A argumentação está presente em nosso discurso desde criança. Quando queremos conseguir algo de nossos pais, amigos, professores ou nos favorecer diante de determinadas situações, usamos o poder de convencimento para persuadir ou mesmo comover nosso interlocutor, a fim de que ele assuma ou valide os argumentos utilizados para defesa de nosso ponto de vista. Também, pode ser compreendida como uma técnica consciente programada e organizada no discurso. É mediante a argumentação que esperamos obter a adesão, o convencimento, a persuasão por meio do ponto de vista, conquistados através dos argumentos apropriados às teses e organizados no texto. (CABRAL, 2019).
O ser humano é dotado de razão, frequentemente ele julga, avalia, critica, ou seja, constitui seu juízo de valor. Inferimos, assim, que estamos em constante processo de interação social, e esta, por sua vez, é permeada de argumentatividade. É por meio do que se diz (seja na fala ou na escrita) que há a tentativa de influenciar o comportamento do outro ou compartilhar as opiniões, por conseguinte argumentar é um ato linguístico fundamental. Ao tomar consciência da significância da argumentação, torna-se imprescindível conhecer e analisar alguns pressupostos.
Amossy (2018) trata da argumentação pelo viés do discurso. É uma ótica que investe no estudo da argumentação mediante a exploração da forma com a qual a palavra seja oral ou escrita opera sobre o outro, por vezes induzindo-o a uma determinada posição, em outras apontando-lhe a visão geral.
Para a estudiosa, existem gêneros com a intenção persuadir; são aqueles com a visada argumentativa; e discursos que não têm a função de persuasão, porque a argumentação não é vislumbrada como produto de “intenção declarada, muito menos de uma programação: ela não está nem aparente nem explícita, e , as vezes, é até negada pelo locutor” (AMOSSY, 2018, p. 273).
dizer, a nortear o discurso ora involuntário, ora auxiliar como tentativa de discernir sobre o assunto que ele trata. Na visão de Amossy (2018), tal percepção é uma ampliação da argumentação, uma vez que a pretensão é entender como ela se desempenha por intermédio dos dispositivos discursivos.
A autora ainda explica que a “noção de dimensão argumentativa estendida aos conjuntos do discurso permite explorar os múltiplos procedimentos aos quais pode recorrer a empreitada persuasiva” (AMOSSY, 2018, p. 275). E que os dispositivos argumentativos podem ser analisados com o fim em si mesmos (dimensão argumentativa), ou como mecanismos analíticos de textos concretos (visada argumentativa).
Acrescentando informações à dimensão argumentativa, apresentamos a ótica de Casseb-Galvão e Duarte (2018) sobre o ato de argumentar
Argumentar é inerente à condição humana, prática de linguagem indispensável à vida em sociedade, necessária para selecionar ou contornar conflitos e controvérsias cotidianas de diferentes naturezas. Significa integrar-se ao universo do outro, de modo cooperativo e construtivo, estabelecendo uma estrutura dialógica, ainda que o interlocutor não esteja efetivamente presente, tal como acontece nos discursos escritos. (CASSEB-GALVÃO; DUARTE, 2018, p. 40).
Para as autoras, no ato de argumentar há interação da tese a ser defendida, que é a parte racional do discurso, com a construção da autoimagem do locutor e a interpretação das informações pragmáticas acerca do seu interlocutor. As autoras ainda acentuam que a argumentatividade é dinâmica, não tem obrigação necessária com a verdade categórica ou com argumentos estritamente literais, “crenças, paixões e racionalidade se complementam no exercício persuasivo.” (CASSEB-GALVÃO; DUARTE, 2018, p. 42).
Em contrapartida, Koch (2011, p. 17) afirma que “o ato de argumentar, isto é, orientar o discurso no sentido de determinadas conclusões, constitui o ato linguístico fundamental, pois todo e qualquer discurso subjaz uma ideologia, na acepção mais ampla do termo.” Ainda conferindo validade à ideia, Koch e Elias (2017 a, p. 23) reconhecem que o uso da linguagem se concretiza por meio de textos e, como os textos são produtos de interação, de vontades e conhecimentos, presume-se que argumentar é inerente ao ser humano.
As autoras explicam que Charaudeau (2008) orienta que argumentar é uma atividade de persuasão do interlocutor por meio dos argumentos e estes requerem apresentação, organização de ideias, assim como estruturação da defesa ou ponto de vista. O linguista francês sugere que na argumentação se faz necessário: um argumento que incite um questionamento quanto a sua veracidade; um interlocutor que amplie o raciocínio com perspectiva de aceitação ou legitimação do argumento; outro interlocutor que se configure
como centro de argumentação.
Portanto, para endossar os pressupostos de Charaudeau, Koch e Elias (2017 a) definem argumentação como
o resultado textual de uma combinação entre diferentes componentes que exige do sujeito que argumentar constitui, de um ponto de vista racional, uma explicação, recorrendo a experiências individuais e sociais num quadro espacial e temporal de uma situação de finalidade persuasiva.(KOCH; ELIAS, 2017 a, p. 24)
Assim, a argumentação se apresenta como uma estratégia linguística que viabiliza perceber posições enunciativas de avaliação mobilizadas na construção e modificação de objetos de discurso. Frente a essa concepção, podemos considerar a narração ou a descrição com uma representação da argumentatividade que, no cotidiano, concebemos como práticas argumentativas para contornar o outro e retirar dele o que queremos, ou mesmo justificar o argumento que lhe impomos.
A argumentação também tem valor manipulador na narrativa ou valor de sanção quando se estabelece ou não a verdade do enunciado. Portanto, os procedimentos argumentativos possibilitam uma percepção como organizações discursivas. De acordo com Fiorin (2018, p. 19), “os argumentos são raciocínios que se destinam a persuadir, isto é, convencer ou comover, ambos meios igualmente válidos de levar a aceitar uma determinada tese.”
Conhecendo as facetas que a argumentatividade pode apresentar, através da dimensão argumentativa, é relevante mencionar que, segundo Elias (2016), a argumentação precisa de intencionalidade e aceitabilidade, quer dizer, há construção dos argumentos para influenciar o interlocutor e conseguir o convencimento, mas em contrapartida o interlocutor (centro do processo) é que avalia se os argumentos são capazes de convencer ou não da tese a ele dirigida. Assim, os aspectos da argumentação revelam um direcionamento que nada se assemelha a passividade.
Não é possível que haja estática na argumentação, pois se baseia no diálogo, ou seja, no envolvimento de sujeitos, de suas opiniões e concepções da realidade. Logo nessa interação há uma coexistência de argumentos favoráveis e contrários.
Consideramos válidas todas as acepções dos estudiosos citados, mas entendemos que a opção por uma das vertentes se torna mais profícua para a pesquisa. Assim, acolhemos a ideia de que toda ação linguística implica aspectos argumentativos, os quais, em atos de interação comunicativa, se atualizam como gêneros textuais. É, pois, com base nesses pressupostos que ensejamos realizar um diferencial em sala de aula.
Para contribuir com esse ideal, foi necessário adotar mecanismos planejados a fim de facilitar o processo de aprendizagem, como, por exemplo, o estudo das estratégias argumentativas.
Para fins deste trabalho, as estratégias serão utilizadas para análise do gênero artigo de opinião, que foi escolhido pelos educandos, de acordo com a ação social significativa para eles. Mas antes de explicar e exemplificar o uso das estratégias, torna-se imprescindível caracterizar o gênero em questão.