DCL 1 MOTHER LIKE FATHER;
6.3. THE STORAGE MODEL: MANAGING STORAGE OBJECTS 167 With many rounds of allocation and deallocation, the average size of the objects can decrease, and
Uma das grandes dificuldades iniciais desta pesquisa foi a de confiar em rankings com os melhores games, especialmente aqueles disponíveis online. Há uma série de blogueiros e youtubers que disponibilizam esse tipo de material na internet a partir de critérios muito pessoais. Isso justificou a escolha em utilizar o livro do Mott (2013) no mapeamento dessa indústria, apresentado anteriormente. No entanto, perante a ausência de índices mais recentes nesse sentido, a autora acompanhou e se manteve atualizada durante todo o período da pesquisa (2015-2019) às notícias, aos eventos e discussões a respeito da indústria criativa de games por meio da mídia tradicional.
Em convergência aos seus propósitos como pesquisadora e professora, em novembro de 2018, o game brasileiro Dandara figurou na lista dos 10 melhores jogos de 2018 da revista Time (2018). Segundo o UOL Jogos (2019), Dandara foi desenvolvido pelo estúdio mineiro Long Hat House, tendo como inspiração a escrava fugitiva Dandara dos Palmares, esposa de Zumbi dos Palmares, que dominava técnicas de capoeira e que, ao lado de Zumbi, lutou contra escravidão no Brasil.
Gráfico 82 – Print do game Dandara na matéria da Revista Time
Fonte: Time (2018).
É a primeira vez que um game brasileiro aparece numa lista dessa magnitude, ao lado de títulos de franquias AAA renomadas como Super Mario Party, Assassin’s Creed Odyssey e Red Dead Redemption 2.
Em termos técnicos, algo que chama a atenção em Dandara é a quantidade de plataformas que o jogo está disponível: os três principais consoles do momento (PlayStation 4, Nintendo Switch e Xbox One), os dois principais sistemas operacionais para plataformas móveis (Android e iOS) e PC, embora a sua página na Steam (2019) indique também versões do jogo disponíveis para macOS e Linux. Essa questão merece ser ressaltada, pois populariza o jogo, bem como mostra um amadurecimento da indústria brasileira.
Durante as entrevistas realizadas na BGS 2018, a autora percebeu que boa parte das produtoras indies já estão trabalhando com multiplataformas, especialmente consoles, o que
mostra uma maior facilidade em desenvolver e publicar em várias lojas virtuais quase que simultaneamente, mesmo com equipes reduzidas. Isso é possível porque,\ tanto as engines estão trabalhando com o conceito de multiplataforma, como é o caso da Unity, quanto as publicadoras, como a Steam (2019), permitem o download para diferentes plataformas, mostrando um avanço sobre as lojas de aplicativos para mobile e consoles, cujos downloads de produtos se restringem as suas marcas. No entanto, também denota a abertura cada vez maior das empresas detentoras de consoles para disponibilizar produtos desenvolvidos por estúdios indies, algo que era praticamente inviável em décadas anteriores.
Voltando ao Dandara, segundo informações presentes no site da Long Hat House (2019), o estúdio surgiu em 2014 e conta com apenas dois integrantes: João Brant e Lucas Mattos. Eles nasceram em Belo Horizonte (MG) e se conheceram enquanto estudavam Ciência da Computação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Gráfico 83– Lucas Mattos e João Brant, da Long Hat House
Fonte: Long Hat House (2019).
O site da Long Hat House (2019, tradução nossa) destaca uma série de prêmios e reconhecimentos que a dupla obteve com o seu estúdio:
Vencedor da I SBGames Jam - Porto Alegre, 14/11/2014 Finalista na FunPlus' IndiePlus - São Francisco, 3/3/2015
Finalista no BIG Festival: Brazilian Award - São Paulo, 1/7 2015
Finalista do IMGA – Excelência em Gameplay - São Francisco, 12/3/2016 Finalista no BIG Festival: Brazilian Award - São Paulo, 1/7/ 2016
Finalista no SBGames 2016: Melhor Game - São Paulo, 1/8/2016 Finalista no SBGames 2016: Melhor Design - São Paulo, 1/8/2016 Finalista do IMGA - San Francisco, 28/2/2017
Vencedor na SBGames 2018: Melhor jogo (imprensa) - Foz do Iguaçu, 31/10/2018
Vencedor na SBGames 2018: Game Design - Foz do Iguaçu, 31/10/2018 Finalista na SBGames 2018: Narrativa - Foz do Iguaçu, 31/10/2018
Como pode-se perceber, há uma preocupação da dupla em estar presente nas grandes mostras competitivas do setor, especialmente nas cidades de São Paulo e São Francisco (EUA), cidades que são referências nacional e mundial na área de inovação, respectivamente. Certamente, esse é um ponto que impacta positivamente em termos de divulgação, uma vez que essas cidades concentram imprensa especializada em tecnologia, ampliando a visibilidade de seus jogos.
A propósito, todo o site da Long Hat House (2019) está em língua inglesa, embora versões do game estejam disponíveis na Steam (2019) nesse idioma e em mais de uma dezena de outras línguas, incluindo alemão, chinês, coreano, espanhol, francês, italiano, japonês e russo, bem como português brasileiro e de Portugal, proporcionando maior alcance e uma evidente visão global de negócios.
