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STRUCTURES DE L'ENSEIGNEMENT

Tendo em vista as reflexões elaboradas nos tópicos anteriores, que nos possibilitaram compreender a importância de complexificar as representações de mulheres no âmbito midiático, acreditamos que seja necessário destinar um espaço para refletir teoricamente por um viés pós/descolonial, no qual se inserem os livros da Coleção Antiprincesas.

Para compor o panorama teórico deste subcapítulo, nos apoiamos em duas correntes pertencentes aos estudos pós/descoloniais, por meio dos apontamentos feitos especialmente

por Gayatry Spivak (2010) e Walter Mignolo (2010). Sendo assim, adotamos como ponto de partida, uma contextualização de ambas as vertentes, para, posteriormente, explorar os conceitos diretamente relevantes para nosso objeto de pesquisa.

Spivak (2010) integrou o Grupo Latino Americano de Estudos Subalternos, que adota a concepção pós-colonial como vertente de pensamento. Ao passo que, Mignolo (2010) fez parte do Coletivo Modernidade/Colonialidade, no qual o autor desenvolveu uma crítica a perspectiva do Grupo Latino Americano de Estudos Subalternos, defendendo o prisma descolonial.

Por sua vez, Ballestrin (2013) propõe uma caracterização do argumento pós-colonial que nos possibilita uma aproximação inicial com essa perspectiva.

Mesmo que não linear, disciplinado e articulado, o argumento pós-colonial em toda sua amplitude histórica, temporal, geográfica e disciplinar percebeu a diferença colonial e intercedeu pelo colonizado. Em essência, foi e é um argumento comprometido com a superação das relações de colonização, colonialismo e colonialidade. (BALLESTRIN, 2013, p. 91)

De acordo com Bahi (2013, p. 664) os conceitos ‗―Representação‘, ‗mulher do Primeiro Mundo‘, ‗essencialismo‘ e ‗identidade‘ são construções conceituais-chave para muitos dos debates e das discussões que surgem nas perspectivas feministas dentro dos estudos literários pós-coloniais‖.

Já a perspectiva de Mignolo (2010) avança em relação ao prisma pós-colonial, contrapondo os Estudos Subalternos e propondo uma crítica ao ocidentalismo, ambientada na América Latina. Para o autor, os Estudos Subalternos não conseguiram romper com a epistemologia do Norte (BALLESTRIN, 2013). O que Mignolo (2010, p. 15, tradução nossa) defende é que

a mudança descolonial é um projeto de desprendimento epistêmico na esfera do social (também na esfera acadêmica, é claro, que é uma dimensão social), enquanto a crítica pós-colonial e a teoria crítica são projetos transformacionais que operam e operavam basicamente na academia europeia e americana.

Pretendemos explorar, especialmente os conceitos de representação e patriarcado a partir de Spivak (2010), e o conceito de libertação e a gramática da descolonização a partir de Mignolo (2010). Essa reflexão se dá no sentido de posicionar os dois pensamentos para refletir teoricamente sobre as resistências que existem e resistem paralelamente ao processo colonial, e se atualizam constantemente, assim como o objeto empírico desta pesquisa.

Spivak (2010), com apoio de Deleuze, elenca dois sentidos do termo representação: ―a representação como ―falar por‖, como ocorre na política, e representação como ―re- presentação‖, como aparece na arte ou na filosofia‖ (SPIVAK, 2010, p. 39). A partir desses dois sentidos, a autora reflete acerca do papel do teórico ou da teórica ao representar determinado grupo oprimido. Nesse caso, o teórico ou a teórica ao representar acaba não ―falando por‖ e nem ―re-presentando‖, mas assume que o oprimido não possui consciência representativa, o que torna ambos os sentidos inconsistentes.

O que Spivak (2010) propõe ao problematizar o termo representação é justamente a compreensão de que

uma perspectiva feminista pós-colonial exige que se aprenda a ler representações literárias de mulheres levando em conta tanto o sujeito quanto o meio de representação. Exige também um letramento crítico geral, isto é, a capacidade de ler o mundo (especificamente, nesse contexto, as relações de gênero) com um olhar crítico. (BAHRI, 2013, p. 660)

Portanto, Spivak (2010) dá um importante passo, problematizando a concepção do termo representação, permitindo levantar um olhar crítico diante dessa perspectiva, nos fazendo refletir especialmente sobre a importância de considerar o papel e o contexto do sujeito ou sujeita que está sendo representado ou representada.

