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1. objectifs et approche

1.9 Structure du rapport

A sistematização das principais características do trabalho permitiu obter um primeiro retrato daquelas que parecem ser mais frequentes. Contudo, a análise das principais dificuldades sentidas no trabalho abre efectivamente uma perspectiva diferente, evocando uma dimensão mais pessoal e vivida, centrada no sujeito.

Os trabalhadores inquiridos relacionam as suas principais dificuldades (quadro 12) com o uso do seu corpo no trabalho (55.8%) e com um ambiente ruidoso (34%). Mas a presença de riscos é referida por 25.2% dos trabalhadores - o que não deixa de ser revelador de um sofrimento psíquico - que vários autores relacionam, aliás, nem tanto com as condições materiais de trabalho mas sobretudo com a organização do trabalho (Bidron, Derriennic, Dubre, Gasseau & Guiho-Bailly, 1996).

Quadro 12: Principais dificuldades sentidas pelos trabalhadores no seu trabalho actual (em percentagem)

Principais dificuldades sentidas no trabalho Fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis Trabalhar com barulho

Detectar detalhes muito pequenos, ler textos pouco legíveis

Ser frequentemente obrigado a apressar-se no seu

trabalho WBm Correr riscos no trabalho, estar exposto ao perigo

(acidente, ferimentos, quedas, agressão verbal ou física...)

Ser obrigado a fazer várias coisas ao mesmo tempo Fonte: SIT (2001)

É ainda de referir, sempre relacionando com a organização do trabalho, a percentagem relativamente importante dos que referem dificuldades por serem

ba A selecção dos itens apresentados no quadro teve como critério uma frequência de pelo menos 20%. No quadro estão

assinaladas as características de trabalho mais frequentemente percepcionadas como fonte de dificuldade (em que pelo menos 20% dos sujeitos assinalou positivamente). A alternativa de resposta "não aplicável" corresponde à situação em que a característica identificada está ausente no trabalho desenvolvido, por isso, a sua avaliação não é aplicável.

Capítulo til Saúde e trabalho: relações >" evoluções

Sim Não Não

aplicável 55.8 41.2 3 34.0 36,2 29.8 24.4 67.1 8.5 20.1 68.4 11 R 25.2 69.9 4.9 20.1 69,3 10.6

obrigados a apressar-se (20.1%) e por serem obrigados a fazer várias coisas ao mesmo tempo (20.1%) o que, claramente é associado à intensificação do trabalho.

5.1.1. Relações entre o trabalho, as dificuldades sentidas e o género

As dificuldades no trabalho são referidas de maneira diferente pelos homens e pelas mulheres (gráfico 21) o que parece estar, também, relacionado com as diferenças de actividade de trabalho que, maioritariamente, desenvolvem.

Gráfico 21 : Principais diferenças nas dificuldades sentidas no trabalho segundo o género Homens Mulheres

Fazer horas extra Não poder desviar o olhar do seu trabalho ou não poder ser interrompido no seu trabalho Ser obrigado a fazer varias coisas ao mesmo tempo Ser obrigado a apressar-se no seu trabalho Correr riscos no seu trabalho Detectar detalhes muito pequenos, ler textos pouco legíveis Trabalhar com barulho| Fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis Fonte: SIT (2001)

São as mulheres que referem ter mais dificuldade em fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis (p=.000), o que parece estar de acordo com o seu trabalho, já que incide sobretudo na realização de actividades na área da confecção e da revista que, pelas observações realizadas, se constatou tratar-se efectivamente de actividades que obrigam a esforços físicos e posturas penosas (carga física

Dapítulo III

estática elevada) assim como a um elevado grau de concentração durante períodos de tempo prolongados, o que também pode estar relacionado com as dificuldades sentidas em detectar detalhes muito pequenos, 1er textos pouco legíveis, não poder desviar o olhar do seu trabalho ou não poder ser interrompida no seu trabalho - conjunto de factores associado a elevados ritmos de produção e a um forte controlo e vigilância (sobretudo na confecção). O quadro geral é, então, propício ao desenvolvimento deste conjunto de dificuldades.

Na realidade, as mulheres (da amostra) que realizam um trabalho que obriga a posturas penosas e cansativas têm uma probabilidade 16 vezes mais elevada (OR60=16.4; p=.000), de relatarem dificuldades em realizar esforços físicos e em

adoptarem posturas desconfortáveis comparadas com as que nunca realizaram um trabalho com estas características.

Quanto aos homens, ao contrário das mulheres, é a dificuldade em trabalhar com o barulho que prevalece (41.5%, p=.007), o que se pode igualmente relacionar com a actividade de trabalho que, para além de exigir, em geral, um grande esforço físico é realizada num ambiente caracterizado por um barulho intenso e permanente (57.8% comparativamente com 26.1% das mulheres).

De facto, os homens têm uma probabilidade duas vezes superior (OR=2.0; p=.012) às mulheres de relatarem dificuldades em trabalhar com barulho e esses resultados são congruentes com o facto dos homens revelarem mais doenças do ORL (8.2% comparativamente com 5.1% nas mulheres) e mais alterações auditivas (26.5% comparativamente com 7,1% nas mulheres).

