No dia sete de maio de 2008, por volta das cinco horas da tarde, do lado oposto ao segmento residencial em que fui adotado, uma mulher alardeava aos prantos. Os mais atentos decifraram imediatamente que havia falecido alguém na aldeia. Em primeiro momento, pesaram que o curador Pedro Servino vulgo Serra Branca houvesse morrido, pois o mesmo encontrava-se enfermo em um hospital na cidade de Barra do Corda, na espera de se curar de uma tuberculose em estado avançado. O curador já havia sido despachado pelos médicos e em razão do diagnóstico apresentado, os
Apãniekra estavam preparados para receber a notícia a qualquer momento de sua morte183. Serra Branca é um mestre em curar picada de cobra entre o grupo.
Mas logo chega a notícia segura. Uma mulher anuncia em choro cantado, muito peculiar entre os Apãniekra, que a filha de Antonio Iogo, Patrícia Prwncwyj havia falecido. Meu irmão184 José Moraes Pryty correndo assustado em direção ao nosso segmento residencial, tratou de detalhar o acontecido e a cada palavra expressada por ele, formava um coro chorado, principalmente das mulheres adultas que nos circundavam e que mantinham laços de parentescos com o segmento residencial da garota Patrícia Prwncwyj.
Os Apãniekra costumam dizer que pressentem quando está prestes a acontecer algo com algum membro de seu grupo. Os curandeiros são as pessoas mais eficientes para tais pressentimentos; no entanto, esses pressentimentos podem ser anunciados por qualquer indivíduo do grupo, porém alguns indivíduos possuem refinados especiais para as prenunciações. Pryty quando criança passou por várias investidas para se tornar um curandeiro, primeiro quando recebeu em sonho, o anunciado de um velho curandeiro de sua aldeia dizendo-lhe para procurar certo curador para ensinar-lhe as práticas de cura, porém até o momento ele não seguiu tal ordenamento de ser um curador, mas as mensagens oníricas ainda são frequentes em sua vida. Todavia, o grupo percebe que Pryty é um homem especial para os Apãniekra e muitos acreditam185 em seu potencial, tanto nas relações mágico-religiosa como nas relações políticas entre os homens de sua aldeia e os homens da cidade. Em seu discurso é sempre enfático que precisa apreender as coisas do seu grupo como também as coisas do kopë, porque todos os dias ele encontra com kopë na aldeia e na cidade. Pryty apreendeu a ler e a escrever aos oito anos de idade e isso para os Apãniekra é uma via de regra, pois a maioria dos alunos Apãniekra começa a ser alfabetizado a partir dos doze anos de idade e poucos são os que conseguem ser alfabetizados funcionais.
Entre os “choros cantados”, Pryty com sua boa oratória parou para relatar o que estava pressentindo desde quando acordou na madrugada que antecedeu a morte de Prwncwyj. Ele sentiu que algo iria acontecer para entristecer o grupo, quando percebeu
183 Serra Branca chegou a perecer no dia 22 de maio de 2008.
184 O modo como fui posicionado na rede de parentesco é levada muito a sériopelos “meus parentes” e
pelos Apãniekra em geral. Tal relação eu considero positiva, pois me possibilitou contrabalancear a natureza generalizada da coleta de dados.
185 Atualmente, Pryty está cursando o ensino médio na cidade. Pelo fato de saber ler e escrever possui os
principais documentos básicos de cidadania brasileira, tais como carteira de identidade, CPF, título de eleitor etc. tornando-se desde jovem secretário da Associação Apãniekra.
que “os raios do sol estavam fracos, como put tëktxö - o sol da morte186 - sem muito brilho”. Para os Apãniekra, quando o sol aparece nas primeiras horas da manhã sem brilho intenso e nenhuma nuvem carregada é sinal que alguém do grupo vai morrer. Outros fenômenos e acontecimentos são classificados pelo grupo como sinal de anuncio de morte; listar todos aqui não é meu propósito, no entanto faço referências aos principais, listados pelo me colaborador de pesquisa Pryty:
Todas as “comunidades” [parentes] sabem disso, dessa coisa que entristecem todos aqui na aldeia quando morrer alguns dos nossos. Quando uma coisa acontece, como encontrar peixe morto no rio sem ninguém ter posto armadilha ou timbó as pessoas já chegam em casa contado e aí fica todo mundo triste porque alguém pode morrer. Também se uma coruja cantar por duas noites seguidas atrás de uma casa é porque alguém dessa casa vai morrer e isso acontecer mesmo. São muitas coisas que nos entristece, mas os curandeiros é quem sabem melhor anunciar essas coisas e sabe mesmo quando alguém vai morrer. Eles são mais danados de todos aqui, eles acertam mesmo, mas também outras pessoas também sabem, mas a comunidade acredita mais é na conversa dos curandeiros. (Pryty, conversas no interior da casa em que fui adotado; aldeia Porquinhos, 23 de maio de 2008)
Observa-se, portanto, que apesar dos curandeiros serem considerados como as pessoas mais indicar para revelar prenunciação; metaforizar prenúncio não requer de especialista; cada qual é qualificado para prever a perda de seus próprios parentes.
