Desta seção em diante, toda e qualquer inferência à parâmetros esclerocronológicos (densidade, extensão e calcificação) serão referentes aos dados obtidos a partir de uma interpolação por spline cúbica dos dados de saída do software CORAL XDS (ver seção 5.3) para uma escala temporal.
Tradicionalmente, é comum analisar uma série temporal através da sua decomposição nas componentes de tendência e ciclo. A tendência de uma série indica o seu comportamento de longo prazo e a velocidade com que esta tendência se processa. Os ciclos indicam padrões que se repetem na série em períodos bem definidos, em intervalos de dias, meses ou anos. A Figura 13 apresenta as séries de densidades mensais. As séries/perfis de densidade obtidas para ambos os sítios de amostragem exibiram uma sazonalidade bem marcada. Os coeficientes angulares das retas geradas a partir das séries temporais de densidades mensais indicaram uma tendência linear de diminuição ao longo do tempo (YCB = - 0,040; GAR = - 0,007), como pode ser observado na Figura 13C. Uma análise de regressão linear simples foi utilizada para testar a tendência observada. Constatou-se a existência de uma tendência significativa de redução na densidade ao longo do tempo em ambos os sítios de amostragem (YCB: R2 = 0,34; p < 0,05; n =
136 e GAR: R2 = 0,13; p < 0,05; n =196). No entanto, observando especificamente a série
temporal relativa a YCB (Figura 13C – Média YCB), nota-se que a partir de janeiro de 2010 inicia- se uma tendência de elevação nos valores de densidades mensais. Comparando as médias gerais de densidade mensal calculadas para os dois sítios de amostragem, GAR exibiu um valor 1,4 vezes superior ao calculado para a sub-área YCB (Tabela 8). Todos os parâmetros de decomposição das séries temporais das duas sub-áreas analisadas, assim como seus caracterizadores, podem ser observados na Tabela 8.
A Figura 13C mostra uma maior sazonalidade no sítio de amostragem YCB, onde a variância de densidade mensal foi cerca de 5,7 vezes maior quando comparada a GAR (Tabela 8).
Tabela 8 – Parâmetros de decomposição da linha de tendência das séries temporais de densidades mensais. Sítios de amostragem C. linear C. angular Média Variância
YCB 3,683 -0,040 1,350 0,017
GAR 2,353 -0,007 1,942 0,003
Figura 13 – Séries temporais de densidades mensais. A) Séries temporais de densidades mensais relativas a cada uma das cinco sub-amostras de SS da região do YCB; B) Séries temporais de densidades mensais para cada uma das três sub-amostras de SS da localidade de GAR; C) Séries temporais de densidades mensais geradas a partir da média das sub-amostras de SS, considerando cada uma das subáreas de estudo (YCB e GAR). Linhas de tendência (em preto).
A Figura 14 mostra a variação da densidade média anual nos dois sítios. Observa-se que que a densidade média anual é sempre mais elevada no sitio de amostragem GAR. A extensão anual é sempre maior na sub-área YCB, onde as taxas de calcificação são por conseguinte maiores. Os anos que apresentaram maior (1,45 g.cm-3) e menor (1,22 g.cm-) densidade média anual em YCB foram, respectivamente, 2002 e 2010, com variação percentual de 19% (Tabela 9). Assim como relatado para a série de densidade mensal, no sítio de amostragem YCB a tendência de decréscimo dos valores de densidade média anual também foi evidente. É importante observar que esta tendência se manifesta entre os anos de 2002 e 2010, sendo que o ano de 2011 passa a projetar uma tendência de aumento. Na sub-área GAR, a maior densidade média anual foi observada no ano de 1999 (2,01 g.cm-3), enquanto a menor no ano de 2006 (1,88 g.cm-3). A variação percentual entre estes valores é de 7% (Tabela 9). Apesar da análise da série temporal
das densidades mensais evidenciar uma tendência de decréscimo ao longo dos anos para esta sub-área (ver seção 6.2.1), apenas a análise visual dos dados de densidade média anual, através da Figura 14, não permitem tal constatação.
A extensão anual na sub-área YCB apresentou seu maior valor, 0,61 cm, no ano de 2005. O menor valor encontrado ocorreu em 2011, sendo de 0,47 cm. A variação percentual entre estes valores é de 30% (Tabela 9). Para GAR, os anos que apresentaram maior (0,28 cm) e menor (0,19 cm) extensão anual foram, respectivamente, 2009 e 2006, com uma variação percentual de 47% (Tabela 9). Apesar de existir uma variabilidade inter-anual, a extensão têm se mantido praticamente constante (Figura 15 - parte superior). Uma análise de regressão mostrou que a leve tendência de redução observada ao longo dos anos em ambos os sítios de amostragem não foi significativa (YCB: R2 = 0,09; p > 0,05; n = 10 e GAR: R2 = 0,04; p > 0,05; n =16).
Analisando o sítio de amostragem YCB, a maior taxa de calcificação anual ocorreu em 2005, de 0,91 g.cm-2. O menor valor foi de 0,71 g.cm-2, para o ano de 2011. Assim, variação percentual entre estes valores é de 28% (Tabela 9). Na sub-área GAR, a maior calcificação anual foi observada no ano de 2004 (0,56 g.cm-2), enquanto a menor no ano de 2006 (0,36 g.cm-2), configurando uma variação percentual de 56% (Tabela 9). A calcificação anual comportou-se de modo diferenciado na sub-área YCB, exibindo uma tendência de decréscimo mais acentuado ao longo dos anos (Figura 15 - parte inferior esquerda). Para GAR, o comportamento observado revelou uma constância ao longo dos anos, com uma leve tendência de decaimento (Figura 15 - parte inferior direita). Apesar das diferenças observadas nas magnitudes das tendências entre os sítios de amostragem, as análises de regressão testando as série temporais de calcificação anual não foram significativas (YCB: R2 = 0,60; p > 0,05; n = 10 e GAR: R2 = 0,06; p > 0,05; n =16).
