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Os cervejeiros caseiros potiguares, que representam o circuito inferior da economia urbana e estão inseridos no subcircuito espacial da produção de cervejas artesanais, produzem cervejas artesanais, com técnicas rudimentares, para o próprio consumo e de seus familiares. Alguns iniciam como hobby na cozinha de casa, e depois passam a vender o excedente para pessoas próximas, o que ajuda a minimizar os gastos com os insumos, cujo custo é elevado. A partir daí, acabam transformando o hobby em atividade econômica, e esse é um fenômeno que explica o incremento progressivo do número de microcervejarias nos últimos anos no estado Bezerra (2019); (Fotografias 7 e 8).

Os dados de campo sobre o segmento de cervejas artesanais no Rio Grande do Norte revelaram que os cervejeiros caseiros se encontram espalhados por várias direções do estado. Não foi possível apreender o número exato, mas, com base em entrevistas e cadastro de clientes em loja de insumos, estima-se que haja mais de trezentos homebrewers (cervejeiros caseiros) (Mapa 4).

MAPA 4 – Espacialização dos cervejeiros caseiros potiguares, 2019. Fon te : a a u to ra (2 0 1 9 ).

Os homebrewers se distribuem em dezoito municípios, principalmente em Natal e Parnamirim (220 - 250), Mossoró (60), mas também há deles em Caicó (15), Areia Branca (10), Açu (9), Pau dos Ferros (8), Brejinho (5), Currais Novos (5), Tibau do Sul (5), Ceará Mirim (2), Monte Alegre (2), Serrinha dos Pintos (2), Martins (2), São Miguel do Gostoso (2), Parelhas (1), Angicos (1) e Santa Cruz (1). Cada um possui a sua técnica e “adaptação criadora” para fazer a cerveja caseira. Produzem para o seu próprio consumo e de familiares, de forma que alguns são membros da ACERVA Potiguar e outros costumam aprender a fabricação da bebida por conta própria, lendo e assistindo a vídeos gratuitos no YouTube, utilizando materiais simples como panelas, fogão e utensílios de cozinha, da mesma forma como se produz um pão caseiro. Essa nova atividade aparece, assim, como uma nova oportunidade de trabalho e renda (Fotografias 5 e 6).

Os cervejeiros caseiros potiguares normalmente criam produtos inovadores, seja adicionando ingredientes diferenciados à bebida, seja estabelecendo novos métodos de produção (SEBRAE, 2014). Alguns insumos utilizados por eles são improvisados e derivam do mercado local, de acordo com o relato de Mário, um dos cervejeiros caseiros, (APÊNDICE E):

Não tenho curso ainda, mas baixei um livro muito bom e vi vários vídeos na internet, assisto um canal que me tira muitas dúvidas. Faço BIAB (Brew in a Bag), é um voil de tecido, de cortina mesmo, que desenhei e pedi para uma costureira fazer, um método que economiza uma ou mais panelas”. Fermento em um cooler trocando garrafas congeladas e uso a geladeira de casa para gelar. Controlo a temperatura com um termômetro digital gourmet em todo o processo.

Muitos adicionam frutas, ervas e até mesmo lúpulo e leveduras cultivadas no próprio quintal. Utilizam técnicas mais simples do que aquelas praticadas nas microcervejarias, que permitem inclusive inserir ingredientes em qualquer etapa da produção, seja na fervura, na fermentação15, na maturação16 ou até mesmo

diretamente na hora do consumo (LALA, 2018b), (Fotografia 7 e 8).

A maioria dos cervejeiros caseiros tem a atividade como hobby, outros acabam transformando o hobby em um pequeno negócio. No entanto, no que se refere à venda informal, segundo Medeiros e Azevedo (2017, p. 465) a prática da

15 Processo pelo qual leveduras são adicionadas para que consumam o açúcar e produzam álcool e

dióxido de carbono (entrevista com cervejeiro, 2019 [ver Apêndices]).

16 Processo de fermentação secundária, ou envelhecimento (entrevista com cervejeiro, 2019 [ver

[...] informalidade é ponto de reclamação dos estabelecimentos do circuito superior, visto a ‘competição desleal’, tendo em vista que os agentes do circuito inferior não recolhem impostos e não passam pelo mesmo nível de exigência quanto às normas sanitárias.

Para fazer cerveja é necessário conhecimento e cuidado no que se refere aos processos e aos riscos de contaminação. Pois, mesmo em marcas conhecidas, ela pode ocorrer. Como exemplo, o caso da Cervejaria Backer – MG, em janeiro de 2020, onde ocorreu contaminação das cervejas por mono e dietilenoglicol, substâncias tóxicas usadas no processo de resfriamento do produto, o que provocou intoxicação e morte de várias pessoas (G1 – MG, 2020).