Essas questões partem da ―constatação de que os subalternos em geral, e o ‗sujeito historicamente emudecido da mulher subalterna‘ em particular, estavam inevitavelmente fadados a serem ou mal compreendidos ou mal representados por interesse pessoal dos que têm poder para representar‖ (BAHRI, 2013, p. 660). Desse modo, cabe salientar a partir de Bahri (2013) que as pessoas detentoras do poder de representação acabam por controlar como os outros ou as outras serão vistos e vistas.

No que se refere especificamente às relações de gênero atreladas ao colonialismo, Spivak (2010) enfatiza o papel da dominação masculina, salientando as dificuldades da diferença sexual para o cenário feminino.

No contexto do itinerário obliterado do sujeito subalterno, o caminho da diferença sexual é duplamente obliterado [...] apesar de ambos serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurgência, a construção ideológica do gênero mantém a dominação masculina. Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade. (SPIVAK, 2010, p. 85)

A partir dessas considerações, julgamos importante ponderar o patriarcado como pano de fundo para ―a constituição do sujeito e a formação do objeto, [nesse contexto] a figura da

mulher desaparece, não em um vazio imaculado, mas em um violento arremesso que é a figuração deslocada da ―mulher do Terceiro Mundo‖, encurralada entre a tradição e a modernização‖ (SPIVAK, 2010, p. 157).

Em vista disso, os estudos pós-coloniais surgem como uma resposta a obliteração de perspectivas sobre as mulheres, compreendendo a existência de sujeitos e sujeitas na subalternidade, no entanto reconhecendo que ―o subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído à ‗mulher‘ como um item respeitoso nas listas de prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio.‖ (SPIVAK, 2010, p. 165). E, nesse sentido, cabe ao intelectual ou a intelectual pós-colonial a tarefa de criar espaços de fala e de resistência a subalternidade, para que assim, esses sujeitos e sujeitas possam ser ouvidos e ouvidas.

Em síntese, o que Spivak (2010) apresenta é um cenário marcado pelo silêncio e pelas dificuldades que envolvem as pessoas na subalternidade. A autora explora esse cenário de maneira muito mais complexa do que expusemos aqui. No entanto, trouxemos suas considerações no sentido de compreender a trajetória das mulheres pelo viés pós-colonial e, assim, enfatizar não somente a importância, mas a necessidade de existência de livros infantis produzidos por uma Editora independente, com mulheres latino-americanas desempenhando os papéis de autoria, ilustração e também o protagonismo nas histórias. Pretendemos explorar mais profundamente o caráter disruptivo das obras literárias com base na perspectiva descolonial de Mignolo (2010), a seguir.

Assim como Spivak (2010), Mignolo (2010, p. 14, tradução nossa) reconhece que ―o conceito de colonialidade abriu a reconstrução e restituição de histórias silenciadas, subjetividades reprimidas, línguas e conhecimentos subalternizados pela ideia de Totalidade definida sob o nome de modernidade e racionalidade‖.

Mignolo (2010, p. 18, tradução nossa) reconhece na modernidade um conceito racional de emancipação, no entanto, salienta a existência de um ―mito irracional, uma justificativa da violência genocida‖. Por essa razão, o autor explora o conceito de descolonização e libertação, em detrimento do conceito de emancipação. De acordo com Mignolo (2010, p. 20, tradução nossa) o termo libertação pressupõe uma visão mais ampla, uma vez que ―a ‗libertação‘ refere-se, [...] a dois tipos de projetos diferentes e inter- relacionados: descolonização política e econômica e descolonização epistemológica‖.

Em suma, a proposta defendida pelo autor é de que ―a ‗libertação‘ e a ‗descolonização‘ são projetos conceituais (e, portanto, epistêmicos) de desapego da matriz colonial de poder.‖ (MIGNOLO, 2010, p. 23, tradução nossa). Desse modo, exploramos esses conceitos como

pressupostos para uma representação de modo mais complexo, tal como propõe Spivak (2010). No caso específico dos livros infantis, acreditamos que uma representação direcionada para a descolonização deve ter ―como horizonte um mundo trans-moderno, global e diversificado‖. (MIGNOLO, 2010, p. 24, tradução nossa). Todas essas questões são metas para alcançar uma gramática da descolonização.

Para elaborar sua proposta da gramática da descolonização, Mignolo (2010) reflete a respeito de dois conceitos principais: a geopolítica e a corpopolítica do conhecimento. Esses conceitos atuam como ferramentas para o projeto descolonial, contrapondo a teopolítica e a egopolítica, que, de acordo com Mignolo (2010, p. 93, tradução nossa) são os ―dois pilares para a colonização das almas e das mentes‖.

