No dia 6 de novembro de 2019, nós nos reunimos no Colégio Diocesano, na sala de informática, para organizar a paginação em uma matriz-dado utilizando os perfis que fizemos na Praça da Matriz. Essa matriz constitui-se na representação bidimensional de um dado aberto, sendo que cada lado do dado representa uma página onde deveria ser montado o conteúdo produzido na ação do dia 23 de outubro, portanto pode-se dizer que uma matriz-dado é composta de várias páginas-lado. Uma matriz-dado, depois de montada, ou seja, feita a sua paginação, pode ser recortada, colada e, assim, transformada em um zine tridimensional em formato de dado, cujos lados não apresentariam apenas números, mas perfis limoeirenses.
Figura 90 — Representação do modelo da matriz-dado Matriz-dado em branco
Fonte: Acervo pessoal.
O formato de dado para a matriz não é uma decisão arbitrária, já que decidi propor para o grupo Grupo de Criação e Artes um jogo de dados durante a montagem da matriz-
dado. O que está por trás desta lógica de organização dos conteúdos em uma matriz é a experiência na disciplina-jogo, ou Arte e Processo de Criação: Poéticas Contemporâneas, ofertada pelo Mestrado Artes da UFC, ministrada pelos professores João Vilnei de Oliveira Filho e Antonio Wellington de Oliveira Junior, em 2018.2. Aqui, faço uma explicação do funcionamento do nosso jogo e apresento as regras que adotamos.
Tanto no contexto da disciplina-jogo como no momento de montagem da matriz- dado, é essencial ressaltar a importância de duas obras que nos ajudaram a fundamentar a ideia de jogo como metodologia. O primeiro deles, “Homo Ludens”, escrito em 1938 por Johan Huizinga, em que identificamos, além do próprio conceito de jogo, os entrelaçamentos entre esta atividade e a própria cultura, em seus mais diversos âmbitos. Huizinga define jogo da seguinte forma:
Sob o ponto de vista da forma, pode resumidamente, definir-se jogo como uma acção livre, vivida como fictícia e situada para além da vida corrente, capaz, contudo, de absorver completamente o jogador, uma acção destituída de qualquer interesse material e de toda e qualquer utilidade, que se realiza num tempo e espaço circunscritos, decorrendo ordenadamente e segundo regras dadas e suscitando relações grupais que ora se rodeiam propositadamente de mistério acentuam pela dissimulação, a sua estranheza em relação ao mundo habitual.(HUIZINGA, 1999, p. 57-58)
Aos poucos, à medida em que travávamos diálogo, foi-se definindo como seria o jogo que jogaríamos e as regras que iriam se estabelecer. De acordo com Huizinga (1999), uma das características do jogo é ser uma atividade livre, ou seja, o jogador participa do jogo porque assim deseja. Do contrário, se o fizesse por obrigação, o jogo perderia sua natureza como atividade lúdica e divertida que pretende ser. Enquanto a disciplina trazia o jogo como metodologia para a aula, eu havia trazido o jogo para o Grupo de Criação e Artes como uma metodologia da montagem, nesse caso, em especial, montagem da matriz para zines.
A motivação para trazer não qualquer jogo, mas o jogo de dados para a lógica de montagem da nossa matriz-dado, não reside apenas na disciplina mencionada. Olhando para os perfis desenhados na Praça da Matriz, percebi que o número seis se repetia: seis membros do Grupo de Criação e Artes estavam presentes (Ícaro, Lívia, Pedro Cauê, Renato, Tamires e Thiago Henrique), seis pessoas da cidade que participaram da nossa ação (Luciano, José Erivan, André, Albertina, Áurea Sofia e Gabriela). Como ninguém foi embora mais cedo e todos os membros participaram de todas as seis sessões de desenho, foram feitos 36 desenhos ao todo, um múltiplo de seis. Embora exista uma
variedade muito grande de dados, pensei nesse jogo usando um dado de seis faces, em que se monta uma matriz-dado também de seis lados-página.
