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O interesse em traduzir textos teatrais surgiu no momento em que entrei em contato com Mi Muñequita. Este texto chegou às minhas mãos quase que por acaso e disparou meu interesse não apenas pela tradução de textos dramáticos, mas também pelo processo criativo do tradutor e da montagem teatral, no caso a encenação brasileira que decorreria do texto traduzido.

É válido dizer que no momento em que finalizei a primeira leitura do texto senti que necessitava traduzi-lo, e que ele seria de fato montado. O processo da tradução seria parte de um processo ainda maior.

Outro fato importante a ressaltar é que foi o texto e não a encenação uruguaia o que despertou meu interesse e o interesse do diretor. A tradução foi realizada entre 2007 e 2008 e a estreia do espetáculo foi em novembro de 2008. Mas foi só em agosto de 2012 que o tradutor, diretor e elenco da montagem de Mi Muñequita conseguiram assistir àversão uruguaia, num evento que reuniu as duas montagens na cidade de Montevidéu.

O texto dava voltas em minha cabeça e me provocava várias sensações. Sentia a necessidade de lê-lo e relê-lo. Era nítida a sensação de que carregava muitas mensagens subliminares e eu queria decifrá-las todas, para assim realizar uma tradução que me satisfizesse. Era necessário mastigá-lo a ponto de não restarem dúvidas com relação à maneira em que eram ditas as palavras. Tinha em minhas mãos uma obra extremamente inteligente, provocadora, que descrevia de maneira crua os acontecimentos cruéis no seio de uma família tradicional.

Eu sinto que como tradutor tenho a necessidade de ler e reler a obra várias vezes antes de iniciar a tradução. De sentir que nada de fundamental no texto me escapou, de que consegui compreendê-lo por inteiro e que não haverá grandes surpresas quando começar a tradução propriamente dita. Faz parte do meu processo a tentativa de começar a tradução com o mínimo de incertezas em relação às palavras que usarei. A intenção é fazer um trabalho ágil, no qual haja a menor quantidade possível de dúvidas que demandem pausas na etapa final do processo.

Nesse sentido me ocorre a ideia de apropriação do texto, aquilo que Pavis descreve na sua série de concretizações como o primeiro passo a seguir na tradução teatral. Sinto que necessito me apropriar do texto antes de começar a tradução. Além dos aspectos linguísticos, Pavis (2008, p. 147) sustenta que o caminho mais frequente na hora da tradução para o teatro consiste em “transigir entre as duas culturas, em

produzir uma tradução que seja como um ‘corpo condutor’ entre elas e que respeite a proximidade e o afastamento, a familiaridade e a estranheza”.

Também o aspecto cultural é de grande importância na tradução do teatro, e no caso de Mi Muñequita existiam alguns aspectos culturais muito marcados que deviam ser considerados na tradução.

É necessário um mergulho no texto, senti-lo comigo. Vivo o texto em todos os sentidos até que a tradução esteja acabada. Não faço diretamente no computador, é fundamental para mim a presença do papel, necessito manuseá-lo. Em meus manuscritos podem-se notar características típicas do rascunho: escrita rápida e pouco legível, rabiscos, bilinguismo, erros ortográficos. Mesmo não sendo o aspecto central da pesquisa, serão analisados alguns manuscritos para ilustrar a tradução.

Figura 12. Exemplo de Manuscrito de Esteban Campanela

Podemos notar nos manuscritos uma série de rabiscos que determinam dúvidas do tradutor. Entre parênteses e com símbolos de interrogação aparecem algumas palavras ou falas que despertaram dúvidas: na terceira linha vemos a primeira, o tradutor se questiona se deveria ser “te amo” em lugar de “te quiero” do original. Cabe

esclarecer que a expressão “te quiero” em espanhol não tem a intenção carnal que carrega em português, e é sim mais espiritual.

Em outros exemplos vemos que há na tradução palavras que ficaram dentro de um círculo. Essas palavras formaram parte de uma série de palavras que na primeira tradução representaram dúvidas sobre a escrita em português. É provável que tenham sido marcadas após a primeira tradução com a intenção de corrigi-las na próxima reescrita do texto. Podemos notar também que ainda não estava definido se os nomes dos personagens ficariam em português ou em espanhol. De fato ora estão em espanhol, ora em português. Cabe lembrar que na tradução final para a montagem os nomes permaneceram em espanhol.

Como a tradução foi pensada com o objetivo da encenação teatral, foi dada ainda mais ênfase à língua de chegada. Há uma seleção detalhada da linguagem, à procura da palavra justa, adequada ao necessário peso na língua e na cultura alvo. Mais que um texto que será traduzido e lido, trata-se de um texto teatral, um texto oralizado. Será lido pelo ator, que se apropriará dele. O ator, por sua vez, contará com o olhar e a direção do encenador da montagem e suas referências, sua leitura da obra. Finalmente o texto se rematerializa em cena para ser recebido pelo espectador.

Para toda tradução acredito na importância do conhecimento das referências e idiossincrasias dos países das duas línguas. No caso da tradução de um texto teatral que, de fato, será encenado no país da língua de chegada, essa importância é fundamental.

Há alguns detalhes que tiveram que ser levados em consideração no momento da tradução. Se por um lado o texto de Calderón quase não apresentava indicações cênicas, o que permitia uma extrema liberdade na futura encenação, por outro trazia algumas anotações da direção que na tradução foram transformadas em didascálias. É importante lembrar que Calderón escreveu e também dirigiu a montagem uruguaia e que o texto do dramaturgo vinha com suas anotações.

Foram tomadas algumas liberdades na tradução de algumas palavras a fim de manter sua musicalidade sem perder o estilo, a tonalidade e a intenção do texto. Em várias passagens há diálogos frenéticos, muitas vezes acompanhados de trocadilhos e repetições com intenção de produzir diversos efeitos, os quais tiveram que ser resolvidos com diferentes estratégias. Em uma das falas da Nena em que descreve a boneca, ela diz: “mojada, asustada y enojada”, que foi traduzido por: “molhada, assustada e enjoada”. A escolha do adjetivo enjoada nos permitia manter a musicalidade do original sem perder o

significado, já que enjoada como adjetivo pode significar desagradável, antipática, chata, o que se aproxima dos adjetivos brava e irritada, que atenderiam à tradução literal.

O processo da primeira tradução, anterior ao processo da montagem, não foi um processo solitário. Contei com o auxílio de Milena Moraes, atriz brasileira e produtora de Mi Muñequita no Brasil, e pessoa idônea tanto na língua de chegada quanto em textos teatrais. Também me apoio em dicionários tradicionais e eletrônicos, além de ferramentas de busca da rede mundial de computadores.

4.3 ESTABELECENDO RELAÇÕES CRIATIVAS ENTRE A

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