Ela inverte a lógica social ao transformar o que está por vir em imediato, prático, presente, empírico, particular.
Dentro dessa idéia que se pode dizer que o pensamento positivista é a reposição da ideologia, pois ao converter o universal em particular, retira as possibilidades de um pensamento livre e autônomo e transforma o futuro num presente eternizado. O positivismo retira do passado a possibilidade de compreender o presente, uma vez que o passado serve apenas como consulta e não como substância do presente.
Essa rejeição do passado é contrária àquilo que garante a dialética. Marx (2003, p.15) já havia dito que a tradição de todas as gerações mortas oprime o cérebro dos vivos como um pesadelo . Isso significa dizer que o passado não passa, mas se constitui ou se atualiza no presente, nas relações humanas e sociais do momento. A crítica frankfurtiana é pertinente, pois indica que a racionalidade instrumental retira o passado, justamente aquilo que persevera na nossa constituição social.
A lógica que infringe sua dominação é a mesma que repete o real sem mais se endiabrar com o desconhecido. O factual tem a última palavra, o conhecimento restringe-se à sua repetição, o pensamento transforma-se na mera tautologia. Quanto mais a maquinaria do pensamento subjuga o que existe, tanto mais cegamente ela se contenta com essa reprodução (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.39). Isso é o que justifica a eternização do social, a presentificação do tempo. Sem movimento, este é petrificado numa lógica que não reconhece a historicidade do real.
A presentificação do tempo é um tema contemporâneo e o vemos atualmente, por exemplo, na Internet que fica 24 horas no ar, nas emissoras de rádio e TV. Ou seja, o mundo da eletrônica trouxe, do ponto de vista da cultura, a liberdade de viver eternamente o presente. Não há problema em viver o presente. O que há problema é esquecer o passado, e não mais temer o futuro. Isso é o que tem ocorrido atualmente onde o sujeito narcísico vive as relações apenas pelo desejo imediato (LASCH, 1985) Quando os homens se vêem incapazes de se interessar pela vida terrena após sua própria morte, desejam eles a eterna juventude, pela mesma razão por que não mais cuidam de se reproduzir (LASCH, 1983, p. 255).
Lasch (1983) critica o progresso tecnológico e cultural que transforma o indivíduo num sujeito que deixa de se interessar pela criação dos filhos, família e amizade. Torna-se um sujeito compulsivo que submete à tradição e à modernização (BENJAMIN, 1994).
A perda do sentido da história, promulgada pela racionalidade instrumental, subjuga o homem à lógica do progresso. Quanto mais o processo da autoconservação é assegurado pela divisão burguesa do trabalho, tanto mais ele força a auto-alienação dos indivíduos, que têm que se formar no corpo e na alma segundo a aparelhagem técnica (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.41).
Também Marcuse salienta algumas críticas ao progresso tecnológico. Segundo ele, a tecnologia, através da racionalidade técnica (chamada por ele de racionalidade tecnológica), serve mais para oprimir do que para libertar o homem.
Ele foi enfático quanto ao poder de fogo das tecnologias na sociedade. Nesse sentido, Marcuse pode ser tido como um autor que pensou o papel das tecnologias na sociedade e contribuiu com idéias que ainda hoje prevalecem no contexto da chamada sociedade tecnológica (MORAES; SANTOS, 2003b; TRIVINHO, 2000, 2003), terminologia adotada por ele para caracterizar a sociedade moderna.
Das diversas contribuições de Marcuse para a discussão da sociedade atual, certamente, suas críticas àquilo por ele denominado de racionalidade tecnológica são das mais atuais. A noção de Ideologia da Racionalidade Tecnológica está no centro do debate realizado por Marcuse. Segundo Crochik (1998), a racionalidade tecnológica, tal qual pensada pelo frankfurtiano, identifica o fato ao conceito, entre verdade e verdade estabelecida, existência e essência, entre coisa e função.
Crochik (1998) salienta que Marcuse considera que o sistema capitalista paralisou a dialética, pois retira a possibilidade de negação das forças que permitem sua superação através da não mais existência de crítica do proletariado, o real torna-se unidimensional, totalitário, sustando a sua transformação (CROCHIK, 1998, p.47).
Para Marcuse (1999a), a tecnologia é parte do processo de produção. É a sua ideologia e como tal controla e domina os indivíduos. É importante situar que a sociedade industrial deve ser vista em sua amplitude, não se podendo isolar os objetos técnicos construídos e criados pela sociedade atual; ao contrário, devem ser observados no contexto de produção do mundo capitalista que lhe injeta força para reproduzir o sistema. Nesse panorama, enxerga-se o aparato tecnológico e a conseqüente racionalidade tecnológica.
A noção de sociedade tecnológica, defendida por Marcuse, não pode ser identificada pura e simplesmente às tecnologias. Mas, ao contrário, se reproduz nas relações sociais como um todo
a sociedade tecnológica é um sistema de dominação que já opera no conceito e na elaboração das técnicas (MARCUSE, 1973, p.19). A racionalidade tecnológica se tornou, antes de tudo, uma racionalidade política (MARCUSE, 1973).
Uma questão essencialmente educacional, fruto da racionalidade técnica, é a tendência à matematização do pensamento, coisa, aliás, que deve ser criticada pois a inserção do computador na escola, se não for adequadamente utilizada, pode servir para incrementar mais ainda a formalização do pensamento. Para Horkheimer (1983), também as próprias operações lógicas já estão racionalizadas a tal ponto que, pelo menos em grande parte da ciência natural, a formação de teorias tornou-se construção matemática (HORKHEIMER, 1983, p.120/121).
Três conclusões devem ser esclarecidas.
Primeiro, sobre a relação informática, tecnologia e sociedade, vale dizer dois aspectos. A tecnologia deve ser vista a partir de sua materialidade e função simbólica ou ideológica. Isto é, a partir da infra-estrutura e super-estrutura. Além disso, a análise da tecnologia passa pelo entendimento lógico e histórico. Nesse contexto, o trabalho é uma categoria essencial que serve de base para análise da tecnologia na sociedade.
Segundo: vivemos a plenitude das transformações modernas, embora o discurso pós- moderno tem cada vez mais se tornado amplo principalmente na Universidade. O que justifica a modernidade é a centralidade do trabalho mesmo com suas transformações sociais e econômicas e a valorização da categoria particularidade (histórica) em detrimento da universalidade (geral). Novamente, a história é essencial para situar a permanência no mundo moderno.
Terceiro: embora a pós-modernidade teça críticas à racionalidade positivista, o pensamento moderno, sobretudo a partir da tradição marxista (ANDERSON, 1989)46, em especial a Escola de Frankfurt fez de maneira mais central esse posicionamento. A escolha dessa concepção teórica se faz nesse sentido.
Os frankfurtianos argumentaram que a razão positivista impregna as demais relações sociais. Nesse caso, a tecnologia desempenha o papel ideológico de difusão da matematização do pensamento através da aparelhagem técnica.
46 Anderson (1989) sinaliza que um conjunto de autores fazem parte da tradição marxista, embora tenhamos
escolhido a Escola de Frankfurt por ter sido uma geração importante de intelectuais na crítica ao pensamento positivista.
As implicações dessas conclusões para o campo da educação são variadas, sobretudo com a entrada da informática nas escolas e da própria formação dos professores para uso das tecnologias educacionais em geral e da informática na educação, em particular.