A. Les stratégies de « différenciation » du majoritaire
1. La stratégie d'affirmation identitaire
Seria impossível traçar uma origem definitiva do espaço brasileiro, de acordo com os conceitos firmados acima, sem a análise minuciosa da origem da espacialidade trazida por cada um dos povos que compõem a cultura multiétnica do país. Obviamente tal pesquisa foge ao escopo do presente trabalho, e embora seja possível se ater somente às culturas que mais peso tiveram na formação cultural do Brasil, ainda assim a busca pela origem destas culturas seria um trabalho demasiado extenso.
Assim, o estudo histórico tomará como ponto de partida a organização espacial das comunidades indígenas no território brasileiro, não procurando fazer um estudo exaustivo, mas trazendo exemplos em que se manifestam os fenômenos até agora expostos, e que possivelmente representem em parte a totalidade do modelo. Mesmo que as estruturas sócio-espaciais de cada etnia indígena sejam diferentes umas das outras, elas sofrem influência direta do clima e de outros condicionantes locais como disponibilidade de alimentos e água, fauna e flora presentes, topografia e outros que, quando colonos e imigrantes começam a ocupar o território brasileiro, continuam atuando sobre a cultura trazida de outras realidades e a transformando. Apesar de ser
relativamente pouco evidenciada, a influência da cultura indígena sobre a cultura brasileira é forte o suficiente para ter sido incorporada em hábitos, no vocabulário e mesmo na organização do espaço, talvez por estar mais adaptada a estas condicionantes.
Tem-se, portanto, a organização espacial indígena como uma das origens da organização do espaço brasileiro. Outro motivo para a análise deste espaço é a possível analogia que pode ser feita entre ele e o espaço das cidades contemporâneas.
A disposição de ocas em tabas indígenas vincula-se a rígidas e culturalmente conhecidas regras de comportamento e de itinerário (circulação) dos índios que nelas habitam. De forma análoga, nas grandes metrópoles, os diversos estratos sociais e grupos migrantes privilegiam apenas alguns setores urbanos, identificando-os como a 'sua' cidade. Esta relação entre espaço e grupos sociais é importante para a leitura e a compreensão da cidade e sua dinâmica." (WILHEIM, 1976 p. 16)
A identificação de determinados espaços da aldeia indígena parte do significado da unidade habitacional, seja ela a oca para famílias nucleares, seja a maloca, que abriga grandes grupos familiares. Para os Tukano, grupo que habita a região do alto Rio Negro, a maloca, que abriga mais de trezentas pessoas, possui um valor que está acima de sua função de proteção contra as intempéries.
O valor espacial da maloca está vinculado à tradição, à
mitologia, sendo impossível separar o profano do sagrado. [...]. Cada espaço carrega um significado, uma função: particular, comunitária e publica. [...] Para os indígenas a Maloca é um lugar de memória, não é simplesmente um lugar de moradia. (PAULA, 2005 p. 50)
O interior da maloca é destinado às mais diversas atividades do cotidiano, contendo o espaço para dormir, cozinhar, fazer artesanato e também para a realização de rituais e danças. Sua organização e construção, assim como sua disposição em relação às outras estão ligadas às tradições e aos mitos que constituem a base da cultura deste povo, e representam a organização social de toda a tribo (PAULA, 2005). Quando os missionários chegaram com o objetivo de “civilizar” os indígenas, houve, em alguns casos, uma substituição das malocas por casas de taipas, semelhantes às trazidas pelos europeus. Como resultado, foi alcançado o objetivo original, ou seja, um “desequilíbrio no sistema organizacional indígena” (PAULA, 2005 p. 51), para que os indígenas pudessem ser apresentados à cultura católica. Ainda assim, “a estrutura social do povoado mantém a estrutura social da maloca”, e “a estrutura social da maloca sobreviveu à destruição” (PAULA, 2005 p. 52).
