Partie I - De la parole audiovisuelle à la question du liage : un état de l’art pour une stratégie
Chapitre 4. Stratégie expérimentale et plan du travail
Esse processo de diversificação da base econômica do município de Jussara e do território de Irecê, no entanto, vai além das atividades primárias as quais acabou de se discutir, entrando também nos segmentos de transformação e de serviços.
Desta maneira, tem-se em um município eminentemente rural um complexo agroindustrial em formação, constituído por um laticínio e uma unidade experimental de embutidos e defumados já em funcionamento, um abatedouro frigorífico, um curtume e uma fábrica-escola de artefatos de couro em fase final de construção, e ainda uma unidade de beneficiamento de polpa de frutas a ser concluída em uma fase posterior.
Em torno desse complexo está um universo de agricultores familiares, pequenos produtores e até produtores empresariais, entre cooperados e não-cooperados de vários municípios do território29, que estão tendo a oportunidade de agregar valor à sua produção e de fugir da dependência do comerciante intermediário que domina o mercado de caprinos e ovinos no Semi-árido baiano, conforme consta no trabalho de Holanda Júnior et al.(2003). No caso do leite de cabra e de vaca isso já está acontecendo e, com a entrada em funcionamento do abaterouro-frigorífico a produção de animais de corte passa a ser beneficiada também.
Aqui se vê certa semelhança com os modelos de desenvolvimento rural sugeridos por Sachs (2005), os quais se baseiam em cooperativas organizadas em torno de pequenas vilas agroindustriais que, por sua vez, gerariam empregos na indústria, nos serviços e no comércio local, absorvendo parte da mão-de-obra daquelas famílias que não dispunham de área suficiente para geração de renda digna em sua unidade familiar.
De fato, hoje a COPERJ já vem gerando empregos diretos no município por conta de seu laticínio, da administração do empreendimento e da assistência técnica, o que deverá se intensificar ainda mais com a entrada em funcionamento do restante do complexo agroindustrial. Nessa etapa, o Sr. Osmar Tarrão chama a atenção para a expectativa em torno da fábrica-escola de artefatos de couro, que deverá fomentar o artesanato no município e região, gerando inúmeros postos de auto-emprego e empreendedorismo de pequeno porte, diversificando ainda mais a economia local e territorial.
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Mas, além da geração de postos de trabalho para a população rural na indústria, o setor de serviços acaba também contribuindo com esse processo, como já se pode averiguar com o serviço de assistência técnica da Cooperativa que empregou técnicos em agropecuária, todos filhos de agricultores do município. A própria construção das diferentes unidades industriais do complexo gerou e vem gerando inúmeros postos de trabalho locais e regionais com serviços da área de construção (mestres-de-obra, pedreiros, auxiliares, outros), sem falar no comércio.
Até mesmo os órgãos públicos tem se mostrado mais presentes no entorno do município em decorrência dos trabalhos desenvolvidos pela COPERJ, como foi o caso de alguns órgãos estaduais como a ADAB, ou de instituições de pesquisa como a EMBRAPA.
Todo esse movimento acaba refletindo também no comércio do município, conforme averiguado por Sobrinho (2007), e confirmado durante os trabalhos de campo da presente pesquisa, quando se observou um grande movimento no setor de restaurantes oriundos de atividades relacionados à COPERJ. Há de se registrar aqui, que o CEBATSA também vem prestando grande contribuição nesse sentido, em função do grande número de visitantes e turmas de produtores que chegam de fora para participarem das capacitações ministradas no Centro.
Além disso, a implantação do Complexo Agroindustrial em Jussara está permitindo que outros segmentos do setor primário da região também sejam beneficiados pelo processo de verticalização da produção, como a estrutiocultura (criação de avestruzes) e a bovinocultura leiteira. Caso o projeto do segundo abatedouro-frigorífico venha a ser implementado o abate de bovinos para o mercado regional também será contemplado.
Foto: Antonio Lemos Maia Neto Foto: Nilton Bastos de Carvalho Filho
O significado para o desenvolvimento territorial sustentável de um projeto como esse da COPERJ, recai sobre as transformações por que tem passado o “mundo rural” nas últimas décadas, no qual “parte considerável da capacidade de trabalho da família rural está comprometida com atividades não agrícolas” (Baiardi e Mendes, 2007, p.30). Isso não significa dizer, entretanto, que as atividades agropecuárias tenham deixado de exercer seu importante papel na geração e distribuição de riquezas no meio rural (Couto Filho, 2007a).
Assim, pode-se inferir que o projeto do Complexo Agroindustrial de Jussara atende a ambos os requisitos apontados por Couto Filho (2007a), ao conciliar o desenvolvimento de atividades não-agrícolas com a organização e fortalecimento da atividade agropecuária do município e região. E como o projeto está voltado a tornar rentável as peculiaridades naturais e culturais da região30 através do resgate da caprino-ovinocultura e da verticalização da produção a partir de um conjunto de agroindústrias, tem-se a expectativa de se formar uma sinergia entre a preservação das “amenidades” e o dinamismo econômico no Território. De acordo com Veiga (2002), quando isso chega a acontecer não há nem mesmo condições de separar o que é atividade primária, secundária ou terciária.
Como conseqüência à absorção de trabalho no meio rural a partir da valorização de sua pluriatividade, Veiga (2001a) ressalta a redução da pressão sobre o mercado de trabalho dos setores secundários e terciários das regiões metropolitanas e demais centros urbanos. Isso acaba contribuindo de maneira indireta para melhoria da qualidade de vida desses ambientes.
Contudo, conforme consta em Veiga (2001b), o papel da sociedade rural brasileira ainda é considerado de pouca relevância para o desenvolvimento do país. Isso talvez explique, por exemplo, a carência de investimentos em infra-estrutura e serviços básicos no meio rural como observado no município de Jussara com relação à energia elétrica e ao ensino básico. E aqui, vem à tona a discussão sobre o despreparo das próprias instituições que tratam do desenvolvimento rural, as quais segundo Favareto (2007), têm dificuldade de enxergar o mundo rural como um espaço pluriativo e multidimencional, persistindo com a lógica setorial em suas abordagens31.
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O que, segundo Veiga (2002), se convencionou chamar de “amenidades”.
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Segundo Favareto (2007), mesmo as políticas que se dizem territoriais, ao definirem como público prioritário os pobres rurais acabam assumindo uma abordagem setorial, por não considerarem todas as dimensões e atividades presentes no território.
No território de Irecê, percebe-se um movimento no sentido de mudar essa realidade, tendo entre seus precursores a própria COPERJ com a pluriatividade que caracteriza os seus projetos marcados por um conjunto de atividades econômicas primárias, secundárias e terciárias32.