Tabela 9 – Variação percentual dos parâmetros esclerocronológicos calculada entre os anos com os valores máximos e mínimos; e entre os valores médios anuais gerais dos dois sítios de amostragem.
ENTRE ANOS ENTRE SÍTIOS DE AMOSTRAGEM
YCB GAR YCB x GAR
DENSIDADE 19% 7% 48%
EXTENSÃO 30% 47% 139%
Figura 14 – Valores anuais dos parâmetros esclerocronológicos (densidade média anual, extensão anual e calcificação anual). Sítio de amostragem YCB em preto; GAR em cinza.
Figura 15 – Gráficos de dispersão para os conjuntos de dados de extensão e calcificação anual e suas linhas de tendência.
A presença de ciclos supra-anuais foi observada tanto para a extensão quanto para a calcificação anual. Por possuir um intervalo de dados maior, de 1996 a 2011, tais ciclos mostraram-se mais evidentes no sitio de amostragem GAR. Nesta sub-área, para a extensão anual foram detectados dois ciclos de cinco anos, sendo a ocorrência do primeiro entre os anos de 1999 e 2003 e do segundo de 2004 a 2008. Do mesmo modo, foi constatada a existência destes ciclos também para a calcificação anual (Figura 14). Tratando-se do sitio de amostragem YCB, para afirmar algo sobre a presença de ciclos supra-anuais faz-se necessário dispor de um intervalo de dados maior.
A média anual geral de densidade para o sítio de amostragem YCB foi de 1,33 (± 0,08) g.cm-3, enquanto para GAR foi de 1,94 (± 0,03) g.cm-3. A variação percentual entre estes valores é de 48% (Tabela 9). Logo, as colônias de S. stellata na sub-área de estudo GAR são, em média, 0,61 g.cm-3 mais densas quando comparadas às do sítio de amostragem YCB (Tabela 10). A extensão anual média geral para o sítio de amostragem YCB foi de 0,55 (± 0,04) cm, enquanto para GAR foi de 0,23 (± 0,02) cm. A variação percentual entre estes valores é de 139% (Tabela 9). Deste modo, as colônias de S. stellata na sub-área de estudo YCB possuem, em média, um crescimento linear anual cerca de 0,32 cm superior quando comparadas às do sítio de amostragem GAR (Tabela 10).
A média anual geral de calcificação para o sítio de amostragem YCB foi de 0,76 (± 0,07) g.cm-2, enquanto para GAR foi de 0,45 (± 0,05) g.cm-2. A variação percentual entre estes valores é de 69% (Tabela 9). Assim, em média, as colônias de S. stellata na sub-área de estudo YCB calcificam anualmente 0,31 g.cm-2 mais carbonato em seu esqueleto quando comparadas às do sítio de amostragem GAR (Tabela 10).
Vale ressaltar que, em magnitude, a variação para os três parâmetros esclerocronológicos avaliados foi sempre maior no sítio de amostragem YCB. Do mesmo modo, os desvios-padrão calculados para as médias anuais gerais destes parâmetros também apresentaram valores sempre mais elevados na sub-área YCB.
Tabela 10 – Parâmetros esclerocronológicos (densidade média anual, extensão anual e calcificação anual). Valores obtidos a partir das séries temporais de densidades mensais. Em cinza, o intervalo dos dados utilizados nas análises estatísticas.
ANO Densidade (g.cm
-3) Extensão (cm) Calcificação (g.cm-2)
YCB GAR YCB GAR YCB GAR
1996 1,92 0,25 0,47 1997 1,94 0,21 0,40 1998 2,00 0,24 0,49 1999 2,01 0,26 0,51 2000 1,99 0,21 0,42 2001 1,96 0,22 0,43 2002 1,45 1,96 0,52 0,21 0,80 0,41 2003 1,42 1,95 0,53 0,24 0,76 0,48 2004 1,40 1,94 0,52 0,27 0,77 0,56 2005 1,36 1,90 0,61 0,21 0,91 0,42 2006 1,30 1,88 0,60 0,19 0,80 0,36 2007 1,30 1,92 0,55 0,22 0,71 0,43 2008 1,28 1,96 0,57 0,23 0,79 0,46 2009 1,23 1,95 0,59 0,28 0,73 0,55 2010 1,22 1,94 0,54 0,22 0,68 0,42 2011 1,33 1,89 0,47 0,22 0,67 0,42 MÉDIA 1,33 1,94 0,55 0,23 0,76 0,45
As diferenças entre o mesmo parâmetro esclerocronológico nos diferentes sítios de amostragem foram estatisticamente testadas. Para os três parâmetros analisados (densidade média anual, extensão anual e calcificação anual), o Teste T realizado obteve um p-nível menor que 0,05, rejeitando a hipótese nula de que não há diferença significativa quando comparados os valores anuais de um mesmo parâmetro esclerocronológico em diferentes sítios de amostragem (Tabela 11). Resumidamente, a densidade média anual, extensão anual e calcificação anual são estatisticamente diferentes nas duas sub-áreas de estudo.
Tabela 11 – Parâmetros estatísticos p-nível obtidos para um Teste T quando comparadas os valores dos parâmetros esclerocronológicos (densidade média anual, extensão anual e calcificação anual), considerando diferentes sítios de amostragem. O intervalo temporal dos dados utilizados na análise foi de 2002 a 2011. n = 10.
p-nível
Densidade YCB x Densidade GAR 0,00
Extensão YCB x Extensão GAR 0,00