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Structure de base et fonctionnement

2. Les analyses quantitatives

2.1 Les modèles du marché du sucre

2.2.1 Structure de base et fonctionnement

“Nenhum sistema se sustenta se não estrutura um corpo de ideias que o justifique e o viabilize social e politicamente.” (Edmilson Costa)

A Chapada do Apodi vivencia um momento econômico caracterizado pela expansão do capital para o aproveitamento das terras produtivas e da água abundante da região. Como mencionado na introdução do presente escrito, um processo que teve início nos territórios chapadenses cearenses e que demonstra uma dilatação para os espaços norte-rio- grandenses. Tal expansão do sistema capitalista acontece no campo na perspectiva do

agrobusiness (agronegócio), ou seja, uma agricultura capitalista, competitiva, empresarial,

provedora de divisas e subordinadora dos proprietários da força de trabalho (agricultores familiares e pessoas das comunidades nas quais se instalam) aos proprietários dos meios de produção (capitalistas) (MARX, 2006). Trata-se de um processo que acompanha o fenômeno denominado Revolução Verde – iniciada nos países desenvolvidos, mas que, como todo fenômeno capitalista, buscou vias de expansão nos territórios dos países em desenvolvimento para sustentar o sistema do capital.

Ainda nos países em desenvolvimento, a partir dos anos 1980, a revolução verde, uma variante da revolução agrícola contemporânea desprovida de motorização- mecanização, desenvolveu-se muito mais amplamente. Baseada na seleção de variedades com bom rendimento potencial de arroz, milho, trigo, soja e de outras grandes culturas de exportação, baseada também numa ampla utilização de fertilizantes químicos, dos produtos de tratamento e, eventualmente, em um eficaz controle da água de irrigação e da drenagem, a revolução verde foi adotada pelos agricultores que eram capazes de adquirir esses novos meios de produção e nas regiões favorecidas, onde era possível rentabilizá-los. Ressaltamos que em muitos países, os poderes públicos favoreceram intensamente a difusão dessa revolução comandando políticas de incentivo aos preços agrícolas, de subvenções aos insumos, de bonificação dos juros de empréstimo e de investimentos em infra-estruturas de irrigação, drenagem e transporte. (MAZOYER; ROUDART, 2010, p. 28-29).

Em uma avaliação mais crítica, Mészáros (2004) contempla a Revolução Verde como uma estratégia do capitalismo global para estimular o rumo do Terceiro Mundo em direção aos padrões de alto consumo de massa norte-americanos, o que demandaria a superação do subdesenvolvimento e a convergência dos países do Sul aos valores pregados pelo “Norte democrático” através de um processo de modernização. Ou seja, em um contexto

de inúmeras revoluções globais (gerencial; keynesiana; tecnológica; científica; segunda industrial e, para alguns autores, até a terceira; da informática) emergentes nos países desenvolvidos, a partir da década de 1930, agendou-se para o Sul subdesenvolvido a Revolução Verde. “A ‘única’ coisa cuidadosamente excluída da série legítima das revoluções foi, é claro, a transformação revolucionária das relações sociais dominantes de produção e distribuição.” (MÉSZÁROS, 2004, p. 137).

Aqueles que pintam o quadro fantasioso da ‘sociedade pós-industrial’ não percebem

(ou não dizem) que a cínica política de transferência das ‘indústrias poluentes’ para

o ‘Terceiro Mundo’ não torna o sistema global de produção capitalista nem um

pouco menos industrial. [...] Tais ‘transferências de tecnologias’ só removem as práticas produtivas mais odiosas, juntamente com suas consequências altamente

poluentes, dos ‘países capitalistas avançados’, depositando-as, frequentemente sob o pretexto de ‘auxílio desenvolvimento’, na soleira dos países dependentes.

(MÉSZÁROS, 2004, p. 138).

A Revolução Verde dissemina uma modernização do campo a partir da mecanização-motorização, bem como do estabelecimento de agroempresas (em geral, multinacionais) produtoras de commodities, através da modalidade de cultivo de monoculturas, com amplo financiamento público e concessões (de terras, de água, de recursos naturais) estatais, além do uso expansivo de agrotóxicos como condição sine qua non para a produção agrícola nessas empresas e por parte dos fornecedores (pequenos produtores) do agronegócio. Além disso, a Revolução se configura na exploração de mão de obra barata e na transferência de indústrias poluentes das sociedades da abundância17 (desenvolvidas) para os países periféricos, com o pretexto de inclusão destes no cenário globalizado de modernidade.

