Uma elemento recorrente nos relatos antigos é a presença do enigma, elemento que encontramos em algumas passagens de Macunaíma. A velha caapora tem duas filhas, e uma delas se encanta por Macunaíma, e o ajuda a decifrar três charadas. Vemos neste trecho a referência ao número três, que a tradição mítica arcaica confere um valor sagrado. Segundo Salis (2003, p.176), este número é sinal de transcendênci a. Mais uma vez vemos que, ao decifrar (ou não) as charadas, nosso herói não tem nenhuma motivação mais nobre que não seja a de salvar sua pele de uma situação desesperadora, crítica, em franca oposição ao que ocorre na tragédia de Sófocles. O herói trágico era predestinado a decifrar o enigma da Esfinge e a seguir o caminho traçado pelos deuses, passo a passo. Macunaíma só quer fugir do perigo, depois de colocar em ação seus mecanismos lascivos e brincar bastante. Para isso é colocado frente aos enigmas propostos pela “moça bondosa/Esfi nge”, cujo teor é pleno de duplo sentido sexual. Nosso herói não acerta nenhum enigma, pois em todos sua escolha recai em uma interpretação sexual. O terceiro enigma é resolvido pela moça bondosa, uma paródia da “terrível cantadeira”, esta sim implacável, que a ninguém ajudava e a todos devorava. Enquanto a Esfinge de pedra encontra-se no Egito, junto às pirâmides, Mário transforma a filha bondosa em
cometa, para fugir ao castigo de sua mãe: “A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu. É u m cometa” ( ANDRADE,2000, p. 103).
A adivinha tem um trabalho de deciframento que, em sua etimologia nos esclar ece a respeito do mecanismo: “os gregos tinham duas palavras para adivinha: ainigma como correspondente griphos. Na primeira se não me engano, está implícito o fato do deciframento, ao passo que na segunda, que significa propriamente “rede”- a rede que nos aprisiona e cujos nós nos emaranham exprime-se melhor a perfídia da cifra”. (Jolles, apud Souza, 1999, p. 57). Nesse contexto, José Alcides Bezerra (1891-1938), em Antologia do Folclore Brasileiro (Cascudo, 2002), lembra que as adivinhas são figuras encontradas tanto entre os povos primitivos como nas grandes civilizações. Essas figuras desempenham um papel importante nas sociedades selvagens, poi s carregam em si as primeiras manifestações r udimentares da ci ência, expressando -se por meio de analogias e personificações, próprias de atividades mentais mais antigas. Geralmente as adivinhas se manifestam em versos, pois é mais fácil de memorizar um relato.
Souza (1999) enfatiza os dois epitáfios que ocupam um lugar especial em
Macunaíma, um no início, referente à sua mãe e o outro, no capítulo final “Ursa
Maior”, referente ao herói. O túmulo materno apresenta o aconteci mento da morte da velha Tapanhuma, sob a forma de um desenho pictórico. A autora destaca que, entre o epitáfio da mãe e do filho Macunaíma, há uma diferença importante: o primeiro é figurativo e o segundo está em escrita fonética, a frase do jabuti, fruto dos conhecimentos adquiridos por Macunaíma. A frase diz: “Não vim ao mundo para ser pedra”, o que nos dá indicação da linhagem do herói. A estreita ligação entre eles está no fato de que o herói é um descendente do jabuti, que a todos vence pela astúcia, r ecurso que livra Macunaíma de vár ias situações difíceis.
Seguindo essa interpretação, é possível notar, mais uma vez a fonte das lendas indígenas coletadas por Koch Grümberg (1953), no caso o relato do macaco e o jabuti, contado por Mayuluaípu, índio Taulipang. Dentre as várias histórias selecionamos a do Jabuti e o veado galheiro, que fala sobre uma corrida entre os dois animais . Este relato, com pequenas variações, pode ser encontrado na obra de Câmara Cascudo, baseado na coleção de lendas de Couto de Magalhães (2002). O
uso da fábula entre os povos primitivos tem uma função pedagógi ca, além, é claro, do profundo sentido simbólico presente nos relatos. Há sempre a intenção subjacente de transmitir a crença na supremacia da astúcia e inteligência sobre a força física. Nas palavras de Cascudo, “a inteligência e o savoir faire valem mais do que a força e a valentia” (2002, p.208).
