Dados da World Health Organization (2016) estimam, de modo global, a existência de 422 milhões de diabéticos em 2014, em comparação a 108 milhões em 1980, com prevalência mundial quase que duplicando desde 1980, passando de 4,7% para 8,5% na população adulta, em decorrência do aumento nos fatores de risco associados, tais como o sobrepeso e obesidade. Estes informes também registraram que o diabetes causou 1,5 milhões de mortes em 2012, que a intolerância à glicose causou um adicional de 2,2 milhões de mortes, aumentando os riscos de doenças cardiovasculares, com 43% das mortes ocorrendo antes dos 70 anos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2016).
Com o envelhecimento, ocorre uma maior prevalência de alterações do metabolismo glicêmico, obesidade central, dislipidemia e hipertensão arterial sistêmica, caracterizando-se a Síndrome Metabólica (SM) (FORD; GILES; DIETZ, 2002; HILDRUM et al., 2007), tornando-se relevante sua identificação pelo fato desta aumentar 2,5 vezes o risco de doenças cardiovasculares e de cinco vezes o risco de DM (KAHN et al., 2005), aumentando a mortalidade geral em cerca de 1,5 vezes e a cardiovascular em cerca de 2,5 vezes (I-DBSM, 2005). Segundo o Third Report of
the National Cholesterol Education Program (NCEP) Expert Panel on Detection, Evaluation and Treatment of High Cholesterol (NCEP-ATP III), assim como a I
Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica (I-DBSM) a síndrome metabólica representa a combinação de pelo menos três componentes tais como: Obesidade abdominal por meio de circunferência abdominal(homens > 102 cm e mulheres > 88 cm), Triglicerídeos ≥ 150 mg/dL, colesterol HDL (homens < 40 mg/dL e mulheres < 50 mg/dL), Pressão arterial ≥ 130 mmHg ou ≥ 85 mmHg e Glicemia de jejum ≥ 110 mg/dL (NATIONAL CHOLESTEROL EDUCATION PROGRAM, 2002; SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2005).
No entanto, estudo recente com objetivo de avaliar o valor clínico da síndrome metabólica com base em diferentes definições [American Heart Association /
National Heart, Lung and Blood Institute (AHA / NHLBI),
Resistência à Insulina (EGIR)] em população com predomínio de idosos foi realizado com 8.643 participantes do Estudo de Roterdan. Os resultados demonstraram alta prevalênciada síndrome metabólica, em geral associada ao diabetes tipo II, com fracas associações com DAC, AVC e mortalidade cardiovascular. No entanto, quando as associações são corrigidas para os componentes individuais da síndrome metabólica, elas desapareceram, com os autores concluindo que a síndrome metabólica não oferece valor adicional na estimativa de risco de diabetes mellitus, DAC, AVC e mortalidade acima dos seus componentes individuais (VAN HERPT et al., 2016).
A hipovitaminose D é altamente prevalente em diabéticos em comparação aos indivíduos não diabéticos, como bem demonstrou Targher et al. (2006), assim como associada à aterosclerose de carótidas e também relacionada à diminuição da sensibilidade à insulina, como Scragg avaliou transversalmente em grande estudo populacional americano (NHANES III), através de glicemia de jejum e níveis séricos de insulina, encontrando associação inversa entre vitamina D e resistência insulínica (SGRAGG; SOWERS; SINO, 2004). Ainda utilizando a população do NHANES III, Martins et al. (2007) demonstraram maior prevalência de HAS, DM, níveis de triglicerídeos com deficiência de vitamina D.
Em relação à resistência insulínica, dois estudos avaliando suplementação de vitamina D e metabolismo glicídico demontraram melhora da secreção de insulina e retorno da tolerância à glicose. O primeiro, em 95, avaliando efeito da suplementação de vitamin D, em população com alta prevalência de diabetes mellitus sugereriu que a reposição precoce e sustentada com a vitamina D na profilaxia de diabetes devem ser considerada em comunidades onde a depleção de vitamina D (BOUCHER et al., 1995) é comum, enquanto que Borissova et al.(2003), avaliando a suplementação de vitamina D em mulheres quanto à secreção e resistência insulínica encontrou que a deficiência de vitamina D contribui para a redução da secreção e da ação da insulina.
Hypponen (2006) detectaram associação de distúrbio do metabolismo glicídico e obesidade com deficiência de vitamina D e em 80% dos indivíduos obesos foi encontrado níveis de 25(OH)D abaixo de 75nmol/L em relação com aqueles com peso normal (P <0,0001). Uma metanálise encontrou associação inversa entre 25OHD e prevalência de diabetes mellitus tipo II (PITTAS et al., 2007c).
Gradinaru et al. (2012) avaliaram o nível de vitamina D em idosos na Romênia, com glicemia de jejum alterada ou DM2 e a associação com stress oxidativo sistêmico e marcadores de função endotelial, tendo como desfecho estresse oxidativo, disfunção endotelial e metabólica e risco cardiovascular. Comprovaram níveis de vitamina D inversamente associados aos marcadores de estresse oxidativo, disfunção endotelial e metabólica (colesterol de alta densidade- HDL, colesterol de baixa densidade-LDL, triglicerídeos, LDLoxidado, LDL/HDL, colesterol total/ HDL, índice aterogênico, produtos finais de glicação avançada, produtos avançados de oxidação proteica, dentre outros) e risco cardiovascular (GRADINARU et al., 2012). Conclusões semelhantes foram enunciadas por Kuloglu
et al. (2013), avaliando idosos na Turquia, recentemente diagnosticados com DM2
em relação às propriedades elásticas da aorta tendo como desfechos índice de massa ventricular esquerda (IMVE) e distensibilidade da aorta ascendente medidos por ecodopplercardiografia, IMC e inflamação (PCR us). Esses autores identificaram associação independente de baixos níveis de vitamina D com menor distensibilidade aórtica, maior hipertrofia ventricular esquerda e inflamação nos diabéticos (KULOĞLU et al., 2013).
Recentemente, outro estudo analisou a relação entre vitamina D e diabetes mellitus tipo II quanto à composição corporal em mulheres pós-menopausada, encontrando alta prevalência de hipovitaminose D em 89%, assim como detectaram que a obesidade é um fator de risco para a insuficiência de vitamina D na mulher pós-menopausada com DM2 ( RASKA et al., 2016).
Uma abrangente meta-análise de 11 estudos prospectivos, com pouca heterogeneidade, envolvendo 3612 casos e 55,713 participantes, utilizando a coorte
European Prospective Investigation into Cancer (EPIC)-Norfolk, foi realizada com
objetivo de avaliar a associação entre vitamina D e diabetes tipo II. Os resultados demonstraram uma forte relação inversa entre 25(OH)D e incidência de diabetes tipo II, como também que o risco de diabetes no futuro pode ser reduzido em 41% se níveis de 25(OH)D acima de 32 ng/mL (FOROUHI et al., 2012).
2.4 DEFICIÊNCIA DE VITAMINA D E OUTROS FATORES DE RISCO