A partir da globalização, o sistema capitalista generalizou a produção internacionalizada, mediante a criação de centenas de milhares de filiais pelo mundo afora e transformou o planeta numa esfera única de investimento, realização e acumulação de capital. Ao produzir internacionalmente, o grande capital passou a ter a possibilidade de se utilizar das melhores disponibilidades dos países, quer em termos de mão-de-obra, quer em termos de matérias primas, facilidades fiscais e creditícias, além da precarização do trabalho, o que lhe permitiu recuperar as taxas de lucro e reconfigurar o sistema produtivo mundial. (COSTA, 2008, p. 24).

Desse modo, a Revolução Verde, como parte do processo de expansão do capital, insere-se em um contexto de globalização, que pode ser definido por Costa (2008) da seguinte forma:

17 Mészáros (2004) discute um quesito interessante sobre a sociedade da abundância: o modelo capitalista tenta projetar o discurso de que está atuando, para que exista no mundo uma sociedade de abundância, que possui ilhas de pobreza. Porém Mészáros (2004) reflete que, da forma como o modelo se configura, ocorre, certamente, o inverso, ou seja, ilhas de abundância em uma sociedade de pobreza. Como ele afirma, as ilhas são a sociedade de abundância.

A globalização é um fenômeno do nosso tempo, uma singularidade originária do capitalismo que foi construído a partir da segunda metade do século 20, quando as corporações iniciaram a aventura da internacionalização da produção. [...] A globalização também representa uma fase nova do capitalismo, período em que este modo de produção atingiu plenamente seu amadurecimento e se transformou num

‘sistema mundial completo’. Até o período anterior à globalização, o capitalismo era

completo apenas em relação a duas variáveis da órbita da circulação – o comércio mundial e a exportação de capitais. Mas, ao expandir a mundialização para as esferas produtiva e financeira, bem como para os outros setores da vida social, o sistema unificou globalmente o ciclo do capital, fechando assim um processo iniciado com a Revolução Inglesa de 1640. (COSTA, 2008, p. 20-22).

A globalização encontra-se em curso em praticamente todas as regiões da terra e vem produzindo uma série de mutações na vida social da humanidade que estão “impactando fortemente a política mundial, a economia, o mundo do trabalho e as tradições culturais em todas as partes do planeta, quer influenciadas pelos meios de comunicação, quer pelo poder econômico-financeiro das grandes corporações internacionais” (COSTA, 2008, p. 11). Um fenômeno expansionista que modificou a conjuntura de comunidades, já comentadas, no Baixo-Jaguaribe/CE e que se apresenta para as comunidades de agricultores familiares de Apodi/RN. Um desenvolvimentismo abraçado pelo Estado (como exposto na introdução desta pesquisa) que se mostra mínimo, desregulado, protetor dos mercados competitivos, e instrumento de garantia da propriedade e dos contratos privados.

Isso ocorre, pois o modelo capitalista impulsionador desse processo de globalização compreende ações que deveriam ser típicas do Estado (estabelecer regras e normas que regulam, distribuem e condensam a ordem social) como burocráticas e limitadoras do desenvolvimento e, com isso, visionou eliminar a legitimidade e a noção do Estado nacional, principalmente, as possibilidades de soberania econômica e cultural. “As regras de livre mercado, especialmente o livre movimento do capital financeiro, foram progressivamente eliminando – ou tentando eliminar – o controle político dos Estados nacionais sobre a economia mundial” (SAUER, 2010, p. 143). Tudo para atender as exigências de uma burguesia neoliberal acumuladora de capitais. Assim,

No que se refere à política propriamente dita, o neoliberalismo não tem nenhum escrúpulo. Desde que o governante cumpra os objetivos do capital financeiro especulativo dos países centrais, esses dirigentes, por mais corruptos e desmoralizados que sejam, são tolerados e seus governos defendidos em fóruns internacionais e na mídia. [...] O dirigente que não se enquadrar na nova ordem é satanizado, desmoralizado internacionalmente e, na maioria das vezes, destituído do poder – pelas armas, pelo poder econômico, ou pelo poder manipulatório dos meios de comunicação. O neoliberalismo busca também desmantelar o mais rapidamente tudo o que foi construído no período anterior à globalização. (COSTA, 2008, p. 14).

