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La stratégie du vendeur

PARTIE 4 CONTRIBUTIONS

6.3 La stratégie du vendeur

Um fato que permeou a elaboração da narrativa dos sujeitos foi a minha relação médico-paciente com eles. Entrevistei pessoas sobre as quais tenho informações clínicas, sociais e culturais, e com as quais já tive vários contatos prévios tanto por razões afetivas quanto por interesse dos cuidados de saúde delas.

É inerente à relação médico-paciente o acolhimento que se dá, por parte do médico, das demandas afetivas, existenciais, sociais, culturais e clínicas do paciente que o procura. É através desse acolhimento que o paciente estabelece atitudes transferenciais em direção ao médico, o qual responde em postura contratransferencial (TURATO, 2003).

Assim, o paciente pode projetar no médico a representação de um papel que, no seu contexto de relações, caberia ao seu pai, à sua mãe, ao seu inimigo, ao seu patrão, ao seu empregado, ao seu irmão, ao próprio HIV ou a qualquer outro significante que já tenha vivenciado durante a construção da sua personalidade. Essa representação pode ser simbolicamente positiva ou negativa, frustrante ou gratificante, a depender da significação que o paciente dá ao médico no processo do seu encontro com este, e de como seu inconsciente estaria atualizando aquele significante nesta oportunidade.

Conforme argumentou Turato (op. cit.), o médico, por sua vez, poderá responder assumindo ou não essa projeção, devendo, entretanto, usar da habilidade do discernimento para decidir pela melhor resposta contratransferencial que interessa ao acolhimento ideal, objetivando a terapêutica mais eficaz. Mas, ainda segundo esse autor, o médico não faz isso de maneira absolutamente racional, senão sob a impregnação das suas próprias angústias, da sua formação e da sua estrutura de personalidade e existência.

Assim, o perfil dessa relação de transferência-contratransferência varia a depender do padrão das demandas trazidas pelo paciente e suas angústias; da habilidade, possibilidade, necessidade, afetividade e angústias do médico em responder

adequadamente a esse padrão de demandas; e da fase e do perfil de organização existencial do médico e do paciente no momento em que entram em contato um com o outro.

Dessa maneira, tanto da parte do paciente quanto da parte do médico, elementos conscientes, interesses, desejos, defesas e outros processos inconscientes participam da constituição dos mecanismos que definem a relação médico-paciente.

Um pesquisador que tem essa relação previamente estabelecida com o pesquisado, no perfil do acolhimento de uma relação médico-paciente, a incorpora no processo de sua pesquisa.

Assim, o pesquisador-médico tenta, inconscientemente, aprofundar questões de interesse clínico-assistencial durante a entrevista com o seu entrevistado-paciente, mesmo quando esta seja destinada exclusivamente ao interesse da pesquisa, da mesma forma que o entrevistado-paciente faz revelações que jamais seriam feitas fora do contexto de uma relação médico-paciente, durante essa mesma entrevista.

Admito que tal relação tenha influenciado esta pesquisa não só durante as entrevistas, mas, também, quando analisei a fala dos entrevistados.

Portanto, muitos relatos foram negligenciados tanto por mim quanto pelo entrevistado durante a gravação das entrevistas, principalmente através de recursos de linguagem fragmentadores da fala (incompletudes de orações, reticências, referências evasivas ou subjetivas), por já terem sido aprofundados em momentos anteriores durante uma consulta médica. Da mesma forma, demandas clínico-assistenciais reprimidas, a despeito de tentativas anteriores de atendimento frustradas, foram por mim valorizadas no momento da entrevista.

Entretanto, essa ocorrência não enviesou os resultados, e as discussões produzidas. Não houve prejuízos à análise e à interpretação desses recursos de linguagem, uma vez que foram interpretados e analisados à luz da experiência da minha relação médico-paciente com o entrevistado, já que fui eu mesmo que fiz a análise das entrevistas, e com base em um referencial teórico pré-estabelecido. Assim, fragmentos ou colóquios de linguagem do entrevistado, ao serem analisados por mim, foram tratados de uma maneira mais fiel ao que o ele realmente expressou, comparativamente ao que seria possível a um pesquisador que não tivesse uma relação médico-paciente com o entrevistado.

