Outro tema importante para as organizações, no cenário atual, diz respeito à chamada sustentabilidade. Embora a literatura sobre o tema indique frequentemente algumas reuniões da Organização das Nações Unidas (ONU) como as precursoras da origem do conceito de sustentabilidade (anos 1970), Leonardo Boff (2012) afirma que esse conceito tem mais de 400 anos.
O nicho a partir do qual nasceu e se elaborou o conceito de sustentabilidade é a silvicultura, o manejo das florestas. Em todo o mundo antigo e até o alvorecer da Idade Moderna a madeira era a matéria prima principal na construção de casas e móveis, em aparelhos agrícolas, como combustível para cozinhar e aquecer as casas. Foi amplamente usada para fundir metais e na construção de barcos, que na época das descobertas/conquistas do século XVI singravam todos os oceanos. O uso foi tão intensivo, particularmente na Espanha e em Portugal, as potências marítimas da época, que as florestas começaram a escassear (BOFF, 2012, p. 32).
Foi essa preocupação com a devastação das florestas, que fez aparecer estudos na Saxônia e na Prússia, por volta de 1790, que culminaram na criação de uma nova ciência: a silvicultura.
No século XIX surgiram vários movimentos ambientalistas com a expansão do processo de industrialização e com a contínua ocupação de áreas diversas para a exploração agrícola e mineral.
Nos anos 1960, o livro Primavera Silenciosa da bióloga Rachel Carson marcou o início do entendimento das inter-relações que podem ocorrer entre economia, meio ambiente e questões sociais. Mas é no início dos anos 1970 que uma grande quantidade de crises ambientais com implicações sociais começou a surgir em todo o mundo. A partir desse momento, a ONU resolveu promover vários eventos em busca de soluções para a questão do meio ambiente sustentável.
Em 5 de junho de 1972, em Estocolmo, foi realizada a Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, que se tornou uma referência no movimento pelo desenvolvimento sustentável. O principal resultado dessa reunião foi a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que passou a vincular a questão ambiental à social. Surgia então, a primeira aproximação das questões ambientais com o movimento de responsabilidade social (que também ganhava corpo nessa época).
Outro passo importante foi dado em 1981, com a promulgação da lei nº 6.938/81, que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente, com o objetivo de preservar e melhorar a qualidade ambiental propícia à vida para garantir condições para o desenvolvimento socioeconômico.
Três anos depois (1984) foi formada a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, cujo lema central era “uma agenda global para a mudança”. A Comissão criou o Relatório Brundland (1987) que, pela primeira vez, trouxe a expressão desenvolvimento sustentável, definido então como “aquele que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem as suas necessidades e aspirações”.
Outro evento importante foi a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio de Janeiro, 1992) mais conhecida como Cúpula da Terra, responsável por criar documentos importantes como a Agenda 216 e a
Carta do Rio de Janeiro.
A definição de desenvolvimento sustentável constante no relatório final da Cúpula da Terra dizia que desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderam as suas próprias necessidades. Essa definição mostra que o desenvolvimento é constituído por dois pactos gerenciais. O primeiro é um pacto intrageracional, ou seja, entre os membros da geração existente no momento e que se manifesta pelo atendimento das necessidades básicas do presente para todos. O segundo é um pacto intergeracional, isto é, entre a geração do momento e as futuras, e que se manifesta pela preocupação em não comprometer a possibilidade das gerações futuras de proverem as suas necessidades, o que leva à necessidade de atuar sobre o meio ambiente e usar os recursos naturais com prudência e sabedoria (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2009, p. 65).
6Documento que estabeleceu a importância de cada nação de se comprometer em refletir, tanto global como
localmente, sobre a forma como seus mandatários (governos, empresas, organizações não-governamentais) e a sociedade de um modo geral podem cooperar no estudo de soluções para os problemas socioambientais.