A geopolítica e a corpo-política do conhecimento surgem a partir ―da des-identificação e des-classificação dos sujeitos imperialmente negados, surge como epistemologia e política descoloniais que afetam e afetarão o controle político e econômico e a hegemonia de longa data da política (neo)liberal e do capitalismo‖ (MIGNOLO, 2010, p. 36, tradução nossa). Portanto, esses dois eixos são pressupostos para gerar fraturas na hegemonia colonial, abrindo espaço para novas identificações.

Em nossa pesquisa, assumimos como perspectiva, a complexidade do papel da linguagem no que se refere à representação e à significação das relações de gênero. E, acreditamos que, justamente através das instabilidades, das des-identificações e des- classificações, seja possível problematizar as representações discursivas e propor novas significações pela própria linguagem, desde que, as sujeitas sejam protagonistas dessas significações.

Avançando na perspectiva de Mignolo (2010), destinaremos os próximos parágrafos para abordar especificamente a gramática da descolonização. Para o autor, essa gramática sinaliza o momento ―para reescrever a história mundial a partir da perspectiva e da consciência crítica da colonialidade e da corpopolítica e da geopolítica do conhecimento‖ (MIGNOLO, 2010, p. 95 – 96, tradução nossa). Ou seja, escrever histórias carregadas de diversidade, provenientes de diferentes lugares, ―no processo de afirmação e ‗de estar onde você pensa‘‖ (MIGNOLO, 2010, p. 96, tradução nossa).

A gramática da descolonização refere-se à descolonização do ser e do saber, da teoria

política e econômica, no momento em que os sujeitos e sujeitas tornam-se cientes dos efeitos da colonização, para, posteriormente, reverter essa situação. Nesse sentido, ―o primeiro passo na gramática da descolonização poderia ser dado, usando uma expressão dos documentos da

Universidade Intercultural dos Povos Indígenas do Equador, através de ‗aprender a desaprender para que possamos re-aprender‘‖ (MIGNOLO, 2010, p. 98, tradução nossa).

A colonização do ser e do saber operava e opera de cima para baixo, com o controle da autoridade e da economia. A descolonização do ser e do saber atua de baixo para cima, da sociedade civil ativa e da sociedade política radical, ao controle imperial da autoridade e da economia. É nesse sentido que a gramática da descolonização está funcionando e deve funcionar, de baixo para cima (MIGNOLO, 2010, p. 112, tradução nossa).

Portanto, a proposta de Mignolo (2010) no que se refere à descolonização deve partir inicialmente do reconhecimento da colonização do ser e do saber e da consequente compreensão de que o conhecimento foi utilizado para reprimir subjetividades. Logo, a gramática da descolonização se concretiza quando atores e atoras sociais ativam suas próprias línguas e categorias, até então subordinadas, abrindo espaço para múltiplas subjetividades. Não obstante que o despreendimento das amarras coloniais ―requer uma análise do desenvolvimento e da reconfiguração das diferenças imperiais e coloniais, bem como visões e estratégias para a gestação e o crescimento do pensamento fronteiriço‖ (MIGNOLO, 2010, p. 124, tradução nossa).

Direcionando-nos ao final deste subcapítulo, salientamos que as visões de Spivak (2010) e Mignolo (2010), embora pertencentes a correntes distintas, podem ser compreendidas de maneira complementar. Spivak (2010) ressalta, a partir do modelo colonial por ela investigado, que o subalterno não possui as condições e valores para que seja ouvido, e por isso destaca a necessidade de complexificação das representações de pessoas na subalternidade. Já no pensamento de Mignolo fica explícita uma visão um pouco mais confiante, de que os sujeitos e sujeitas não devem disputar um espaço no mesmo lugar e parâmetros coloniais, mas desenvolver suas próprias categorias, a partir do reconhecimento da colonização.

O diálogo entre Spivak (2010) e Mignolo (2010) se desenvolveu ao longo destas páginas, no intuito principal de reconhecer a importância do protagonismo das sujeitas, especialmente na literatura. Já que, é a partir do sujeito ou sujeita que se desdobram as relações de poder, sob as quais direcionamos o olhar pela linguagem.

Sendo assim, acreditamos em uma mudança social das relações de poder com base na articulação da subjetivação com a significação linguística. Ou seja, em nossa perspectiva, apoiamos o potencial de ação da linguagem a partir das representações e interpretações em um viés de resistência e despreendimento, atuando de baixo para cima.

Levantamos essa reflexão para embasar a análise da linguagem da literatura infantil a partir do contexto social, reconhecendo a relevância do protagonismo das mulheres na literatura infantil. Desse modo, o próximo passo nessa perspectiva de análise, está na busca por instigar processos sociocognitivos inovadores por meio do livro infantil de modo a incentivar o processo de subjetivação, contribuindo para a ressignificação e transgressão de relações de dominação.