Todavia, a atenção que se pode atribuir às variações destes dados em função do género não pode mascarar que os homens apresentam também dificuldades em fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis (46%). E, de facto, comparativamente com as mulheres, foi identificada nos homens uma maior frequência de doenças do sistema osteoarticular e muscular (quadro 11) que parecem estar associadas a uma actividade de trabalho que obriga a carregar cargas pesadas e a realizar esforços físicos intensos.

60 Ver, neste capítulo, página 94.

112

C

5.1.2. Relações entre o trabalho, as dificuldades sentidas e a idade

As dificuldades sentidas no trabalho apresentam também algumas variações com a idade, apesar das diferenças encontradas não predizerem um aumento linear das dificuldades com o avanço da idade (figura 22).

Gráfico 22: Principais diferenças nas dificuldades sentidas no trabalho segundo a idade

Não poder desvias o olhar do seu trabalho Ser obrigado a fazer várias coisas ao mesmo tempo Correr riscos no seu trabalho

I Ser obrigado a apressar-se no seu trabalho

I Detectar detalhes muito pequenos

■ Trabalhar com barulho I Fazer grandes esforços

físicos

Fonte: SIT (2001)

Apesar de terem sido apenas encontradas diferenças significativas relativamente à dificuldade em "trabalhar com barulho" (p=.006) e em "detectar detalhes muito pequenos, ler textos pouco legíveis" (p=.001), de facto, são os trabalhadores mais velhos que sentem mais dificuldade em trabalhar com o barulho (44.1%), em detectar detalhes muito pequenos (42.6%) e em fazer grandes esforços físicos (66.2%).

Contudo a evolução destas dificuldades caracteriza-se por uma variabilidade importante: há um aumento na faixa etária dos 25-34 anos de idade que decresce no grupo dos 35-44 anos de idade (sendo no caso da dificuldade 'trabalhar com o barulho" bastante acentuada) para aumentar, de novo, no grupo etário mais velho. Qual a razão destas diferenças?

Obviamente, tratando-se de uma análise transversal e não longitudinal há que considerar os diferentes subgrupos em questão enquanto cohorte não

necessariamente submetidos na sua história profissional às mesmas situações de trabalho. Mas, mesmo assim, não se pode deixar de referir aqui os estudos (Teiger, 1995) que já demonstraram a emergência, com a idade, de estratégias que, adquiridas com a experiência e os saberes acumulados, ajudam o trabalhador "mais velho" a fazer face aos constrangimentos impostos pelo trabalho que por isso deixam de ser percepcionados como dificuldades.

No conjunto das dificuldades sentidas no trabalho, as dificuldades em "fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis" e em "trabalhar com barulho" foram as mais, frequentemente, assinaladas por homens e pelas mulheres em todos os grupos etários e, se parecem estar de uma maneira geral associadas aos constrangimentos físicos, existem outras características das condições de trabalho que, apesar de serem menos visíveis, interferem com estas dificuldades, sobretudo com a dificuldade em "fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis" (quadro 13). Quadro 13: Dificuldade em "fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis

OR [ IC 95%1 P<.05 Sexo homens 1.0 mulheres 2.3 [1.3-4.4] P=.008 Idade < 25 anos 25 - 34 anos 35 - 44 anos > 45 anos // // // // Trabalho variado muito 1.0

um pouco 1.0 [0.5-2.0] p=.930 não muito 2.4 [1.2-4.8] p=.012 nada 2.7 [1.3-5.8] p=.009 Escolha dos momentos de pausa sempre 1.0

quase sempre 0.9 [0.5-1.8] p=.740 quase nunca 3.6 [1.3-10.1] p=.015 nunca 1.6 f0.8-3.2l p=.224 Fonte: SIT (2001)

De facto, parece que os conteúdos do trabalho têm, também, uma influência significativa na dificuldade em "fazer grandes esforços físicos, permanecer muito

114 uai,

tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis". Ou seja, os trabalhadores que realizam um trabalho "não muito variado" têm uma probabilidade duas vezes superior (OR=2.4; p=.012) em relatarem esta dificuldade, que é agravada (OR=2.7; p=.009) quando não têm de todo um trabalho variado, o que parece induzir dificuldades acrescidas no trabalho, especialmente sentidas pelas mulheres.

A "escolha dos momentos de pausa" parece ter, igualmente, um peso significativo, traduzido por uma maior probabilidade (OR=3.6; p=.015) de queixas ao nível desta dificuldade, o que significa que as dificuldades em "fazer grandes esforços físicos, permanecer muito tempo de pé, adoptar ou manter posições desconfortáveis" poderão estar relacionadas com uma organização do trabalho bastante rígida que impossibilita a ausência, ainda que breve, do seu posto de trabalho, dificuldade igualmente, mais sentida pelas mulheres.

Estes dados chamam a atenção para a influência que determinadas características de trabalho, menos visíveis e mais silenciosas, podem ter na determinação e avaliação das dificuldades e queixas sentidas no trabalho, aparentemente relacionadas com os aspectos mais físicos dos constrangimentos do trabalho, mas que poderão, também, influenciar o estado de saúde.

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