Com esses eventos, a questão do desenvolvimento sustentável passou a ter espaço na mídia, nas estratégias empresariais e nos debates contemporâneos. Conquistou, assim, um caráter cidadão assumindo a tarefa de unir governos, sociedade, mídia e organizações globalmente em prol da erradicação da pobreza, da conservação do planeta, proteção e restauração da saúde e da cidadania.
A partir desse momento, surgem várias iniciativas nos mais diversos segmentos da sociedade civil, em trabalhos desenvolvidos pelas organizações não- governamentais (ONGs) e associações e empresas, que passam a colocar a questão ambiental como parte primordial das suas preocupações cotidianas.
Em 1997, com a assinatura do Protocolo de Kyoto7, as grandes nações, as
organizações e a sociedade como um todo passaram a desenvolver e a optar por tecnologias menos poluentes. Criava-se assim a necessidade de um mundo melhor para todas as gerações, sem prejuízos para o meio ambiente. A expressão ‘desenvolvimento sustentável’ passou a ser usada em todos os documentos oficiais dos governos e nos projetos das organizações e nos meios de comunicação. E sustentabilidade passou a representar então um conjunto de valores e práticas que deve ser incorporado ao posicionamento estratégico das empresas (CEBDS, 2010).
Em junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) marcou os vinte anos da realização da conferência anterior (Rio-92) e renovou o compromisso político com o desenvolvimento sustentável. Com dois temas centrais (a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, além da estrutura institucional para esse desenvolvimento sustentável), a Rio+20 assumiu vários compromissos globais (BRASIL, 2011). O primeiro foi o de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 12% até 2016 e, em 1,3 bilhão de toneladas, até 2030. Essa foi uma decisão assumida na Cúpula dos Prefeitos, formada por dirigentes das 59 maiores cidades do mundo, dentre as quais se encontram as capitais brasileiras São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba (BRASIL, 2011).
Outro compromisso importante foi a criação do primeiro Banco de Investimentos Verdes do mundo, o Green Investment Bank, com a missão de financiar empreendimentos de infraestrutura com baixa emissão de carbono, como por exemplo,
7Tratado internacional que estabeleceu o compromisso de que os países desenvolvidos signatários reduziriam a
emissão de gases que agravam o efeito estufa, com o intuito de aliviar os impactos causados pelo aquecimento global.
projetos envolvendo a energia eólica (em especial em alto mar) e a destinação e tratamento correto de resíduos (BRASIL, 2011).
Figura 3 – Logomarca da Conferência das Nações Unidas Rio+20
Fonte: BRASIL, 2011
Ao ultrapassar as fronteiras dos governos e das nações, a questão do desenvolvimento ambiental sustentável pede o engajamento de toda a sociedade global, e aí começam os grandes desafios.
O movimento do desenvolvimento sustentável baseia-se na percepção de que a capacidade de carga da Terra não poderá ser ultrapassada sem que ocorram grandes catástrofes sociais e ambientais. Mais ainda, já há sinais evidentes de que em muitos casos os limites aceitáveis foram ultrapassados, como atestam diversos problemas ambientais gravíssimos como o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio estratosférico, a poluição dos rios e oceanos, a extinção acelerada de espécies vivas, bem como os sérios problemas sociais, como a pobreza que afeta bilhões
de humanos, os assentamentos urbanos desprovidos de
infraestrutura mínima para uma vida digna, a violência urbana, o tráfico de drogas e as epidemias globalizadas, como a AIDS. Esses problemas globais só podem ser resolvidos com a participação de todas as nações, governos em todas as instâncias e sociedade civil, cada um em sua área de abrangência. As empresas cumprem papel central nesse processo, pois muitos problemas socioambientais foram produzidos ou estimulados por suas atividades (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2009, p. 66-67).
Todas essas ações e conferências promovidas pela ONU tiveram um saldo positivo em relação à sustentabilidade, já que motivaram um crescimento de consciência da humanidade no que se refere às questões ambientais. Assim, o desenvolvimento sustentável passou a ser disseminado como um ideal a ser atingido.