O jabuti era ciente que não conseguiria vencer o veado pela velocidade, sendo ele um animal lento por natureza. Usando sua astúcia, fez um caminho curto e pediu aos parentes que ficassem em pontos estratégicos do trajeto. Durante a corrida eles deveriam responder ao chamado do veado, como se fosse o jabuti. O animal correu tanto que morreu de esgotamento. O veado apodreceu, transformou-se numa planta mágica que ajuda na caça do veado galheiro e o jabuti na planta mágica que ajuda na caçada do jabuti. Macunaíma identifica-se com o jabuti, pois ele é o último representante do clã deste ani mal.
O epitáfio da mãe é o seguinte:
Figura 1-
Fonte: SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2ed. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
Segundo Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore brasileiro, a prática de fazer inscrições em pedr as era comum entre os indígenas br asileiros. Esta escri ta foi considerada sem significado, mas mais tarde foi comprovada sua utilidade, como indicadora de caminhos, ou de locais fúnebres. Souza (1999) nos fala que essas inscrições eram chamadas “itacoatiaras”, vocábulo de origem tupi que significa ita – pedra e cuatiara – pintada, escrita. O epitáfio da mãe de Macunaíma é pleno de significados, com o desenho da mãe em forma de “viada parida” em um dos lados e
uma “cruz ansada ” egípcia no centro. Esta cruz tem u m significado que nos r emete à eternidade e, de forma sutil, lembra uma das civilizações solares. Do outro lado vemos uma figura de formato irregular, que lembra o desenho de uma pedra (notar que seria a inscrição de uma pedra em outra pedra, como um intratexto), e nela há quatro linhas, que representam os quatro membros da família do herói. Uma das linhas está cortada, o que indi ca que alguém já não faz mai s parte do grupo familiar.
Estes dois epitáfios apresentam, além de seus significados mais explícitos, outro mais significativo da discussão de Mário de Andrade em relação aos dois universos culturais que se defr ontam em Macunaíma . Não por acaso a primeira inscrição surge no segundo capítulo, bem no início da obra, delimitando assim um momento do herói, em que sua capacidade de significar o mundo estava bem limitada, presa à escrita figurativa, na qual os símbolos estão intimamente relacionados com os desenhos e o aconteci mento registrado.
O epitáfio em que o herói escreve na pedra que já foi jabuti,deixando o registro de sua linhagem, revela a passagem para o simbólico, ao mesmo tempo em que repudia o fato de ficar petrificado numa inscrição. Ao apropriar-se da escrita, Macunaíma sente-se aprisionado, sente-se sufocar e perde a graça de viver. Entende o caráter petrificador da escrita na voz que fala, que foi objeto de discussão na Antigüi dade, e o herói não aceita:
Plantou uma semente do cipó matanatá, filho-da-luna, e enquanto o cipó crescia agarrou numa ita pontuda escreveu na laje que já fora jabuti num tempo muito de antes:
NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA (Andrade, p. 157).
Nosso herói lembra as transformações que a natureza sofre, tanto que a laje foi jabuti, em tempos muito antigos, como se esta fosse um fóssil de um ser vivo, fato que ele não quer para si. Pedra por pedra, prefere ser uma que tenha brilho, ainda que ele seja descendent e da “raça primeira de todas”. Para Pauí-Pódole, o Pai do Mutum, o homem e sua cunhã nasceram da barriga do jaboti, e foram os primeiros habitantes da selva, dando origem às gentes da tribo Tapanhuma.
Com base nessas considerações, observamos que o português escrito é considerado por Macunaíma uma forma morta de expressão, se comparada à riqueza da oralidade. Por isto o herói decide gravar na pedra/jabuti seu desejo, sinalizando que não quer ser pedra, repudiando um destino que tem um significado de morte. Como diz Souza (1999), no primeiro parágrafo de seu trabalho A pedra do
discurso, Macunaíma está “situado no limite entre a civilização e a barbárie” (p.13).
Sendo uma personagem que trafega no limite, efetivamente Macunaíma não tem lugar. Ao fazer contato com a civilização foi contaminado, transformado e já não é mais o Imperador do Mato Virgem. Ao mesmo tempo não é um ser civilizado, pois sua índol e primitiva se manifesta nos mo mentos de desesper o.