Esta estrutura social pode ser mais bem visualizada através de uma análise da disposição das malocas dentro de uma aldeia. Ladeira (1983) relata que nas aldeias do grupo Timbira as malocas são dispostas em círculos, e é costume que os homens saiam de sua unidade e procurem esposas no lado oposto da aldeia, onde posteriormente morarão. Quando a maloca alcança determinada população, a família sai da maloca e constrói outra ao lado. Desta forma, as mulheres são sempre vizinhas das que lhe são aparentadas, enquanto os parentes mais próximos dos homens ocupam malocas situadas no lado oposto da aldeia. O caminho atribuído às mulheres é aquele que percorre as bordas do grande círculo da aldeia, e que leva às malocas de suas irmãs e mães, o que significa que quanto mais próxima a casa pelo caminho radial, maior a proximidade social, e o caminho que as liga se torna uma rua compartilhada, com um sentido de ser apropriada pelas famílias mais aparentadas (LADEIRA, 1983). O autor afirma que para os Timbira,
...cada diferença espacial é e permanece uma diferença qualitativa. Neste sentido é que a análise das posições, dos deslocamentos, do espaço no sentido amplo de uma sociedade, possibilita-nos aprender as linhas demarcatórias que orientam as relações sociais e, através delas, chegar aos pontos de articulação desta sociedade. (LADEIRA, 1983 p. 13)
A disposição circular das aldeias Timbira está ligada também à ideia de que todas as casas têm o mesmo peso social, além de estarem todas “relacionadas de um mesmo modo ao pátio, centro das decisões políticas e de toda vida ritual” (LADEIRA, 1983 p. 20). Do mesmo modo, a posição de cada indivíduo no processo produtivo é igual à de todos os outros, sendo todos equivalentes e substituíveis uns pelos outros, o que é claramente exposto pela distância igual de todas as casas até o centro. Se a disposição radial das casas deixa clara esta relação, por outro lado ela representa também “a única distinção que pode ser dada ao nível da produção; aquela entre os sexos: o centro (lugar do homem) e a periferia (lugar da mulher)” (LADEIRA, 1983 p. 21). Quando a aldeia muda de lugar, a mesma disposição das malocas é mantida. Assim, se por um lado a estrutura social, mais rígida, tende a organizar o espaço, por outro, o próprio espaço ajuda a organizar a estrutura, fazendo com que o grupo mantenha a estabilidade nas relações.
Disposição similar acontece nas aldeias dos Bororo, com a diferença de que podem existir círculos concêntricos indicando as gerações, sendo as mais externas as mais novas (LADEIRA, 1983), além de existir uma divisão muito mais clara em duas
metades exatas, cada qual subdividida em setores menores, e cada setor correspondendo a um clã, que possui uma função específica dentro da cosmologia e da tradição do grupo. (PORTOCARRERO, 2001)
A relação dos indígenas com o espaço é bastante clara. Como já mencionado, a identificação do indivíduo é mais relacionada com a aldeia como um todo do que com a unidade habitacional representada pela maloca (ao contrário dos moradores das cidades), mas ainda assim existe a noção de um ambiente mais privativo, que é o espaço interno da maloca; um intermediário, representado pelas ruas radiais compartilhadas; e um espaço mais público, representado pelo centro, onde são tomadas as decisões importantes. Ao mesmo tempo em que o indivíduo se identifica com seu clã, representado pela maloca ou pelo setor ao qual pertence, o próprio clã se identifica como parte da aldeia, que constitui uma unidade. Relações da aldeia com outras constituem hierarquias de territórios, sempre configuradas segundo a relação sócio- espacial que se estabelece entre os indivíduos e entre os grupos.
Será adotado aqui o conceito de Sinomorfia, como apresentado por Lawson (2001), em que a organização espacial representa precisamente a estrutura social. À medida que os povos indígenas vão sendo incorporados à sociedade colonial, seja pela escravização seja pela sua integração à sociedade, esta estrutura deixa de existir e a organização do povo como um todo passa a se modificar segundo padrões da cultura branca. Por consequência, o significado de cada elemento espacial que compõe o meio não é mais o mesmo para todos os indivíduos, como acontece na aldeia. Não há mais uma ordem comum, regida pelas crenças e costumes, que atribui estes significados; valores e hierarquias são submetidos a lógicas estranhas àquela que deu origem à cultura e à configuração original do espaço. O modelo sinomórfico deixa de ser possível quando culturas muito diferentes passam a conviver em um mesmo espaço, pois uma vez que os significados subjetivos são diferentes, torna-se corriqueira a invasão do espaço alheio sem que o invasor sequer se dê conta do fato.
A desconstrução do espaço social indígena pode ocorrer tanto através da introdução de uma nova cultura, como foi feita pelos primeiros missionários, impondo uma nova religião, como através da modificação física do espaço. No primeiro caso, a introdução de uma nova religião resulta na mudança de valores, com os quais a disposição dos elementos espaciais, até então regidos por uma ordem cosmológica,
deixa de fazer sentido. E neste momento, a disposição física dos espaços da aldeia pode deixar de seguir a organização original, uma vez que não há elo que ligue a ordem social à física. Já no caso da imposição de construções diferentes das tradicionais, utilizando a taipa de mão ou mesmo alvenaria e concreto, além da disposição das casas de forma diferente da tradicional, acabam sendo geradas contradições, embora, como se constatou, em alguns casos a estrutura social possa ter sido mantida.
Na ordem social de mais alta complexidade, envolvendo a interação entre culturas diferentes, como nas cidades, a distribuição dos elementos que compõem o espaço dentro do território compartilhado segue certamente uma lógica, como apresentado no capítulo anterior. Mas a forma como esta ordem se transforma ao longo do tempo é o próximo assunto a ser tratado.