidez da mulher soropositiva no município de Campos dos Goytacazes. Acredito que ele poderá incitar profissionais da área da saúde a discutirem questões que envolvem gênero, saúde e políticas públicas, colaborando para a reflexão sobre a mulher soropositiva, sua vulnerabilidade ao hiv, seu acesso aos serviços de saúde e, principalmente seu direito à gravidez. Isso, por sua vez, pode contribuir para a desconstrução de antigos conceitos sobre aids e para a quebra do tabu que é falar abertamente sobre sexualidade feminina e gravidez de mulheres soropositivas em serviços de atendimento especializados.
Entendemos que quando profissionais se dispõem a falar sobre sexo com finalidade reprodutiva com portadores de hiv eles não têm responsabilidade nem estão incentivando o sexo sem uso de preservativo e a gravidez de mulheres soropositivas. Ao mesmo tempo, esta conduta permite que os usuários tomem a decisão de ter filhos com base em informações e tendo feito previamente uma reflexão apoiada em dados sobre os riscos reais de transmissão vertical.
Vimos que são inúmeras as razões pelas quais uma pessoa soropositiva engravida e algumas vezes esquecemos que ela, independente dos seus status sociológico é uma mulher. Não fazemos aqui referência à sua suposta condição natural de ―fêmea‖, mas às desigualdades econômicas e de gênero que muitas vezes ela enfrenta, além da pressão cultural que encara no dia a dia para cumprir o seu ―destino social‖ de ser esposa e de ter filhos para dar continuidade a si mesma e à a sua família. Quando a mulher contrai hiv ela parece ficar ―isenta‖ socialmente de ser responsável por novas gerações, tendo em vista que pode gerar crianças doentes. Mas, se existe a possibilidade de tê-los com grande possibilidade de serem sadios, por que elas não engravidariam?
A promessa médica de ter uma ―vida normal‖ apesar do hiv caso faça o tratamento corretamente, faz com que elas tenham vontade de comprovar para si mesmas que a vida continua e gerar uma criança saudável pode ser considerado uma prova disso.
O discurso da equipe do SAE/PROMAI freqüentemente repassado para os usuários é o de que ―pessoas com hiv/aids podem ter uma vida normal, como qualquer pessoa que tem uma doença crônica‖. Mas, então, porque há estranhamento por parte dessa equipe quando a mulher soropositiva engravida? Este estranhamento advém de quais questionamentos?
Este tema não é discutido entre os profissionais da equipe do SAE, e não é feita abordagem do assunto de maneira espontânea com usuários do serviço. Com o aumento do número de gestantes ―reincidentes‖ torna-se curioso o fato dos profissionais continuarem não abordando assuntos como: o melhor momento para uma gravidez, caso a mulher deseje um ou mais filhos. Por que afinal não discutem este assunto?
Podemos considerar como respostas a essa indagação os seguintes elementos:
Os profissionais não receberam treinamento suficiente para se sentirem seguros quanto a essa intervenção junto à usuária do serviço;
Os profissionais da equipe esperam de forma silenciosa uns pelos outros pela abordagem do tema;
Sensações e percepções negativas dos profissionais em relação à aids e seus portadores superam a necessidade de orientar as usuárias sobre a gravidez antes que ela aconteça, deixando de favorecer o planejamento familiar.
Os dados aqui levantados permitem afirmar que há necessidade de maior atenção voltada à mulher soropositiva, pois vários fatores sociais, econômicos e de gênero influenciam a vulnerabilidade das mulheres à infecção pelo hiv. Sugere, principalmente, a existência de uma dificuldade entre a demanda da população feminina soropositiva e a maneira como os serviços de saúde se organizam para atendê-la.
O planejamento familiar realizado pela equipe do SAE é uma opção para o início de um diálogo entre mulheres soropositivas e profissionais. É possível esperar, a partir disso, que elas possam melhor escolher o momento ideal para engravidar, caso desejem ter filhos.
A prevenção da transmissão vertical coloca em evidência a necessidade dos diversos níveis de assistência à saúde de se articularem e essa demanda acaba por revelar o estado precário da rede de saúde pública no Brasil. Fica igualmente explícita a qualidade da
assistência na medida em que todos os níveis de intervenção sobre a transmissão vertical reconhecem a necessidade de aconselhamento, suporte psicológico e respeito aos direitos humanos dos que foram afetados pela aids: a mulher, seu parceiro, seu bebê e sua família.
A epidemia se sobrepôs ao antigo problema de saúde reprodutiva e discutir um programa de atenção à saúde da mulher deveria ser uma prioridade na agenda governamental. Ainda que sejam disponibilizadas intervenções médicas que reduzem a transmissão vertical, o problema de cobertura ineficiente do atendimento e qualidade de assistência no pré-natal é fortalecido pela pouca agilidade de boa parte das unidades de saúde de todo país em realizar o teste anti-hiv nas gestantes gerando atrasos no diagnóstico e início de procedimentos preventivos da transmissão vertical do hiv. Tal demora traz prejuízos, muitas vezes irreversíveis para mulheres e seus bebês.
O grande universo de mulheres brasileiras não tem acesso ao acompanhamento de pré- natal e por isso o Ministério da Saúde propôs a realização do teste rápido no momento do parto. Essa proposta, posta em prática atualmente, mascara a necessidade de ampliação dos serviços e chega a ser cruel tendo em vista que o momento do parto já é tenso por si só e por isso não seria este o momento mais adequado para realização de um teste anti-hiv.
Examinando as pesquisas, documentos, recomendações, procedimentos e normas do Ministério da Saúde é possível a apreender manifestações da ideologia médica relacionada às mulheres soropositivas, vistas como transmissoras do hiv para sua prole. E, é interessante pontuar que esta ideologia parece ―infectar‖ todas as áreas ligadas aos programas de saúde. Tentar superar essa perspectiva e passar a discutir a gravidez da mulher com hiv no plano dos direitos sociais e humanos é a tarefa urgente que se coloca agora e com a qual essa pesquisa espera poder contribuir. Para isso é necessário que toda equipe faça um ―balanço‖ de seus conceitos pessoais e ações profissionais para que unidos possam desenvolver um trabalho mais completo.