dizem que a paixªo o conheceu/ mas hoje vive esco ndido nuns culos escuros/ senta-se no estremecer da noite enumera/ o que lhe sobejou do adolescente rosto/ turvo pela ligeira nÆusea da velhice/ conhece a solidªo de quem permanece acordado/ quase sempre/ estendido ao lado do sono/ pressente o suave esvoaar da idade/ ergue-se para o espelho/ que lhe devolve um sorriso tamanho do medo/ dizem que vive na transparŒncia do sonho/ beira-mar envelheceu vagarosamente/ sem que nenhuma ternura nenhuma alegria nenhum ofcio cantante/ o tenha convencido a permanecer entre os vivos (Al Berto, 2005, p.516)
5. Projecıes, metÆforas e metonmias, em nome do p ai
Al Berto escrevia sobre sentimentos, sobre a morte, sobre o mar, a natureza e o cheiro das cidades costeiras. Da mesma forma que a vida comea na integraªo de imagens a sua mente, por vezes, transformava-se no projector que inundava o branco do papel. No incio, terÆ sido o verbo que o moveu mas o pintor distrado descobriu a palavra. Neste mundo de ambiguidades aprendemos que s podemos ser bons juzes de ns mesmos. Alberto conhecia os caminhos que trilha va mas a doena apanhou-o na curva. A ironia final da vida cujo controlo escapa por entre os dedos, na acumulaªo de lugares vazios. Al Berto tem bastantes registos poØticos em que se refere a si prprio na terceira pessoa. De facto os œltimos livros d O Medo contŒm poemas em que autor nªo se implica de todo, ou pela temÆtica em questªo ou pelo deslocamento contnuo que faz para
outros corpos.
Penso ser esta a melhor forma de definir alguØm tªo fragmentado e as palavras sªo dele: virava todo o seu sentir para o mar/ qua ndo no medo dos mticos promontrios/ rasgou a ocenica visªo... a nsia de partir/ remotas eram as constelaıes que consultara/ os rostos traziam a brancura queimada das velas/ eram palavras segredadas lendas de feras/ que os dedos e a matemÆtica jÆ tinham assinalado nos mapas/ a vida da selva a flora mole dos pntanos/ os costu mes tribais dos arquipØlagos/ a prata das plancies o mistØrio de caudalosos rios/ e a tempestade sacudia o granito/ da sua imobilidade surgiam estes sinais transparentes/ estes animais cuja pelagem de ouro a noite corroeu/ e os passos alucinados pelas lages do porto/ ressoavam no medo... medo que o mar o acorde/ e descubra que nªo existe mar n enhum/ por fim atacaram-no as
febres/ as febres da alba com perfume a violeta/ as febres que iluminam os sentidos/ e alimentam o surdo canto dos loucos e dos bœzios (A l Berto, 2005, p.305) PoderÆ desenhar-se uma vida inteira em tªo poucas linhas? Por certo que sim mas serÆ que o pintor estava distrado? Vejamos... O primeiro afec to: o mar. A primeira e œltima emoªo que a morte encarna perfeitamente: o medo. Depois do medo? Partir. As viagens: rostos, segredos, mapas e arquipØlagos remotos. Sempre o mar, sempre o medo. Regresso: tempestade, granito, animais corrodos pela noite, alucinaªo no porto, o caos do regresso terra mªe. Fuga: Medo que o mar se aperceba de qu e nªo Ø o mesmo mar desilusªo. Doena: a febre, a loucura e os bœzios que mesmo va zios preservam os ecos de um mar remoto e imaculado. Sempre o mar, sempre o medo. Assim como o Al Berto e o Alberto e o Al e o Berto.
