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A integração da literatura infantil nas aulas de Matemática representa um grande desafio para o professor, pois isso depende da sua capacidade de manter a integridade de ambas as áreas curriculares, ou seja, no caso da Matemática, de o professor ser capaz de se concentrar na abordagem matemática de um determinado conceito sem que os alunos percam o gozo pela história (Perger, 2011). Para a autora, esta capacidade parece depender, em grande parte, da habilidade leitora do leitor (neste contexto, o professor), de conseguir cativar e manter a atenção dos ouvintes (os alunos), e na medida em que a Matemática pode ser identificada nas histórias. Para Passos e Oliveira (2004), depende do professor que ensina Matemática “a formação de alunos leitores, possibilitando a autonomia de pensamento e também o estabelecimento de relações e inferências, com as quais o aluno pode fazer conjecturas, expor e contrapor pontos de vista”. (p. 2)

Como pode o professor inserir a literatura infantil nas suas aulas quando ensina Matemática? Rodrigues (2008), apoiando-se em Welchman-Tischler (1992), procura responder a esta questão, propondo a seguinte classificação dos modos de usar as histórias infantis para a aprendizagem da Matemática:

(i) para fornecer o contexto ou modelo para uma atividade com conteúdos matemáticos;

33 (ii) para introduzir materiais manipuláveis que serão usados de

diversas formas;

(iii) para inspirar experiências criativas com Matemática; (iv) para propor um problema interessante;

(v) para preparar um conceito ou uma competência matemática; (vi) para explicar um conceito ou competência matemática; e (vii) para rever um conceito ou competência matemática.

Assim, usando os livros infantis, os professores poderão imprimir no ensino um maior dinamismo. Ao introduzirem um tema matemático naturalmente, permitem ao aluno a interpretação, a compreensão de conceitos e provocam reflexões relacionadas com a Matemática, através do questionamento ao longo da leitura, em simultâneo, o aluno envolve-se com a história. (Moreira, 2005) dá o exemplo da utilização da história “Os Três Porquinhos” para alunos que ainda revelem insegurança em relação ao número, através da leitura que pode vir acompanhada de indagações do tipo: Quem chegou primeiro, o lobo ou os três porquinhos? Qual foi a última casa a ser derrubada pelo sopro do lobo? O professor ao usar livros de literatura infantil, na aula de Matemática, não deve dar excessiva ênfase aos conceitos matemáticos, de forma a não distorcer e artificializar o enredo da história. Da mesma forma há que ter presente que Matemática e Português, nos anos iniciais, como no 1.º ciclo, se aprendem em simultâneo e não uma disciplina primeiro que a outra. Neste sentido, de um ensino ativo e dinâmico, de envolvimento e questionamento constantes, Carvalho (2005), sublinha que numa parceria entre literatura e Matemática, o trabalho terá de ser desenvolvido num panorama de criatividade, de curiosidade, para a crítica e questionamento permanentes, contribuindo para a formação de um cidadão na sua plenitude.

No trabalho de sala de aula é importante que o professor escolha boas peças de literatura infantil para partilhar com os alunos (com valor literário), mas também de maneira a ajudar os alunos a estabelecer conexões com as suas próprias vidas e com outras áreas curriculares (com valor matemático). Esta ligação que o professor promove com a realidade e com outras disciplinas

34 dá aos alunos um maior domínio da Matemática, pois quando a Matemática parte de situações problemáticas que têm significado para as crianças, isso ajuda-as na aquisição dos seus conhecimentos (Hyde 2006; NTCM, 2000; Price 2009).

O desenvolvimento de materiais para a aula de Matemática que tiram partido da literatura infantil tem tradição em alguns países como os Estados Unidos onde, professores das escolas e investigadores trabalham em conjunto. Evans, Leija e Falkner (2001) dão conta de uma destas iniciativas em que o grupo de professores e investigadores fizeram uma seleção de histórias infantis, escolhendo aquelas em que a trama possuía desde logo questões matemáticas e construíram uma bateria de tarefas matemáticas. Este trabalho foi muito apreciado pelo grupo de professores da escola, pois ficaram com um conjunto de histórias infantis passíveis de serem usados num trabalho de interdisciplinaridade entre Matemática e língua materna.

O projeto Quantile, um exemplo de um trabalho desta natureza, apoia os esforços dos professores no trabalho de integração da literatura infantil nas aulas de Matemática, através da disponibilização de livros e respetivos guias, organizados por níveis de ensino, idade, temas matemáticos e palavra-chave.

Para além de todos os desafios inerentes ao uso da literatura infantil nas aulas de Matemática, para o professor dos primeiros anos de escolaridade, há ainda a salientar mais um aspeto bastante importante, a formação. A maioria dos professores não foi formado, nem teve qualquer contato com um ensino que faça a conexão entre literatura infantil e Matemática. Em Portugal, a maioria dos programas de formação inicial e contínua de professores não contempla a utilização da literatura infantil como um instrumento para ensinar e aprender Matemática. A Escola Superior de Educação de Viseu, tem desenvolvido trabalhos nesta área nomeadamente a adaptação de contos populares portugueses onde foram inseridos problemas matemáticos e a dinamização de concursos literários alusivos ao tema, trabalha este tópico numa unidade curricular do curso de Educação Básica, destinado a futuros educadores de infância e professores dos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico.

35 Em suma, os desafios para o professor passam por: (i) perceber como se podem trabalhar, através de histórias de literatura infantil, conceitos matemáticos; (ii) por escolher livros cujas histórias sejam efetivamente “boas histórias” para trabalhar esses conceitos; e (iii) ter formação inicial/contínua que integre esta temática, conectando Matemática e Português, de forma a que, não só se promova a compreensão e valorização dos alunos na leitura e na escrita, mas também se aprofunde a concetualização matemática (Ruiz, 2010).

Avaliação e seleção de literatura infantil para usar em

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