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STRUCTURES DE CONFINEMENT
Comecei este capítulo com este poema como epígrafe enquanto refletia sobre os processos metodológicos da pesquisa. Entre outros tantos que perpassam a construção de uma tese e toda a trajetória de um pesquisador, a ocasião em que me veio o insight para esta reflexão perpassa a minha trajetória. Porém, ela se materializou em texto quando me vi perdido quanto ao trabalho de análise a ser feito com o corpus da pesquisa. Mesmo sendo visto supostamente como possuindo uma sólida formação de pesquisador, vi-me, por vezes, confuso sobre decisões, escolhas e caminhos a seguir com relação à pesquisa. Alguém dizia que não deveria ou não poderia fazer isto ou aquilo, enquanto outro dizia que precisava ser desse ou daquele modo. Ao final, construía-se, às vezes, apenas um emaranhado de especulações que me deixavam bastante desnorteado.
Em meio a esse emaranhado de especulações, lembrei-me da afirmação, que ouvi ao longo de minha trajetória, de que método significa caminho, inclusive já desde o Ensino Médio quando li em “O Convite à Filosofia:
A palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio de, e de hodos: via, caminho. Usar um método é seguir regular e ordenadamente um caminho através do qual uma certa finalidade ou um certo objetivo é alcançado. No caso do conhecimento, é o caminho ordenado que o pensamento segue por meio de um conjunto de regras e procedimentos racionais [...]. O método é, portanto, um instrumento racional para adquirir, demonstrar ou verificar conhecimentos. (CHAUÍ, 2000, p. 199).
Método é caminho, expressão tônica ao longo da minha formação como pesquisador. Tinha claro essa compreensão, mas emerge uma indagação: qual caminho (método) seguir se vários caminhos e possibilidades são apontadas? Foi nesse instante que compreendi que não iriam me dizer e, por mais que muitos me dissessem qual deveria ser o caminho, compreendi que teria de descobrir no próprio caminhar, como sugere o poeta espanhol Antônio Machado: “ o caminhante não tem caminho: o caminho se faz ao andar” (MACHADO, 2012, p. 130, tradução nossa). Fui me dando conta de que o pesquisador e o professor são caminhantes e o seu caminho não está dado, tendo de ser construído durante o próprio caminhar.
Não obstante essa reflexão, refleti também que assim tem sido ao longo da trajetória em que foi necessário desenvolver uma certa perspicácia para perceber o não- dito nas entrelinhas do que não me diziam quando me diziam algo. E como ninguém diz aos pássaros exatamente como voar e, mesmo assim, eles têm de aprender para enfrentar o mundo e usufruir da sua liberdade, o pesquisador precisa descobrir, aprender ou criar o seu melhor jeito de fazer pesquisa. Em outras palavras, precisa fazer o seu próprio desenho metodológico e é a questão de partida, o que pode ser chamado de problema de pesquisa, que determinará as decisões e escolhas do pesquisador (MOROZ; GIANFALDONI, 2006).
Nesse sentido, lançando mão das orientações de metodólogos, da literatura no campo da pesquisa educacional e muitas outras fontes, compreendi que não me seria dito o exato caminho a seguir, no entanto, para responder às questões da pesquisa, teria de descobrir os caminhos ou mesmo criá-los. São esses caminhos que descrevo e justifico neste capítulo, fazendo questão de usar o plural porque já não vejo mais percorrido um único caminho, pois atravessei muitas veredas ligando diversos pontos, esquadrinhando jeitos e desenhando modos de fazer pesquisa e de tornar-me pesquisador, principalmente no processo de construção desta tese.
A reflexão expressa nos versos da epígrafe deste capítulo não remete à minha trajetória pessoal apenas. Ao interagir com os agentes colaboradores da pesquisa, os
estudantes do curso de Pedagogia, vi também angústias semelhantes às minhas no passado como estudante desse curso e atualmente na produção da tese. ‘Como é que faz?’; ‘me diga o que eu preciso fazer para sair daqui?’ e várias outras expressões dos estudantes, as quais ecoam ante as muitas vozes que lhes dizem muitos e diferentes modos de fazer e escrever uma monografia, por exemplo. No entanto, em grande parte das vezes, por algum motivo, não se fazem entender, ou seja,os estudantes, embarreirados no final do curso por causa da dificuldade de escrever seus TCC’s, expressam uma espécie de ‘não me disseram o que tinha de fazer’ ou então “me digam’.
Uma educação científica deficitária parece ser uma primeira hipótese para explicar tais dificuldades e buscar entender o mundo social à sua volta, ou um fenômeno de investigação científica em educação, funde-se com compreender a si e (re)conhecer seus percursos, bem como exige um exercício reflexivo profundo de “ouvir’, mesmo aquilo que não é dito de modo tão explícito. Então, por que iniciar o capítulo metodológico com esse poema?
