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Subventions directes du gouvernement fédéral

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Na primeira metade do século XIX existiam aqueles que se preocupavam, da sua maneira, com o sofrimento escravo. Assim, temos o intendente “liberal” João Inácio da Cunha, dentre outros, que tensionou a luta existente entre os “liberais” e a Comissão Militar de 1821 pelo poder de castigar os negros. Soares (2002) aponta que: “o intendente não pretendia excluir o escravo do castigo do açoite, mas fazer com que o castigo fosse ministrado com conhecimento e, principalmente, com a deliberação do senhor, em vez de estar ao arbítrio do agente policial” (p. 466). Em uma outra passagem temos uma amostra da ação deste intendente que sugeria “que as vítimas do açoite, antes simplesmente pretos, capoeiras, escravos negros, fossem agora um ‘povo constitucional’, que não mereciam

viver ao sabor da chibata, e sim prestigiados pelas leis e pelos limites estabelecidos ao poder do estado” (p. 468). Neste sentido, poderíamos dizer, com Adorno (1993), que “a abolição das convenções, a título de ornamento ultrapassado, inútil e exterior, apenas confirma o que há de mais superficial: uma vida de dominação imediata” (p. 30).

Voltemos ainda a um outro fato, já tratado anteriormente, que pode ser analisado a luz do pensamento do frankfurtiano. O que se refere à rede de sedução, muitas vezes resultava numa espécie de escravidão interna, isto é, negros escravizando outros negros.

A mão protetora, que segue guardando e cuidando de seu jardinzinho, como se este há muito tempo não tivesse se convertido em mero lot, mas que mantém temerosamente à distância qualquer intruso desconhecido, já é a mesma mão que recusa asilo ao fugitivo político (ADORNO, 1993, p. 28).

Quer dizer, os capoeiras utilizavam os mesmos meios para dar continuidade ao círculo de miséria implantado por seus feitores, tornando-se eles próprios carrascos dos seus iguais, pois não dispunham, dentre outras debilidades, das mesmas condições socioeconômicas daqueles que os escravizavam em primeira mão. Configuravam-se, parafraseando Adorno, em profetas de um mundo pior frente ao mundo ruim em que já viviam.

É possível afirmar que, ao longo da primeira metade do século XIX, colocava-se uma capoeira que, apesar de confirmar a sua condição escrava, tentava ganhar fôlego ao produzir algumas “faíscas” que denunciavam o seu descontentamento. Quando este empreendimento se assemelha à estrutura social vigente, ele estaria configurando uma das formas mais frágeis de crítica, aquele que, ao desobedecer, acaba obedecendo, como disse Adorno. Aquela capoeira que, a todo custo, não aceitava se transformar em mais um simples instrumento dos mandos e desmandos no processo de reafirmação do lugar social das classes abastadas e nem se limitar a atender à lógica de conservação do lugar da subalternidade acabava se tornando, paradoxalmente, falsa nela mesma, pois se apropriava dos mecanismos de dominação para poder estruturar a sua prática, o que veio a ser reafirmado com a criação da Capoeira Regional na década de trinta do século XX.

Como se observa, a capoeira é abolida ou utilizada, dependendo dos interesses da elite e das instituições de poder de cada época. Os capoeiras eram utilizados pelas forças que ditavam a ordem social, por exemplo, na construção civil, no trabalho forçado nas prisões, como capangas e quando utilizavam os seus corpos para realizar demonstrações de

habilidade, tocando os sinos das igrejas (SOARES, 2002). Por dentro desta utilização, estes se aproveitavam para trazer à tona a ânsia da liberdade. Esta, por sua vez, se materializava na condição de liberto que poderia ser verificada de duas formas: a primeira quando de fato eles eram alforriados pelos seus senhores ou pelas instituições de controle, e a segunda quando alcançavam esta condição pela imponência manifesta e latente da sua gestualidade. A primeira era uma condição legal, o que está longe de acreditarmos que ser liberto era atingir a plena condição de liberdade.

A duplicidade, a cumplicidade, o companheirismo, a dominação, a dissimulação e a forja parecem ser alguns dos mecanismos constantemente utilizados pelos capoeiras em certas épocas, principalmente no século XIX. Características explicitadas também por Soares (1999; 2002) quando disserta sobre os capoeiras forjarem uma cidade dentro da

outra para se proteger contra as intempéries, ou quando os negros exerciam escravidão

dentro do sistema escravocrata com outros negros. Ou seja, os “desordeiros capoeiras” gozavam de um ciclo completo de pseudoliberdade que teria início, meio e fim materializando-se no momento da captura.

Este tipo de “contravenção” por parte dos capoeiras figurou no século XIX como um dos maiores problemas que causavam inquietude nos senhores. Ao praticá-las, capoeiras e outros rebeldes contrariavam o sistema dentro do próprio sistema, ou seja, usavam os mecanismos hegemônicos para deles tentar escapar.

Na contemporaneidade, assim como em outros tempos, os mecanismos de dominação metamorfosearam-se, porém o “esqueleto” permanece semelhante, ou seja, subjugar certas camadas da população a partir do princípio da exclusão para privilegiar outras, continua sendo uma máxima. Isso se dá a partir de diferentes maneiras, nas quais os meios de comunicação e do cotidiano se sobressaem: a televisão, as revistas, os sites na rede mundial de computadores, os outdoors, os discursos dos professores, dos políticos, dos mestres de capoeira, dos colegas da escola, dos pais, enfim, inúmeros meios de conformar o indivíduo na sociedade. Diferentes segmentos sociais, em especial aqui os capoeiras, se valem de sites e revistas, por exemplo, como tecnologias para disseminar e propagar as suas convicções políticas e mercadológicas. Faz sentido, então, nos debruçarmos sobre alguns deles.

VI Meios para a (con)formação do corpo

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