1. Introduction
1.6. Statements and Guidelines
Este item analisa como as mulheres que participaram desta pesquisa avaliam e dão sentido à presença de seus companheiros e/ou pais de seus filhos no momento do parto. Para as mulheres que têm um relacionamento afetivo estável com o pai da criança que irá nascer, pude notar que sua presença e apoio são elementos muito importantes para as decisões e sentimento de segurança da mulher. Não que as decisões sejam dele, apesar de sua influência e de ser um pilar, a escolha final costuma ser da mulher, que cumpre a função de apresentar-lhe informações, argumentar, convencê-lo e envolvê-lo no processo em busca de um parto humanizado. Esta não é uma regra, encontrei também mulheres que foram convencidas por seus companheiros durante a gravidez a se aproximar dos grupos de discussão pela humanização e que receberam dele a primeira sugestão de optar por esse tipo de parto. Neste sentido, não é apenas nos assuntos relativos ao parto que o companheiro se torna uma peça relevante. Parece haver um círculo que se retroalimenta: o bom relacionamento com o companheiro ajuda nas decisões relativas ao parto e a experiência do parto, quando positiva, une ainda mais o casal.
...na época das minhas duas primeiras eu era casada com um camarada maravilhoso, mas que é cirurgião, então, pra ele as coisas são muito práticas, muito assim, ‘ah, é isso, então opera’, tá entendendo? Então isso, sem dúvida nenhuma, é... influenciou é... a questão também como eu falei, que nesse segundo relacionamento eu tava me sentindo muito plena como mulher, então, isso também possibilitou, facilitou. (Maria)
Nestes casos, o parto traz uma revisão para a relação e as mulheres passam a ser mais admiradas. Elas costumam contar que os companheiros, assim como elas mesmas, passam a reconhecer nelas uma força ainda desconhecida. Esta admiração e respeito à decisão das mulheres pode sinalizar, a um só tempo, uma confiança dos homens do potencial das mulheres decidirem sobre seus corpos e processos reprodutivos, bem como uma expressão da ideia de que os assuntos reprodutivos pertencem à alçada feminina. Este aspecto aponta para, simultaneamente, uma manutenção, quando mantém maior responsabilidade sobre a vida reprodutiva sob a mulher, e uma subversão dos padrões de gênero, quando
reforça a ideia de que as mulheres podem decidir sobre seus corpos de modo consciente e ativo, fazendo-me, mais uma vez, cogitar que as compreensões dicotômicas não se adequam ao meu campo de pesquisa e que a perspectiva de continuidade estaria bem mais alinhada às informações que minhas interlocutoras apresentam.
...no casamento eu acho que teve uma repercussão muito positiva, né, porque isso foi uma construção nossa né, e acho que ele ficou muito feliz, orgulhoso né, assim, da gente ter conseguido, e eu ter conseguido, e sempre me dá muita força nesse sentido de que eu sou uma boa mãe, de que todo esforça que eu faço né, é válido, né, e assim, acho que isso foi uma coisa muito positiva. (Ana)
...eu acho que o parto, no casamento é... fortaleceu ainda mais meu casamento, meu marido, quando a gente tava começando a sair de lá a primeira coisa que ele chegou pra mim, veio dizer no meu ouvido foi que naquele dia ele tinha se apaixonado de novo por mim, a gente ia começar do zero, a namorar ali de novo, porque ele nunca tinha visto tanta força, tanta determinação, e aí, realmente foi bem bacana assim o apoio dele nesse sentido, porque ele tava muito assustado né, mas em nenhum momento ele demonstrou, e ele foi comigo até o fim, até hoje ele faz ‘ai, tu quer de novo sem anestesia? Não, eita, desculpe, não era pr’eu ter falado isso não’, ele mesmo se policia assim pra não interferir, porque ele sabe que as minhas escolhas não é só pensando em mim, é nele também, o pós- parto de um parto normal é muito melhor pra família toda, né, e aí ele entende, entende o que eu passo. Aí, a gente ficou mais unido ainda e ele diz pra todo mundo ‘minha esposa é muito guerreira, você não tem ideia’, ele fala muito bem do parto, eu pensei que ele ia ficar traumatizado, não ia mais querer falar de parto normal pra mim, muito pelo contrário. (Camila)
O trechos acima exemplificam como o parto repercute sobre o casamento, sobre a visão do homem em relação à mulher e sobre o lugar do próprio homem na cena do parto. Dentro deste panorama, o homem, no cumprimento de um apoio emocional, aqui entendido como inseparável de outras dimensões, costuma ser acionado para a resolução de assuntos burocráticos, para que a mulher não precise se preocupar com isso (ou, no limite, não assuma isso sozinha) e possa se entregar ao processo do parto. Esses assuntos burocráticos podem ser exemplificados pela entrega de documentos na recepção do hospital para a efetivação da internação. Nestes momentos, eles servem de esteio para as mulheres em uma situação de fragilidade e, por vezes, contribuem para que ela não seja perturbada por interferências externas e, com isso, mantenha-se entregue ao parto.
...esse apoio emocional dele, eu acho que foi importante, entendesse, eu não me senti insegura ou com medo de fazer alguma coisa, ou com medo de ter parto normal. Ou com medo disso, não foi uma gravidez cercada de medos sabe. (Júlia)
Além disso, também o homem envolvido no processo de preparação para um parto humanizado pode ser arrebatado por algumas das sensações e sentimentos descritos pelas mulheres no momento do parto, ou elas, que são as minhas interlocutoras, podem enxergar seus companheiros com esse invólucro. Esses homens são incluídos em todo o andamento do parto e frequentemente assumem funções, para além da simples espera ou do ato de fotografar o nascimento da/o filha/o. Ele é ativo, ele participa da organização do espaço, ele serve de apoio físico à mulher ajudando-a a encontrar uma posição confortável, auxiliando-a no controle da respiração e nas vocalizações, ele pode aparar o bebê, dentre outras atividades demandadas no momento. Isso pode, inclusive, fazer com que ele também seja percebido pelas mulheres como parte daquela conexão com um todo maior explorada mais detidamente no capítulo 5.
...aí eu lembro que meu marido ficou um tempo assim bem agarradinho comigo atrás, ele bem assim junto de mim assim, ela e eu. Os três assim, bem agarradinho, ele rindo, morrendo de felicidade e o chororô né, de todo mundo, aí eu comecei a chorar também e tal. E aí, pronto, depois disso é como se eu tivesse voltando ao mundo real, entendeu, tivesse saindo daquela aura de consciência alterada e ‘não, agora eu entendi, realmente’. (Júlia)
Marido ficou muito, assim, eu senti ele muito luminoso, assim também, de olhar, a gente fez e a gente trouxe pro mundo junto, né, que massa, que legal. Então, foi muito, muito, eu acho que a palavra é essa, foi muito luminoso, assim, foi uma experiência muito intensa e de muita vida, de muita luminosidade, né. Aí quando amanheceu o dia a placenta saiu, a gente foi buscar Filho1, pra ele conhecer a irmã e pronto, e... tamos aí. (Rosa)
A participação dos homens aponta, então, para o enriquecimento da experiência que, partilhada, se fortifica e fortifica as relações. Envolvidos pela aura do evento e disposto a olhar as mulheres de outra forma, os homens também engendram outras olhares da mulher para si e para a relação e assim vê-se com mais clareza como os processos de subjetivação se dão em interação.