Oliveira, 1999, situa-nos o lugar da morte na histria da Humanidade para nos dizer que esta passou de ser aceite naturalmente, durante a Idade MØdia, para ser temida, repudiada e incansavelmente adiada na Øpoca contempornea. O autor acrescenta que por volta do sØculo XVIII, jÆ depois da morte ser aliada ao imagØtico e ao simblico, o Homem passa a recear nªo apenas a morte em si mas a separaªo, nªo admitida, provocada pela morte do outro. O distanciamento da morte fez com que esta se tornasse dramÆtica, tensa e contestada. Em contexto hospitalar a morte Ø admissvel numa prÆtica em que s acontece aos outros e os profissionais de saœde concentram esforos em evitÆ- -la para colmatar a sua prpria incapacidade de tra var a chegada da mesma, sendo que deviam concentrar-se em improvisar a sua inevitabilidade (Oliveira, 1999). do antigo medo da infncia regressas/ por onde pedras razes e bichos se tocam/ amam e dormem juntos na euforia dos sonhos/ memria de Øter e ar que se fende/ tua passagem de
criana ressuscitada/ mas logo se abate um pÆssaro morto fisgada/ sobre o rosto a mªo queimada uma nuvem/ sobe dos teus passos perturbando/ o limpo horizonte daquele olhar/ vives para sempre na distante fmbria da noi te/ onde enterraste os fosforescentes jogos/ da loura criana em ti assassinada (Al Bert o, 2005, p.549). A criana assassinada em Alberto recolheu ao seu corpo e por lÆ permaneceu. Lembrando-lhe sempre que estava morta, atormentando-o, escarnecendo do homem que lutava para se libertar da angœstia de ser pequenino, de ter morrido antes da morte ou da vida. visvel a sua vontade de se reinventar, renascer e crescer longe dos assassinos mas o pÆssaro Ø abatido eficazmente, rapidamente, para que do baœ das memr ias muito pouco sobeje da euforia e dos sonhos, restando a nuvem negra que enterra a visªo clara do horizonte. A criana morreu para que o homem crescesse perfeito. Mas a perfeiªo Ø inimiga da vida real e nem mesmo a morte Ø perfeita, apenas aniquila a cicatriz. (...) de mim me afasto atravØs do que te escrevo. nunca mais regressarei, porque no fundo de mim houve a tua morte a morte das terras, a confusªo dos caminhos. houve a desolaªo, o deserto, a demoliªo da casa e da minha prpria sombra. o corpo degrada-se, e nem sequer um abutre veio debicar nos despojos. o afogado ficou na praia, os ossos descarnados brancos sinais de navegaªo. ninguØm reclamou o seu corpo ou a sua al ma. (...) (Al Berto, 2005, pp.594, 595).
Na selecªo de poemas para este captulo pude obse rvar ligeiras diferenas na forma de escrita. JÆ antes o tinha verificado pois s vezes torna-se notrio que o registo mental de Alberto se encontra alterado. Existem muitos no mesmo. Este Ø o Al Berto projectivo no seu esplendor. Sem conseguir ser enfadonho, afinal o poeta Ø o mÆgico das palavras, o Al Berto que escreveu estes poemas e alguns outros que nªo couberam neste
trabalho, nªo Ø o Al Berto doce, nem o amargo. al go pelo meio, fora de si, dentro do seu vazio interno. jÆ nªo possui nome nem idade ne m herana/ a desolaªo ergueu-se definitivamente/ em seu redor como o silvo de uma navalha/ sada da desmoronada infncia/ ouvimo-lo deambular insone pelos corredor es/ onde a beleza arde na treva cegando os sentidos/ noite dentro agita as mªos no escuro/ descobre glicnias molhadas malvas floridas/ a tØnue cinza das estrelas acende-se num instante/ no vio negro das rosas somente imaginadas/ mas onde pernoita o corpo da criana que foi/ ele sabe que nªo amanhecerÆ nunca mais (Al Berto, 2005, p.571).
Retomando as teorias de Otto Rank acerca do duplo e da sua relaªo com o narcisismo e na tentativa de definir a expressªo de fensiva da perda da shadow-image o autor encontra a contradiªo de ser exactamente na perda que o sujeito fortalece o amor por si mesmo. superfcie, esta mirror-image Ø traduzida como uma perseguiªo,
entendida como uma representaªo do oposto. Sendo q ue Freud jÆ teria localizado a origem das ideias paranides numa fixaªo narcsica , Rank, 1993, esclarece que estas estªo na base da ideia persecutria, acima referida , influenciando a qualidade do duplo. ouve-me/ que o dia te seja limpo e/ a cada esquina de luz possas recolher/ alimento suficiente para a tua morte/ vai atØ onde ninguØm te possa falar/ ou reconhecer-te vai por esse campo/ de crateras extintas vai por essa porta/ de Ægua tªo vasta quanto a noite (...) (Al Berto, 2005, p.605). O autor acrescenta que, de acordo com as ideias paranides de perseguiªo, o indivduo perseguidor Ø geralment e a figura do pai ou um irmªo. Aquando do desenvolvimento, o momento da homossexualidade sublimada serÆ aquele em que as ideias paranides regressam ao narcisismo original, sendo a defesa contra este impulso elaborada atravØs de mecanismos projectivos (Rank, 1993). O duplo Ø entendido
como um rival do seu prottipo, sobretudo na compet iªo pelo amor da mªe. No seu sintoma mais frequente salienta-se um sentimento de culpa muito intenso, cuja autoconsciŒncia faz com que o sujeito negue determinadas responsabilidades pelas acıes do seu prprio ego. Apoiando-se novamente nas teori as freudianas o autor localiza as fontes desta autoconsciŒncia no desfasamento entre o ideal do ego e a realidade, fomentados por um intenso medo da morte. (...) que o dia te seja limpo/ e para lÆ da pele constri o arco de sal/ a morada eterna o mar por onde fugirÆ/ o etØreo visitante desta noite/ nªo esqueas o navio carregado de lumes/ de desejos em poeira nªo esqueas o ouro/ o marfim os sessenta comprimidos letais/ ao pequeno-almoo ( Idem).