A justificativa para este início tem a ver, primeiro, com a minha própria trajetória de formação como pesquisador, pedagogo e professor, assimcomo também com a observação sobre as trajetórias dos estudantes no âmbito do curso de Pedagogia. Considero importante sinalizar que, embora existam diversas indicações metodológicas em livros e teses, ou seja, uma vasta literatura que, de algum modo, sinalizam indicações sobre como proceder a uma pesquisa ou sobre como escrever um texto, nenhuma dessas indicações poderá informar um caminho absoluto. Isso se justifica porque a realidade sobre a qual se debruça um pesquisador inicialmente, seja como profissional, seja simplesmente como alguém que se inquieta sobre determinado fenômeno, é complexa e não é palpável tal qual se faz com um objeto inanimado material. Digo isso a respeito da realidade social, ou melhor, a respeito da realidade em que os seres humanos interagem. Nesse sentido, é o pesquisador haverá de aprender o seu próprio caminho ou método.
Quando falo do pesquisador, eu falo também do estudante de Pedagogia e do professor aprendiz de um modo geral para serem perspicazes em perceber as nuanças dessa realidade e se questionar nesse sentido, obviamente, empenhado em aprender o espírito investigativo. Em outras palavras, em consonância com Demo (2011, 2015), pode-se afirmar que os estudantes precisam ser educados cientificamente e que do, ponto de vista de uma educação científica, é necessário construir no sujeitos aprendizes posturas questionamento sobre a realidade (CACHAPUZ et. al, 2011), assim como também acentua Freire (1982), é preciso desenvolver uma postura crítica frente ao mundo. Isto
exige humildade e uma disciplina intelectual que não tem a ver com o modo de educação bancária historicamente impregnado nas práticas educativas em nosso país. Neste sentido, comecei esse capítulo metodológico afirmando que “não dirão”.
Não dirão no sentido de que nem tudo estará tão explícito para cada novo pesquisador ou professor em formação. E aqui, paradoxalmente, o que eu quero é explicitar o caminho metodológico que, em certa medida, não me disseram, apesar das indicações que recebi da literatura e da minha própria trajetória formativa. No entanto, no desenho metodológico da pesquisa, não há quem diga literalmente todas as receitas ou indicações de como se deve proceder para que o desenho se conclua.
Esclareço que não quero dizer, com isso, que há uma irresponsabilidade ou uma ausência da agência de formação nesse sentido, mas o fato é que, por mais que se diga, haverá sempre a necessidade de o pesquisador e o escritor utilizar a sua criatividade, pois, como afirma Bazerman (2018), todo ato de escrita é um rato criativo ou, como afirma Freire (2007), é preciso transformar a curiosidade ingênua em curiosidade epistemológica. Feito esse preâmbulo, passo a descrever o desenho metodológico desta pesquisa, usando a metáfora do desenho que também tem seu sentido explicitado aqui.
Apresentar uma proposta metodológica para investigar a formação docente é um desafio a partir de uma perspectiva que a compreende como um problema complexo. Ao partir desse posicionamento, o desenvolvimento desta pesquisa não pôde se constituir apenas de uma lista hermética em torno de um método e suas técnicas de construção ou de análise de dados. Em consonância com a perspectiva teórica adotada, foi necessário ir mais além. Nesse sentido, a metáfora do desenho é que melhor representa a tarefa proposta: investigar a relação entre a formação inicial de professores no campo da Pedagogia quanto ao ensino da escrita e as trajetórias de incorporações de habitus desses estudantes de Pedagogia.
O desenho é uma projeção do desenhista, cujo roteiro é traçado em sua mente, porém, até ser afixado na tela ou no papel, passa por vários ajustes tendo em vista o produto objetivado. Contudo, até mesmo o produto, em meio aos refazimentos dos traçados e ao consequente uso da borracha, pode ser reformulado. O desenho se faz no próprio ato desenhar que, por sua vez, não é linear, mas cheio de idas e vindas ou voltas, em função do desenrolar da atividade. Em outras palavras, quero dizer que durante o processo de investigação, fiz alguns traçados em função dos objetivos da pesquisa, porém, assim como faz o desenhista, foi necessário lançar mão da borracha e do lápis algumas ou muitas vezes nesse processo criativo.
Compreendo, assim, a partir de Demo (2011), que a pesquisa pode ser tanto um ato de descoberta, de criação como também de diálogo com a realidade. Dessa forma, o pesquisador maduro (ou o que deseja amadurecer) deve estar consciente de que ele pode e deve ter um roteiro, um mapa da “viagem”. Contudo, deve igualmente compreender que este caminho pode estar traçado, mas também pode ser refeito ao caminhar rumo ao ponto de chegada, ou seja, a resposta ao problema proposto na investigação. Novamente, remeto à poesia de Machado (2012, p.130): “quando você anda, você faz o seu caminho e quando olha para trás, você vê o caminho que nunca tem que pisar novamente”.
Nesses percursos, não posso esquecer que o foco de investigação são as trajetórias e que, sendo um investigador das trajetórias de escrita dos estudantes de Pedagogia, também possuo uma trajetória que em diversos momentos incide nesta tese. Olhar para trás e perceber caminhos que não devo percorrer ou que precise voltar para retomar me situa no presente, perspectivando um caminho de um doutoramento e a formação de futuros escritores-professores-pedagogos.