Durante minha última fase da pesquisa de campo – abril a junho de 2008 - três moradores da aldeia chegaram ao óbito de causas que os Apãniekra consideram naturais. Para Pryty, nesses três casos de morte na aldeia ele e a maior parte do grupo observaram o put tëktxö - sol da morte - no início do amanhecer. Uma explicação sobre o “sol da morte” foi-me dada pelo curandeiro Zico Pinhöc, que justificou que
O criador do mundo e dos meh foi put – sol – por isso ele sabe todas as vezes que irá acontecer coisa ruim com os Apãniekra. Assim ele fica triste e fraco, logo seus raios ficam sem brilho e sem força. Nós velhos [curandeiros] que temos conhecimento de muitas coisas que nossos avôs nos ensinaram, sabemos disso muito bem e esse put
tëktxö é desde os tempos dos mais antigos. Isso é uma coisa muito certa. Nós
sentimos e podemos esperar que quando sentimos o put tëktxö boa coisa não vai
acontecer (Zico Pinhöc, depoimento em língua português, aldeia Porquinhos, 10 de maio de 2008)
186 A explicação que me deu para o significado de “o sol da morte” é que a intensidade da luz do sol
Nas narrativas dos Apãniekra put – sol – criou os homens e as coisas, no entanto, não existe entre eles nenhum rito que reverencia ao criador sol. Pinhöc enfatiza que put também é uma espécie de mensageiro para os Apãniekra. A posição e a combinação entre sol, chuva e as nuvens expressa certos significados de prosperidade, dificuldade, necessidade, atitude e tristeza e put tëktxö é um dos expressam tristeza para o grupo.
Quando se dá a morte de Prwncwyj, o chefe da aldeia não estava presente. Portanto, o grupo designa um mensageiro para transmitiu a notícia da morte de Prwncwyj para o chefe da aldeia, Moises Neto Hàhàt, que imediatamente comunicou para a administração da FUNAI em Barra do Corda para providenciar os preparativos do funeral187. Também fez um comunicado para as lideranças Apãniekra que residem na cidade, convocando-as para uma reunião na aldeia para discutir tal situação.
O processo de comunicação na aldeia é instantâneo. O “chamador” da aldeia se direcionou para o centro da praça e por volta de quinze minutos ficou entoando palavras cantadas de bem dizer sobre Patrícia Prwncwyj. Meu colaborador de pesquisa José Moraes Pryty traduziu-me simultaneamente as palavras:
Oh! Como pode acontecer uma tragédia com uma menina que não fazia mal para ninguém (...) seus pais são pessoas boas, sua comunidade [parentes] também (...) isso é muito triste para um Apãniekra, ela era nossa iguathu [iniciada e classificada do partido Harãcateje], nossa princesa, dona do wyty [casa ritual], agora vamos ficar triste, os Apãniekra vão ficar triste. Ela gostava de ficar alegre, gostava de brincar, ajudar sua ënxe, seu ënxũ. Era ä’krare impej [criança bondosa], que sua ënxe [mãe] cuidava bem. Agora foi embora, foi embora. (Joel Raprô. Gravado na língua materna dos Apãniekra no final da tarde do dia 07 de maio de 2008; traduzido por José Moraes
Pryty)
Depois desse chamado, que expressou as coisas boas da falecida e a tristeza pelo fato acontecido, comum nos choros rituais fúnebre entre os Apãniekra, as pessoas aguardavam ansiosamente a chegada do corpo da garota, que chega à aldeia por volta da dezenove horas despertando uma sincronia de choros e a formação de grupos que em seus choros expressavam a necessidade de punir os responsáveis pela morte de Prwncwyj.
Nesse momento, enquanto o corpo da garota começava a ser velado em sua casa, no mesmo segmento residencial o garoto Hajahyco Kencwjnã, autor do disparo que atingiu Prwncwyj era isolado do convívio social. Os líderes presentes na aldeia começam a divergir sobre a punição adequada para o garoto e instalam-se
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informalmente, uma espécie de “tribunal tribal”, cuja composição e dinâmica serão abordadas nesse capítulo.