Aliás, a autora não encontrou nenhuma evidência de que a Long Hat House receba dinheiro de outra fonte que não a venda de seus produtos. Na App Store, o jogo Dandara é comercializado por R$ 52,90 (mobile) e R$ 54,90 (macOS) e na Steam (2019) custa entre R$ 29,99 e R$ 35,58 (versão melhorada). Na Steam (2019) está disponível também a trilha sonora original do game, totalizando 20 músicas com duração entre 40 segundos e pouco mais de sete minutos, por R$ 14,4935. Por isso, disponibilizar em multiplataformas e em diversas
línguas amplia o poder de venda. No entanto, de acordo com informações do site Manati Games (apud THE ENEMY, 2019), em junho de 2018, os desenvolvedores afirmaram que 60% das vendas do Dandara vinham da eShop Nintendo (2019), que atualmente cobra 14,99 dólares ou euros, dependendo do país da loja, pelo jogo para Switch, destacando a permanência da importância dos consoles nesta indústria.
Em muitas dessas lojas consta o nome da Raw Fury (2019), que é a publisher dos jogos da Long Hat House. Trata-se de uma editora de jogos, sediada em Estocolmo (Suécia), que possui experiência em administração, promoção e distribuição de pequenos e grandes estúdios de games, cuidando dos testes dos games e relações públicas com influenciadores digitais, jogadores e demais criadores de conteúdo. Em seu site, o discurso da Raw Fury (2019) a coloca mais preocupada nos jogos do que na indústria, uma vez que vê os games como a união de arte e artesanato. Sua proposta é a de propiciar sucesso e felicidade aos
desenvolvedores, para que permaneçam independentes. Ao que tudo indica, vem alcançando seu objetivo com a Long Hat House.
Outro aspecto que merece ser destacado no jogo Dandara vem da sua temática e narrativa. Ter como inspiração uma personagem real da história brasileira já é um fato louvável, ainda mais por não ser apresentado como um serious game. Pelo contrário: a curva de aprendizado é algo que foi elogiado na matéria da Time (2018), que não está atrelada ao conhecimento prévio da história.
Também não é costumeiro na indústria ver um jogo de sucesso tendo como protagonista uma heroína mulher negra, ex-escrava, cujo corpo não tem enfoque na sua sexualização.
Gráfico 84 – Imagem de divulgação do game Dandara na eShop Nintendo
Fonte: Nintendo (2019).
Isso se reflete até no jogo propriamente dito, inclusive quando referencia a obra de arte Abaporu, de Tarsila do Amaral, que aparece numa versão vestida. Assim, os desenvolvedores utilizam a liberdade poética para adaptar a obra em termos visuais e até mesmo temporais.36 De qualquer forma, a presença das cores verde e amarelo predominam nas personagens, reforçando a identidade brasileira pelo viés do nacionalismo.
36 Cabe salientar que, enquanto a personagem histórica viveu no século XVII, a obra Abaporu é datada
Gráfico 85 – Referência à obra Abaporu no game Dandara
Fonte: Steam (2019).
Ainda de acordo com a revista Time (2018), Dandara tem “belos gráficos”. No entanto, para ter este repertório, é essencial ir além dos currículos escolares, especialmente no que tange aos cursos da área de TI. Por isso, cursos de Jogos Digitais precisam focar um pouco mais na formação humanística, tanto em termos de história, quanto de arte. É notável no jogo Dandara como dois rapazes com formação na área de Exatas conseguiram trabalhar com maestria essas temáticas de cunho histórico, artístico e cultural. Nas entrevistas realizadas na BGS 2018, já é visível o movimento de profissionais de outras áreas que estão assumindo esses postos, como é o caso dos desenvolvedores dos jogos Lenin – The Lion e Favela Game, que trazem temáticas sociais como seus grandes diferenciais. Em época de mercado de nicho, como Anderson (2006) aborda em sua teoria d’A Cauda Longa, não faltarão jogadores para temáticas não contempladas até então pela indústria cultural. Cabe aos pequenos estúdios oferecerem isso, assim como a produtora Long Hat House fez.
Por outro lado, Dandara ainda é exceção. A indústria está aquém nesse sentido: em sua experiência como professora de roteiro de jogos, a autora viu bons alunos em sua disciplina se formarem e não encontrarem vagas na indústria, que ainda não despertou para a necessidade de novas temáticas. Isso é perceptível nas entrevistas na BGS 2018 com as produtoras indies maiores, que ainda não exploram adequadamente as temáticas relacionadas à identidade cultural local e temas sociais, tais como feminismo, diversidade e afins. Neste aspecto, o uso da tag Female Protagonist no perfil do Dandara na Steam (2019) leva a crer que este tipo de preocupação é essencial nos dias atuais. Para se ter uma ideia, outros jogos importantes para a indústria, como o jogo Street Fighter V e todos da franquia Tomb Raider,
utilizam esta tag na Steam (2019). Com um número maior de jogadoras no mercado, por exemplo, isso representa ampliar a fatia de mercado.