Desmantelar, inclusive, a agricultura familiar, que carrega consigo, como já mencionado, toda uma construção milenar e, portanto, tem gênese anterior à globalização. Isso acontece quando adentra no território camponês a modernização advinda dessa Revolução Verde, que tenta transformar o campo – antes, espaço de construção cultural e criativa do trabalho; antes, local de morada dos camponeses; antes, espaço de simbiose com o meio ambiente; antes, local de herança de gerações; antes, local de retirada do sustento de famílias inteiras; antes, campos de policulturas – em espaços destinados à instalação de indústrias sustentadas na des-re-territorialização (com a destruição de territórios); no trabalho assalariado; na extração de recursos, produção de commodities e acumulação de riquezas a partir do que Marx (2006) denomina trabalho não pago ou mais trabalho; no emprego, com alienação das atividades laborais; na transformação de dinheiro em capital; na produção para exportação; no uso de máquinas, em detrimento do homem, agrotóxicos e transgênicos; na degradação ambiental e cultural dos territórios.

Este processo civilizatório capitalista abarca todas as esferas da vida em sociedade, integrando, modernizando e mesmo diluindo o mundo agrário. Este perde as suas características (inclusive sua base econômica passa a ser de atividades não agrícolas) deixando de ser o lugar de manutenção da reprodução de valores tidos como tradicionais, a exemplo do comunitarismo e do familiarismo. (SAUER, 2010, p. 27, grifo do autor).

Ou seja, a transformação da agricultura em indústria, justificada pela falácia da modernização do campo sucede em virtude da chegada do capitalismo nos territórios camponeses sob a forma do agronegócio, como ferramenta de industrialização da agricultura. São transformações socioculturais velozes, decorrentes da já citada tendência de internacionalização na modernidade, que acarretam inovações tecnológicas destruidoras e reconstrutoras de territórios. Tal velocidade da modernização do campo (sem levar em conta seus aspectos sociais e históricos), para atender as tendências atuais globais, pode acarretar um processo despojado de si mesmo, alienado e possível de advento de uma ditadura do movimento (HAESBAERT, 2009).

Se ser moderno é ‘estar de acordo com sua época’ como o senso comum legitimou, também é, como indica a própria raiz do termo, ‘estar na moda’, acompanhar o

momento. Mas viver o presente ignorando o passado é modismo, é seguir

constantemente na ‘crista da onda’ que marca o presente, é não se fixar/se enraizar em objetos e ideias, é mutação/‘derreterritorialização’ permanente, velocidade que

não pára, só passa – rede/fluxo que pensa a mudança como simples mobilidade, pois mutação que se dá todo tempo acaba se tornando um mudar por mudar, sem atingir mais que a superfície dos fatos. [...] A modernidade, e especialmente a modernidade contemporânea [...] vê na mutação técnica a (ilusão) da mudança real, efetiva. (HAESBAERT, 2009, p. 57, grifo do autor).

Ao passo que a globalização e a Revolução Verde abarcam conotações de modernização, impondo mudanças nos territórios camponeses (ditadura do movimento) para convergir com os padrões desenvolvidos de produção agrícola (ou para a exploração desses espaços como locais onde o capitalismo pode se expandir – já que não cabe mais em si nos países desenvolvidos) – acaba trazendo à tona a superficialidade desse campo, invisibilizando as profundidades dos territórios e suas conformações históricas. Desse modo, o modelo do capital invisibiliza o real, o campo que já existe e o aborda como um passado atrasado e transferido ao plano das saudades.

O que permanece é o bucólico, a nostalgia da natureza, a utopia da comunidade agrária, tribal, indígena, passada, pretérita, remota, imaginária. [...] A própria cultura de massa, agilizada pela indústria cultural, retrabalha continuamente a nostalgia da utopia bucólica. Tanto pasteuriza como canibaliza elementos presentes e pretéritos, reais e imaginários do mundo agrário. Reinventa o campo, country, campagna, champ, sertão, deserto, serra, montanha, rio, lago, verde, ecologia, meio ambiente e outras formulações, aparecidas no imaginário de muitos como sucedâneos da utopia do paraíso. (IANNI, 1997 apud SAUER, 2010, p. 27-28).

Tal valorização do superficial (em detrimento das profundidades do trabalho, do ambiente, da vida das pessoas das comunidades chapadenses de Apodi/RN) pode ser percebida no contexto da Chapada, quando, na citada reunião entre o DNOCS, os agricultores familiares, os representantes da academia e os gestores apodienses, estes últimos defenderam a projeção do Perímetro Irrigado Santa Cruz, afirmando que, na Chapada, só tinha pedra. Certamente que a Chapada é provida de rochas, o que demonstra uma riqueza local – a mineral -, porém sem deixar de lembrar outras abastanças (ambientais, culturais, históricas) incomensuráveis na região, que serão expostas nas falas dos sujeitos da presente pesquisa.

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