A divisão do sujeito em partes ( passiones ou divisiones ) torna necessário que Alberto afronte o problema da unidade da ciência metafísica. É exatamente o que ele faz no seu terceiro excurso: “esta digressão esclarece a unidade e como esta ciência é uma” . Alberto recorre então aos múltiplos sentidos do ser e ao artifício da analogia 301 para explicar que a variedade de divisões não implica numa variedade de sujeitos:
Embora esta ciência seja uma, convém que trate sobre muitas coisas, sobre todas aquelas coisas na medida em que são reduzidas ao ser e na medida em que são consequência do ser enquanto ser. Por isso, o ser em todas estas coisas possui unidade de analogia, que não é uma unidade absolutamente equívoca, mas trata sobre várias coisas sob um único ponto de vista, não do modo de uma única razão acerca daquelas coisas, nem também por razão diversa daquelas, como alguns disseram erroneamente; mas, como aquela coisa diversa trata de um só, de certo modo; e esse modo que trata de um só, é diverso entre as coisas diversas. Mas os modos diversos o são dele que é simplesmente único, como o ser é absolutamente substância e alguma qualidade dele; assim, trata sobre aquelas coisas, de modo que o sujeito desta ciência é unido por esta unidade com estas que são as partes dele . 302
301 Et est digressio declarans, qua unitate et qualiter sit haec scientia una (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 59-60).
302 Haec etiam scientia una est, quoniam licet sit de multis, de omnibus tamen illis est, prout reducta sunt in ens ut partes et prout sunt ens consequentia in eo quod est ens. Et ideo ens in omnibus his unitatem habet analogiae, quae unitas non aequivoci omnino, sed est multorum ad unum respicientium, non quidem quod per unam rationem est in illis nec etiam quod per diversam rationem est in eis, sicut quidam male dicunt, sed potius sic, quod illa diversa aliquo modo sunt unius, et ille modus quo sunt unius, est diversus in diversis. Sed quilibet diversorum modorum est eius quod simpliciter unum est, sicut ens simpliciter substantia est et aliquid eiusdem qualitas, et sic de aliis, et hac unitate unitur subiectum huius scientiae cum his quae sunt partes eius (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 61-76).
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Alberto menciona seu conceito de analogia entis que será trabalhado no capítulo segundo desta tese . Convém agora considerar seu argumento acerca da 303 unidade da filosofia primeira. Para isso, ele defende que as divisões do ser estão unidas a ele de modo imediato. São divisões internas de modo que se garante a unidade da ciência . Essas divisões são comprovadas no âmbito da própria ciência e não se 304 conformam como espécies do sujeito nem mesmo como outro gênero de sujeito . 305
Todos aqueles são provados no interior da própria ciência sem mutação de gênero de sujeito, por princípio dele e daquele mesmo estudo; nem a demonstração é mudada de um gênero a outro gênero. Esta é a unidade própria da ciência que é demonstrativa ou doutrinal, pois, desse modo, através do sujeito, o conhecimento dos acidentes internos confere maximamente à ciência a possibilidade de conhecer a essência . As divisões são primeiras e simples como o próprio sujeito, de modo que é a 306 partir destas que se pode trilhar o caminho para estabelecer todas as coisas que são supostas nas outras ciências . Portanto, ela não tem unidade a partir das ciências 307 particulares, pois este modo não seria útil para o estabelecimento dos princípios . 308
Assim Alberto, propõe que a unidade do sujeito da filosofia primeira permite que esta seja dividida em partes imediatas e que são unidas pelo conceito da analogia. Por outro lado, só esta ciência pode garantir sua unidade, pois os princípios dela não derivam de outras ciências. As outras ciências têm sua unidade determinada por esta ciência na medida em que ela determina os sujeitos das demais ciências, mas não é coerente que as outras determinem o da metafísica a fim de que não se caia no 303 Ver subtítulo 2.4.
304 Alia autem unitate unitur ad passiones, et haec est immediatio substandi passionibus, quae insunt et, sicut quaelibet unitur scientia, et tantum extenditur illa unitas, quantum extenditur immediatio subiecti ad quascumque passiones (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 77-81).
305 Omnes enim illae per principia illius et eiusdem scientiae probrantur inesse eidem absque mutatione generis subiecti, nec demonstratio mutatur de genere in genus alterum. Et haec est unitas propria scientiae, secundum quod est demonstrativa vel doctrinalis, quia sic cognitio accidentium inesse subiecto maxime confert ad sciendum quod quid est (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 81-88).
306 Quia autem passiones sunt primae et simplices sicut et ipsum subiectum, ideo ex his viam habet ad stabiliendum omnia quaecumque supponuntur in scientiis aliis (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 88-91). 307 Et ideo non habet unitatem unius particularium scientiarum, quia hoc modo non proficeret ad stabiliendum principia, sicut iam saepius dictum est (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 91-94).
308 Igitur quod ista scientia sit theorica et qualis theorica, amplius autem de quo sit de subiecto et qualiter, adhuc autem quali unitate sit una tam ad partes subiecti quam ad passiones, determinatum sit a nobis hoc modo (Alb., Metaph. , I, 1, 3, p. 5, 95 – p. 6, 3).
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raciocínio circular. Desse modo, Alberto intenta ser coerente ao defender que todas as ciências, com exceção da metafísica, não podem provar seus próprios princípios e todas tem seus primeiros princípios fundamentados pela ciência primeira. Só ela pode garantir sua própria unidade e garantiria a certeza no sistema científico. Ela fundamentaria a cientificidade das ciências que consideram sujeitos mutáveis e materiais e que são observáveis através dos sentidos externos. Se houvesse uma ciència que provasse os princípios da metafísica, esta deixaria de ser a primeira. Então, infere-se das considerações de Alberto o princípio de que uma ciência, a primeira, possuiria princípios evidentes e que são sustentado pela lógica e pela própria ciência.