Figura 91 — Regras do jogo utilizando uma matriz-dado
Fonte: Acervo pessoal.
No dia 6 de novembro, cada um fez a montagem da sua matriz-dado, seguindo as regras do jogo estabelecidas. Foi um momento não somente de prestar atenção com mais calma nos desenhos que os demais colegas fizeram no dia da ação na Praça da Matriz, mas também de experimentar uma forma diferente de montar a matriz de um zine. Por imaginar tediosa a tarefa de descrever cada uma das jogadas feitas pelos integrantes do Grupo de Criação e Artes, apresento abaixo o preenchimento de um dos lados-página, que serve como exemplo para os demais, levando-se em conta o resultado pressuposto do lance de dados. Em seguida, por meio da experiência, busco a interação do leitor com esta atividade de paginação da matriz.
Figura 92 — Simulação de jogo para montagem de matriz-dado
Fonte: Acervo pessoal.
Ofereço ao leitor, neste trabalho, a oportunidade de montar uma matriz-dado utilizando os perfis que fizemos na Praça da Matriz. Dentro da mala onde o texto está, como uma parte do seu conteúdo, está uma matriz-dado em branco, um lápis, um tubo de cola branca, um dado de seis faces e seis envelopes numerados e nomeados (1.Luciano; 2. José Erivan; 3. André; 4. Albertina; 5. Áurea Sofia; 6. Gabriela) — dentro deles estão os desenhos dos perfis limoeirenses. O lápis deve ser utilizado para numerar os lados. O dado deve ser utilizado para fazer as jogadas para montagem dos lados. Na primeira jogada, um dos seis envelopes deve ser tomado à mão; na segunda jogada o envelope deve ser aberto e um dos seis desenhos deve ser separado. Com a cola, o jogador deverá iniciar a montagem da sua matriz-dado. Existe aí um conjunto de regras e uma sequencia de ações que se pode estabelecer e que conduzem a atividade de montagem e um modo geral.
O jogo como uma atividade regulamentada é um dos aspectos tratados por Caillois (1990) em sua obra “Os Jogos e os Homens”, a segunda que trazemos para a discussão. Nesta obra, o autor afirma que o jogo possui um conjunto de princípios e regras a serem seguidas de forma voluntária por todos para que nenhum dos jogadores
tenha vantagem ou prejuízo, vindo a constituir um meio autônomo (CAILLOIS, 1990, p. 15). No caso do momento de criação do dia 6 de novembro, tivemos que estabelecer regras para a sequência de jogadas: quem jogaria primeiro, quem jogaria depois e, assim, sucessivamente. Outro aspecto importante é que os números do dado indicavam perfis, mas, se a lógica número-perfil fosse quebrada, o jogo não funcionaria como metodologia da montagem como deveria. Sobre as regras, o autor discorre quanto a sua representação para o espírito do jogo em si:
Constitui um ilhéu de claridade e de perfeição, ainda que seja sempre ínfimo e precário, revogável e auto-exequível. Mas esta duração fugaz, e essa extensão rara, que deixam de fora as coisas importantes, valem, pelo menos, como modelo. (CAILLOIS, 1990, p. 15)
Se porventura o leitor tomar à mão um envelope, tirar de dentro as versões do mesmo perfil que ele guarda e tiver uma imensa dúvida sobre a autoria de um dos desenhos, aconselho-o a sondar as páginas anteriores. Durante a descrição da ação feita na Praça da Matriz, cada sessão de desenho vem acompanhada dos resultados produzidos pelo grupo nos respectivos três minutos. Portanto, caso seja do agrado do leitor experimentar fazer a montagem de uma matriz-dado, não deve ser uma atividade isolada do texto que aqui se segue. Ou seja, o texto deve ser consultado, uma vez que ele esclarece os arquivos utilizados no próprio jogo.