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STRUCTURES LAMINAIRES ET TUR BULENTES A PETITE ECHELLE

Dans le document Rapport d'activité CRPE années 1985-1988 (Page 59-61)

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4.2 STRUCTURES LAMINAIRES ET TUR BULENTES A PETITE ECHELLE

Desde tempos imemoriais o escuro tem sido concebido como fonte de mistério, medo, suspense e sedução. Metáfora do mal, das trevas e da inteligibilidade, o escuro opõe-se à clareza, às luzes, à razão. Escuridade é a qualidade daquilo que é escuro e uma breve visita ao dicionário revelará que muitas são as palavras para definir essa condição. Segundo o Aurélio, a palavra nasce no latim e escreve-se obscuru, remetendo a vários significados: falta de luz, pouco claro, que se distingue mal, sombrio, tenebroso, escuso, ensurdecedor, suspeito, pouco inteligível, difícil, intricado, que não tem sonoridade, que remete a lugares sombrios, recônditos, negridão, cegueira, mágoa profunda, tristeza, solidão.49

Essa lista de significados é suficiente para mostrar que quando se faz referência ao escuro, não ressalta apenas uma designação. O escuro é locus, é valor, é ação. Diz-se que algo feito às escuras deve permanecer no anônimo, escondido, às ocultas, dosselizado em véus, debaixo dos panos e “entre quatro

paredes”. No século das luzes, tudo o que se referia ao conhecimento carnal, ou seja, toda a literatura licenciosa daquela época, foi mantida a sete chaves num quarto escuro das bibliotecas, não ocasionalmente denominado de “Inferno”.50 No escuro daquela sala estavam os frutos proibidos de uma literatura que, segundo Alexandrian, “pretendeu ser um estudo de costumes, revelando os segredos da sociedade, descrevendo o que se passava nas alcovas da alta roda e nas espeluncas, disposta a demonstrar que certos meios consagrados oficialmente aos bons costumes - os conventos, os internatos, os ministérios, etc. - eram na realidade centros de depravação.”51

Os livros eróticos trancafiados no escuro são metáfora e homologia para a relação que existe entre sexo, “frutos proibidos”, penumbra e espaços fechados. Uma sala de exibição, independente do fato de exibir ou não filmes pornográficos, remete à atualização dessas disposições socialmente constituídas, urdidas a meio caminho entre o interdito e a possibilidade de transgredir. “O escuro”, ressaltou Barthes, “não é apenas a própria substância do devaneio”, mas também “a cor de um erotismo difuso”52. Escuro “anônimo”, “povoado”, “numeroso”53, onde o visível e o percebido são nuançados por esse “raio luminoso que se converte segundo a rotação de suas partículas, em figuras móveis”54. Nesse cubo opaco, continua o poeta: uma luz, um casulo, um refúgio, “onde deve-se produzir este festival de afetos que chamamos filme”.55

E com os filmes, os esquemas mentais e corporais afinados nas identificações que a situacionalidade de cinema provoca e interage com os espectadores. O estar juntos numa sala para a exibição de filmes remete a um complexo processo psicológico de identificação com as histórias contadas na tela, somatizando-se na vivência de emoções como alegria, dor, indignação, tristeza, contentamento, incentivo e excitação. A proximidade e a pertença, a recepção, a passividade, a disponibilidade e a suscetibilidade de sentir o transgredir como condutor energético de um encontro amoroso. Assim se constituiu o “escurinho do cinema”, cantado por Rita Lee na década de 70. E quanto tempo até que ele pudesse ser cantado!

50

De acordo com Robert Darnton, muitos países da Europa possuíam em suas bibliotecas salas especiais, onde ficavam trancafiadas na penumbra as obras mais ilegais e eróticas do Antigo Regime. Segundo o autor, os bibliotecários criaram o “Inferno” em alguma ocasião entre 1836 e 1844 como meio de escapar a uma contradição. “De um lado”, diz o autor, “tinham que preservar o acervo mais completo possível da palavra impressa e de outro, queriam evitar que os leitores se corrompessem pelo contato com maus livros. A saída foi reunir todas as obras eróticas mais ofensivas de todas as coleções da biblioteca Nacional de Paris e lacrá-las num único lugar, declarando inacessível para leitores normais”. (Ver aqui, Darnton, R. Sexo Dá o que Pensar, in: Novais A. (org.) Libertinos Libertários, São Paulo, Companhia das Letras, 1996, p.22.)

