A visão desenvolvimental da família em estágios, com tarefas diferentes permite a sua descrição no decorrer do tempo e ser estudada sob diversos ângulos. Autores como Osório e Do Valle (2002), Cerveny (1997), Carter e Mcgoldrick (1995), dentre outros, abordam estes estágios de forma semelhantes, porém com acréscimos ou subtrações do número de etapas ou pontos de transição. No presente estudo, teremos como base o ciclo de vida familiar a partir de seis estágios a considerar: Jovens adultos solteiros, o novo casal, família com filhos pequenos, família com filhos adolescentes, lançando os filhos e seguindo em frente e famílias no estágio tardio da vida (Carter & McGoldrick, 1995).
Segundo estes autores, a fase do jovem solteiro marca a busca da diferenciação do eu em relação à família de origem. Este é o período de escolher o que vão levar, o que vão deixar da família de origem, bem como, o que vão construir sozinho. É o momento de estabelecer objetivos pessoais, antes mesmo de juntar-se a outra pessoa e formar um novo subsistema familiar.
O casamento em diferentes culturas costumava ser a principal etapa de transição para vida adulta, no entanto na época atual o lugar do casamento no ciclo vital tem
mudado, sendo que os responsáveis por isso, em grande parte, são os avanços científicos e tecnológicos que substituíram significativamente o perfil das necessidades e dos desejos, bem como das expectativas de vida dos seres humanos em geral (Osório & Do Valle, 2002).
O fato é que a dinâmica do casamento tem sofrido inúmeras transformações, desde o adiamento de ter filhos por vários anos após o casamento ou mesmo casar já grávidos ou com filhos, aumentando assim, as dificuldades a tornar-se casal, independente de ritos do casamento civil ou religioso. Conforme autores como Carter e Mcgoldrick (1995), Nichols e Schwartz (1998), a tarefa de constituir um casal é a mais difícil do ciclo familiar.
Neste estágio tem-se, dentre outras, a tarefa de separação da família de origem através do exercício de autonomia, do desenvolvimento de regras próprias e de negociações relacionais com a família do cônjuge. Conforme Carter e Mcgoldrick (1995), a escolha do parceiro está correlacionada com as lealdades com a família de origem que poderão influenciar positivamente ou negativamente na formação das próprias regras do novo casal, dependendo de como estas estão estabelecidas e resolvidas.
A não funcionalidade desta etapa está baseada nas formas de alianças rígidas com os pais, na competitividade entre os cônjuges estabelecendo uma escala simétrica relacional, ou seja, quem manda mais, quem pode mais.
Como em todos estágios do ciclo vital familiar, o nascimento de um novo membro solicita mudanças estruturais. A atenção da família está voltada para os novos pais e o filho pequeno, numa fase de grandes mudanças e desafios aos relacionamentos. Portanto, tornar progenitor é o fato que identifica esta fase. Esta nova função é constituída pelos aspectos psicológicos, sociais, e é mais do que um vínculo entre duas gerações. Requer do casal, uma revisão do contrato matrimonial buscando-se um equilíbrio entre os papéis conjugal e parental, criando assim, espaço para o filho. Além disso, este estágio tem um significado diferente para o homem e a mulher, pois conforme Carter e Mcgoldrick (1995), enquanto “sentir-se mãe” é algo esperado desde o início da gestação, “sentir-se pai“ muitas vezes ocorre após o nascimento do filho, e apresenta impacto diverso na vida do homem e da mulher.
Os padrões não funcionais nesta etapa podem emergir quando acontece uma parada no crescimento relacional do casal, triangulação com o filho ou quando a comunicação acontece através deste.
A fase da família com filhos adolescentes é caracterizada pelo ciclo familiar onde está ocorrendo um processo de transição tanto no desenvolvimento dos filhos, quanto dos pais. Na maioria destas famílias, os pais estão se aproximando da meia-idade e seu foco está nas questões maiores do meio de vida como, por exemplo, de reavaliar o casamento e a carreira profissional. Por outro lado, os filhos estão também em estágios de transições e mudanças inerentes aos aspectos da adolescência como a iniciação sexual, os riscos de violência, início de novos hábitos, dentre outros. Esta fase exige mudanças estruturais e renegociações de papéis nas famílias, na qual a flexibilidade é a chave do sucesso para todo sistema (Carter & Mcgoldrick, 1995).
Os conflitos podem emergir quando há dificuldade para reorganização hierárquica, a falta de acordo dos pais no estabelecimento de novas regras ou pela paralela crise de meia-idade. Outros aspectos também sinalizados pelos autores já citados referem-se aos padrões não funcionais desta fase, relacionados à expulsão ou retenção dos filhos na tentativa de soluções que funcionaram no passado e não mais funcionam.
A fase do “ninho vazio“ é marcada pela saída dos filhos de casa e em muitas famílias coincide com o processo de aposentadoria dos cônjuges, ou mesmo com perdas de membros das gerações anteriores. É o estágio nos quais os relacionamentos ocorrem de adultos para adultos. O aspecto mais relevante nesta fase é que nela ocorre o maior número de saídas e entradas de membros nas famílias, começando com o lançamento dos filhos adultos para vida e prosseguindo com a entrada de seus cônjuges e filhos. Portanto, nesta etapa do ciclo de vida, há a necessidade de adaptação a estas mudanças do contexto familiar, associadas às situações, como por exemplo, de tornarem-se avós, bem como, em muitos casos iniciarem os cuidados para com seus pais.
O padrão não funcional ocorre nesta fase em situações de não solidificação do casamento, e quando não é possível um novo investimento, a família em alguns casos, se mobiliza para segurar o filho caçula ou mesmo quando os pais passam a controlar e impor normas no casamento dos filhos e deixam de reestruturar as suas vidas, agora que já não tem mais aquelas responsabilidades paternas (Carter & Mcgoldrick, 1995).
A família, no estágio tardio da vida, tem como tarefa o enfrentamento de desafios inerente a esta fase no que diz respeito às mudanças com a aposentadoria, a viuvez, a condição de avós e as doenças. Esta requer apoio familiar para auxiliar no ajustamento das perdas, na reorientação e reorganização do sistema. Os conflitos nesta
fase podem acontecer nos casos em que existam dificuldades na elaboração das perdas e de encontrar novo espaço e apoio no contexto familiar.
O ajustamento desta fase, assim como das outras do ciclo vital da família, está atrelado à flexibilidade na estrutura, papéis e respostas a novas necessidades e desafios desenvolvimentais.