Por isso cabe destacar o papel fundamental da ACERVA Potiguar, associação que, de acordo com seu presidente, Carlos Magno (APÊNDICE C):

[...] foi fundada por Rodrigo Falcone, primo do dono da cervejaria Falcon de MG, em 2010. Na época não se esperava que fosse crescer tanto, mudou muito, cresceu muito até 2019, quando puxa o histórico das Acervas no país nós somos uma das maiores, uma das maiores em termos de estrutura. É referência na região, muitos se espelham para se organizarem como aqui e fazerem um planejamento, como as associações Pernambucana e Paraibana.

Por meio de pequenas associações, a ACERVA Potiguar tenta alcançar e orientar homebrewers espalhados pelo estado no sentido de instruí-los a obedecerem aos critérios estabelecidos pela ABRACERVA, o MAPA e a ANVISA. (ver Fotografia 7). Além disso, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE RN oferece consultoria para quem deseja iniciar, aperfeiçoar ou legalizar uma microcervejaria, conforme a legislação específica e em consonância com as regulamentações do Ministério da Agricultura e Pecuária e Abastecimento – MAPA. É levada em conta a regulamentação em relação à estrutura física, o fluxo de fabricação, o layout, e em relação aos acabamentos, para assim evitar contaminação física, química ou biológica, conforme definição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA (SEBRAE, 2019).

Grande parte dos cervejeiros caseiros almeja se especializar e ter um negócio próprio, porém, pelas dificuldades impostas aos empreendedores, como os tributos e a burocracia, acabam sendo desestimulados.

Fotografia 5. – Cozinha da casa de um cervejeiro artesanal

Fotografia: Mário da Silva Júnior (2019).

Fotografia 6. – Processo de produção caseira (Natal)

Fotografia 7 e 8. – Cerveja artesanal com fruta do pelo da palma (7) e rótulo de uma cerveja caseira (8).

Fotografias: Adriel Cirilo Agostinho (7) e Milena Fernandes Zorzi (8) (2019).

Fotografia 9. – Associação dos Cervejeiros Artesanais Potiguares

Fotografia: Milena Fernandes Zorzi (2019).

SAIDEIRA

O percurso desta pesquisa permitiu compreender que no final do século XX e o século XXI, período em que o processo de globalização tomou força no Brasil, tenham representado, para a indústria cervejeira, um momento de sua reestruturação, tanto da produção quanto do consumo. Portanto, só podemos compreender o ramo cervejeiro no Rio Grande do Norte a partir desse contexto.

Compreendeu-se que no Rio Grande do Norte se articulam parte dos circuitos espaciais da produção de grandes marcas de cervejas e um subcircuito espacial da produção de cervejas artesanais independentes, o qual não está vinculado aos grandes grupos produtivos cervejeiros, mas sim subordinado ao circuito espacial da produção exógena e global do malte, matéria-prima indispensável à produção artesanal, ao mesmo tempo em que está vinculado ao local, por concentrar suas etapas produtivas no território potiguar e, principalmente, pelo fato de os produtores adicionarem ingredientes peculiares, como frutas e ervas nativas, à bebida. De forma que hoje a topologia do circuito inferior da economia se torna mais complexa, pois envolve diferentes escalas e agentes, na medida em que se adapta ao sistema econômico capitalista, de acordo com as disponibilidades espaciais e as possibilidades atuais, (SANTOS, 2000).

Foram identificadas, até o final de 2019, vinte e cinco marcas independentes de cervejas artesanais e mais de trezentos cervejeiros caseiros dispersos pelo território potiguar, e esse processo de expansão continua, mesmo diante dessa inesperada pandemia.

Considerou-se que o estado do RN apresenta uma configuração peculiar, pois, apesar de possuir poucas plantas de microcervejarias, se comparado aos outros estados do país, possui um expressivo número de produtos registrados, que se confirmam pela presença das microcervejarias associadas, revelando uma organização territorial que combina as razões global e local (SANTOS,1996, apud PAIVA, 2018).

Foi possível observar que tanto craftbreweries quanto homebrewers incorporam um sistema técnico universal, principalmente no que se refere às técnicas da informação. Essa variável torna-se um instrumento que oportuniza a criação de

círculos de cooperação e uma fonte de conhecimentos que possibilita a criação de bebidas diferenciadas e únicas.

Por ser uma dinâmica que consome bens e serviços e gera emprego, pode também despertar o interesse de novos investidores e outras atividades correlacionadas, além de possuir grande potencial, se as ações forem direcionadas para um desenvolvimento socioeconômico inclusivo e integrado por meio de projetos inovadores e ou até mesmo aliado a virtudes locais ligadas ao turismo. Porém, não basta que o setor público estimule apenas o segmento da cerveja artesanal, mas também outros setores da economia, visto que várias medidas precisam caminhar juntas.

Por fim faz-se necessário enfatizar que, diante da escassez de publicações acerca do tema e, frente à existência de divergências encontradas na literatura em relação ao assunto, esperamos que a presente pesquisa venha a contribuir para o desenvolvimento da produção de cervejas artesanais independentes no Rio Grande do Norte e que novos trabalhos possam surgir no sentindo de complementar a pesquisa no âmbito da análise geográfica.

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