51

Alxandrian, História da Literatura Erótica [1989]. Trad. bras. Ana Maria Scherer e José Laurênio de Melo, Rio de Janeiro, Rocco, 1993, p. 161.

52 Barthes, R. Saindo do Cinema, in Bellou, R., Kuntzel, T. e Metz, C. (orgs.) Psicanálise e Cinema, São Paulo,

Global, 1980, p.122.

53 Ibidem. 54 Ibidem. 55 Ibidem.

Se muito da sedução que tem lugar numa sala de exibição está relacionado a essa situação de pertença e proximidade dos corpos na “escuridade” de um espaço fechado, essa condição, se pensada enquanto “substância de devaneio” ou de um “erotismo difuso”, não é suficiente para refletir a constituição sociocultural desse espaço denominado sala de exibição. Substâncias não são boas para pensar e, quando absolutizadas empobrecem as possibilidades interpretativas das relações constitutivas do social. As causalidades são múltiplas e o fato do escuro comportar tantos atributos não se explica por uma essência a priori para essa condição, mas é tributária dos significados que, ao longo da história dos espaços fechados, se constituíram social, micropolítica e culturalmente. Desde que no Ocidente se instituiu o que Foucault denomina de Scientia Sexualis,56 a associação entre o escuro e o erotismo vigora em contraposição à vigilância, às censuras e interdições pelas quais passaram os espaços fechados.

Todos esses aspectos assumem uma configuração peculiar quando localizados numa sala especializada para a exibição do gênero cinematográfico “feito para excitar”. Salvo a “tolerância”, o sentimento de estar submetido à censura, à decência, aos bons costumes e à aura de suspense em torno do estar juntos no “escurinho do cinema” alia-se aqui ao “efeito de realidade” característico da literatura e dos filmes pornográficos criando assim uma platéia tão interessada nas cenas que assiste quanto na mobilidade e nas possibilidades da “performance cinematográfica” que ali se desenvolve. Mas antes de chegar ao escuro urbano do Jangada, um desvio pela gênese histórica constitutiva desse espaço, se oferece enquanto recuso viável.

56 Foucault identifica dois grandes procedimentos para produzir a verdade do sexo. Enquanto o Oriente criou uma

ars erótica sofisticada e impessoal, a moderna cultura ocidental elaborou uma scientia sexualis mais voltada para o controle

personalizado que para o hábil prazer. Na arte erótica, diz Foucault, “a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência; não é por referência a uma lei absoluta do permitido e do proibido, nem a um critério de utilidade, que o prazer é levado em consideração, mas, ao contrário, em relação a si mesmo: ele deve ser conhecido como prazer, e portanto, segundo sua intensidade, sua qualidade específica, sua duração, suas reverberações no corpo e na alma... Dessa forma constituiu-se um saber que deve permanecer secreto, não em função de uma suspeita de infâmia que marque seu objeto, porém pela necessidade de mantê-lo na maior discrição, pois segundo a tradição, perderia sua eficácia e sua virtude ao ser divulgado”. Nossa civilização, continua o autor, “para dizer a verdade do sexo, desenvolveu, no decorrer dos séculos, procedimentos que se ordenam, quanto ao essencial, em função de uma forma de poder-saber rigorosamente oposta à arte das iniciações e ao segredo magistral, que é a confissão [e] que passou a ser, no Ocidente, uma das técnicas mais altamente valorizada para produzir a verdade. Desde então nos tornamos uma sociedade singularmente confessada”. Foucault, M. História da Sexualidade I: A vontade de saber. [1985] Trad. bras. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque, Rio de Janeiro, Graal, 1985, ps. 57-59.

Dans le document Rapport d'activité CRPE années 1985-1988 (Page 59-61)