Rank, 1993, observa, atravØs do folclore literÆrio, que o motivo revelador de uma ligaªo entre o medo da morte e o narcisismo Ø o de sejo de permanecer jovem para sempre. Este desejo representa a fixaªo libidinal do indivduo no narcisismo primÆrio e o medo de morrer. Na relaªo bvia entre o medo da morte e o sentido de preservaªo, Rank advoga que o œltimo nªo Ø definitivo no que toca compreensªo dos nœcleos neurticos suicidas. O autor acrescenta que, na lit eratura, Ø frequente ocorrer o assassinato do duplo, como um pseudo-suicdio, uma vez que o sujeito Ø incapaz de eliminar o medo da morte atravØs da ameaa ao seu n arcisismo. Nesta perspectiva o duplo Ø entendido como uma expressªo funcional do narcisismo, a figura odiada e temida, o fantasma do passado. noutros tempos/ qua ndo acreditÆvamos na existŒncia da lua/ foi-nos possvel escrever poemas e/ envenenÆvamo-nos boca a boca com o vidro modo/ pelas salivas proibidas noutros tempos/ os dias corriam como Ægua e limpavam/ os lquenes das imundas mÆscaras (...) (Al Berto, 2005, p.606). A palavra alma surge para negar a morte e de acordo com Rank, 1993, um dos seus conceitos mais primitivos
estÆ relacionado com as sombras. Neste contexto o autor pretende demonstrar que a ideia de morte Ø negada pela duplicaªo do self, incorporado na sombra ou na imagem reflectida. Do carÆcter inevitÆvel da morte surgem os desejos de imortalidade, nos quais se inscrevem as crenas religiosas e msticas, que provocam no indivduo reacıes defensivas contra o seu narcisismo primÆrio ameaado. Desta forma o duplo, cuja criaªo personifica o amor-prprio narcsico, transforma-se num rival inequvoco. Tendo sido criado para servir a auto-preservaªo, reaparece co mo mensageiro da morte em si mesma. (...) hoje/ nenhuma palavra pode ser escrita/ nenh uma slaba permanece na aridez das pedras/ ou se expande pelo corpo estendido/ no quarto do zinabre e do Ælcool pernoita- -se/ onde se pode num vocabulÆrio reduzido e/ obsessivo atØ que o relmpago fulmine a lngua/ e nada mais se consiga ouvir (...) ( Idem).