Ao discorrer sobre a transferência que o paciente infectado pelo HIV faz no contexto da sua assistência, Nali, (2002, p. 36), comentou que:

...o paciente demanda uma escuta que não esteja marcada pela doença que o levou a buscar o ambulatório, mas sim uma escuta que propicie algo revelador em sua demanda através do discurso, e isso somente poderá ocorrer se considerarmos que o paciente, ou melhor, o sujeito, está para além do rótulo de sua patologia. Mas é preciso destacar, também, quais as representações que essa condição de doente lhe traz, assim como os efeitos subjetivos dessa ou daquela patologia. Portanto, a escuta analítica, como dispositivo que privilegia o desejo inconsciente, assim como o mal-estar daí decorrente, somente será possível a partir da escuta do discurso do sujeito e seus desdobramentos.

Portanto, o pesquisador-médico que objetiva captar percepções e representações presentes na existência do paciente-pesquisado, por intermédio de uma entrevista precisa ouvir e acolher esse indivíduo não apenas como um paciente ou sujeito, mas como alguém que tem uma demanda existencial estabelecida por seus desejos. Para identificar e compreender essa demanda, é necessário ultrapassar as formalidades da relação médico-paciente, transformando o contato em encontro.

Para explicar essa transformação, recorro ao argumento de Callile Jr. (1963) de que, no “encontro”, um e outro estão da mesma maneira, compartilhando mutuamente os mesmos significados. Para Schvinger (s.d, p. 5), nessa forma de aproximação, não há uma relação de juízo de valores, mas há, principalmente, uma “disponibilidade de escuta, da presença face-a-face, da busca rigorosa pela compreensão dos significados das experiências do [pesquisado] tais como ele as vivencia e avalia”. Esse autor acrescentou ainda que, no encontro, há o pareamento entre o um e o outro, o pesquisador e o sujeito, de modo que a transferência mútua de sentidos os nivela e permite que os relatos e manifestações fluam sob menor impregnação dos mecanismos de defesa, tanto por parte do entrevistador como do entrevistado, aproximando-os mutuamente. Sobre a relação médico-paciente, Sá Jr. (2002) comentou que um e outro não são iguais e o contato é desnivelado pelo próprio caráter da relação de ajuda, o que descaracteriza esta relação como um encontro, conforme a definição dada a este termo por Callile Jr. (op. cit.); Schvinger (op. cit.).

Essa aproximação do entrevistador com o entrevistado, em que o pesquisador se mistura com o pesquisado, buscando identificar-se com ele, é um componente do método qualitativo à procura da fidelidade da interpretação dos achados com foco à verdade. Cabe ao pesquisador, entretanto, avaliar objetivamente sua identificação com o pesquisado, exercendo o duplo e simultâneo papel de ser parte do objeto estudado e observador externo desse mesmo objeto. O pesquisador deve observar suas próprias atitudes no contexto da pesquisa, identificando os elementos partidos do pesquisado que

possam influenciar seu trabalho. Isso nada mais é que a compreensão da relação de transferência-contratransferência que ocorre no ambiente de uma pesquisa, em que a relação entrevistador-entrevistado é calcada no acolhimento proporcionado pelo encontro entre o pesquisador e o pesquisado, especialmente quando permeado pela relação médico-paciente.

Além disso, o campo de coleta dos dados, o ambiente e as circunstâncias em que se realizou a entrevista, por já serem familiares a ambos, deixou tanto o entrevistador quanto o entrevistado mais à vontade, diferente do que poderia acontecer se todos esses elementos fossem uma novidade no momento da entrevista. Entretanto, por melhor que o entrevistado esteja ajustado ao ambiente da pesquisa no consultório, este não é o lugar onde ele está absolutamente à vontade e dominante. Se a entrevista fosse feita na casa dele, algumas observações do entrevistador, o significado do encontro, a própria sistemática da entrevista e alguns papéis representados pelo pesquisador e pelo pesquisado poderiam ter conotações diferentes, capazes, inclusive, de repercutir no conteúdo da entrevista.

6.3 A INTERPRETAÇÃO DOS RELATOS DOS PORTADORES DO HIV QUE SE