Freud, 1981, fala-nos da estranheza que este duplo provoca. No seu Das
Heimlich, o autor identifica o surgimento do duplo como um dos acontecimentos mais
estranhos para o indivduo. Corroborando as ideias de Rank, Freud explica que a sensaªo de estranheza relativa ao duplo advØm da i deia desta duplicidade estar ligada ao amor prprio e ao narcisismo primÆrio. A ideia de duplo parece revelar uma persistŒncia, para alØm do narcisismo primÆrio, ao longo da vida do indivduo. Esta possibilita na sua natureza resistŒncia e oposiªo ao restante dos ele mentos egicos, oferecendo ao duplo a funªo de observador e crtico e atribuindo-lhe car actersticas do narcisismo primÆrio. Desta forma o duplo, apesar de parecer estranho, Ø primitivo no indivduo e passvel de surgir a qualquer momento. Como estranho entende-se o que outrora foi familiar mas reprimido. A estranheza serÆ o sentimento derivado do seu regresso, associada ao medo e ao desconforto. O estranho relativamente morte Ø aparentemente inevitÆvel pois esta
continua a ser, desde sempre, a perda mais incompreendida da humanidade. De acordo com o autor, este pensamento algo primitivo sobre a morte Ø o grande motor que fomenta o medo em relaªo a esta. A supressªo da crena na existŒncia de fantasmas, enquanto espritos dos mortos, confere morte um carÆcter a inda mais definitivo e assustador. Freud assinala os factores que transformam o assustador em estranho como sendo o animismo, a magia e a bruxaria, a omnipotŒncia de pensamentos, a atitude face morte, a repetiªo involuntÆria e o complexo de castraªo. O autor acrescenta que o estranho ligado omnipotŒncia de pensamentos estÆ relacionado com a realizaªo imediata de desejos, poderes malØficos ocultos, e o retorno dos mortos. Sendo o œltimo a origem da condiªo de estranheza inerente espØcie humana. F reud, 1981, resume este fenmeno a uma espØcie de teste de realidade assinalando as diferenas entre as suas origens em complexos infantis reprimidos, no complexo de castraªo ou nas fantasias intra-uterinas. O autor acrescenta que uma vez superada a primeira funªo do duplo, ou seja, a garantia de sobrevivŒncia, o sujeito terÆ que se exorcizar da presena deste duplo, como œnica condiªo de aceitar a sua prpria mortalidade. (.. .) o que vejo jÆ nªo se pode cantar. recomeo a fuga, a œltima, e nela hei-de morrer de olhos abertos, atento ao mnimo rumor, ao mais pequeno gesto atento metamorfose do corpo que sempre recusou o aborrecimento. (...) (Al Berto, 2005, p.644).
Golse, 2005, diz-nos que a aquisiªo da noªo de m orte Ø um processo gradual e muito difcil de situar precisamente, aquando do de senvolvimento. Facto Ø que a aquisiªo deste fenmeno possui uma dupla vertente, emocional e intelectual. O autor adianta que num plano intelectual, o conceito de morte reœne vÆrios factores que serªo adquiridos sucessivamente pela criana. A saber: a noªo de que a morte Ø irreversvel,
por volta dos 4, 5 anos; a noªo de que a morte Ø u niversal, por volta do 5” ou 6” ano de vida e a noªo do desconhecido, aps a morte, adqui rida muito mais tarde, por vezes nunca. O autor acrescenta que relativamente ao plano afectivo tudo se complica, uma vez que as reacıes afectivas perante este tipo de perd a objectal definitiva sªo centradas na dœvida e na angœstia e pouco variam com a idade. Apesar de muito pouco se poder avanar sobre o conceito de morte, que nªo ponha em causa crenas e medos individuais, certo Ø que a noªo de morte s muito lentamente Ø adquirida pela criana e nenhum trabalho de luto Ø verdadeiramente possvel durante os primeiros anos de vida do indivduo. na suave asa do grito reflecte-se o lum e/ comestvel do tempo a mªo transformada/ em polvo sacode a erva seca no sangue/ da manhª/ eis o mundo feØrico das feridas incurÆveis/ o inferno/ mesmo quando dormes gemes abandonado/ ao estertor da chuva na vidraa e ao vento/ que dana na persiana/ nªo saberÆs nunca da tua metamorfose/ em pantera aØrea vou proibir que te passeies/ por cima dos sentimentos e dos mveis/ e que te vingues/ do hÆbil sedutor de feras (Al Berto, 2005, p.611).
Na miscelnea de conceitos definidos encontra-se u m padrªo. Morte, medo, estranho, morte estranha que causa medo, sensaªo d evolvida arrancada da infncia. Al Berto sabia que a sua morte era eminente e necessÆria. A casca Ø a primeira a sofrer a metamorfose do dano, mesmo quando se comea a morre r, aos poucos, por dentro. Kbler-Ross, 1996, refere-se mortalidade como sen do o œltimo estÆgio do desenvolvimento da vida humana. A autora adianta que apenas atravØs do entendimento da morte e da sua posiªo no quadro do desenvolvime nto humano Ø possvel usar a vida da forma mais produtiva e feliz possvel. Por outro lado o estigma face morte Ø aumentado pelo repœdio com que a classe mØdica e a prpria sociedade tratam este facto