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B. Start the System

E o a luno não saiu para estudar Pois sabia o professor també m não tava lá E o p rofessor não saiu pra lec ionar Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar No dia e m que a Terra parou (Raul Seixas “O dia em que a Terra parou”).

A epígrafe acima relata o momento em que os cidadãos resolveram não sair de casa, como que se fosse combinado, ninguém saiu de suas casas. O que isso quer dizer? Os alunos não saíram para estudar, pois o professor não estava na escola; e o professor não saiu para lecionar, pois não haveria para quem e o que ensinar. Isso aponta que a relação professor e aluno se faz pela sua dialética, em que um não é sem o outro, não se ensina a ninguém, sempre se ensina a alguém.

O que aconteceu é que a Terra não parou, foi apenas um sonho, ela está aí. Com isso, professores e alunos continuam frequentando as escolas, mas como está ocorrendo essa relação, de forma harmônica ou desarmônica? Em muitos casos, com angústias e transtornos entre as partes, devido à indisciplina escolar. Ela é apontada em ações avessas às regras e preceitos da instituição escolar e com uma complexidade que deve ser ponderada (GARCIA, 1999). Solucioná- la não é uma tarefa fácil, pois demanda tempo e ações efetivas no contexto escolar. Contudo, o que dificulta as ações é que, muitas escolas vivem sobre o império da regra heterônoma, indicando que as regras são verticalizadas, o que implica em dizer que “mais controle externo, corresponde a menos controle interno” (LA TAILLE, 2010, p. 13), dificultando ações altruístas. Além do mais, com muitas regras as escolas se esquecem de mencionar princípios para se viver com ética e valores morais.

Não há como fazer uma discussão simplesmente dos alunos, sem tratar as relações interpessoais de alunos e professores, as quais constituem as bases práticas do processo educacional, – juntamente com outros profissionais – mas comumente as principais reclamações partem deles devido a maior convivência na sala de aula. Na relação dos professores e alunos há a “manifestação de um conflito” (PARRAT-DAYAN, 2008, p. 8) causado pela relação cotidiana. Dessa convivência entre as partes derivam conflitos e angústias, atravessada por motivos mais variados possíveis: particulares, familiares, culturais, socioeconômicos e outros. Com isso, constitui-se uma relação do-discente encerrada por intempéries, em outras palavras, uma “geopolítica imaginária” (AQUINO, 1996), em que alunos e professores instituem no ambiente escolar uma relação de amor e ódio ao mesmo

tempo. Entre eles há um conflito de gerações (NETO; FRANCO, 2010) constituído pelas constantes mudanças históricas, sociais, políticas e econômicas, trata-se de um “conflito permanente” em sala de aula.

Quando os alunos apresentam um comportamento indisciplinado é sinal que algo na escola não está ocorrendo de maneira satisfatória para os mesmos, que acabam “reivindicando” mudanças, para que se realizem os propósitos da escola (uma educação que desperte o interesse dos alunos!). Ao não estarem integrados ao processo de ensino e aprendizagem passam a apresentar atitudes que causam preocupação à escola, são manifestações que surgem na forma de agitação ou contrária a ela, comportamentos de apatia e descomprometimento, dificultando o andamento das atividades escolares (TREVISOL, 2007).

De um lado, os professores desejam o silêncio e o interesse dos alunos. Por outro lado, os alunos buscam um professor motivador e aulas contagiantes. Assim, as partes tentam se defender de suas maneiras, por meio de vivências, informações, atitudes e experiências. A indisciplina escolar circula entre a desmotivação (ECCHELI, 2008), o desinteresse (TEIXEIRA, 2007) e o desrespeito às regras (ARAÚJO, 1996). Tais situações caracterizam a visão dos professores sobre os alunos. Pari passu, surgem queixas (SILVA, 2001), sofrimentos (NORONHA; ASSUNÇÃO; OLIVEIRA, 2008) e desgastes (ROSSO; CAMARGO, 2011). Nesse sentido, a indisciplina escolar atravessa esses males e desestabiliza as relações pedagógicas.

A geopolítica imaginária mencionada, se expressa quando os professores pensam conter os alunos e os alunos pensam controlar os professores. Disso resulta um constante campo de lutas, com batalhas imaginárias, sujeitas a ultrajes e prejuízos (AQUINO, 1996b). Os professores “contemplam o lugar discente como se fossem alunos; alunos espreitam o lugar docente como se fossem professores” (AQUINO, 1996b, p. 156). Ocorre uma inversão imaginária dos lugares constituídos, “com vistas à normatização da conduta do outro” (p. 156). Tal conflito de gerações “requer que um dos lados abra mão de alguma coisa, isto é, para o aluno, a obediência voluntária, para o professor a sua hegemonia de seu lugar” (p. 71). O que há é uma inveja instituinte, para controlar o lugar alheio, com a finalidade de “deter a normatização do espaço de sala de aula” (p. 156).

O que se evidencia é que os iguais se encontram e os diferentes se estranham, uma vez que “grupos de iguais organizam-se em classe e na vida” (PIAGET, 1994, p. 192). Explicarei melhor, os alunos no espaço da sala de aula fazem a turma (grupo) defendem os “seus” amigos e colegas, isto é, são solidários quanto a constrangimentos ou coações, talvez por

possuírem características de pertencimento e identitárias (ULLER, 2006). É um grupo com identidade própria, mas que recebe informações da mídia, dos adultos, dos professores e familiares. Suas representações têm certa convivência e solidariedade. Já os professores se protegem com representações externas, há um distanciamento e eles se tergiversam sobre a indisciplina, apontando causas externas à escola para justificar o problema (SANTOS, 2013). A representação do professor interfere/influencia, pois ele não se comunica simplesmente com o aluno, mas sim com o grupo, e exerce certo “poder”, ao ser o “portador” de conhecimento. Nessa geopolítica, os alunos parecem estar mais fortes, pois eles são o grupo em sala de aula, enquanto o professor é apenas um. Na verdade o professor não está na frente de alunos “individuais”, mas a um grupo de alunos com princípios internos, solidários, defensivos, isto é, com pertencimento (ULLER, 2006). A estratégia que o docente precisa ter é conquistar o grupo, já que os alunos formam uma “aliança” em sala de aula. É preciso transpor essa solidariedade dos alunos para a aprendizagem, isto é, para que os alunos se interessem e participem da aula e não apenas se unam quanto à ações de constrangimentos e coações que o professor ocasiona.

Os professores têm problemas pessoais, mas os alunos também têm. Com isso, é preciso saber apaziguá- los e deixá-los de lado (informação verbal8), se todos descontarem suas angústias e problemas em sala de aula, estará se esquecendo do papel primordial da escola da formação cidadã crítica e transformadora.

Um papel central que cabe ao professor é “delegar responsabilidade ao aluno, fazer devolução. Não se trata da minha vontade, mas do que vocês querem” (LERNER, 2008, p. 115). Delegar responsabilidade não quer dizer que sua ação é autoritarista, mas que compreende o aluno como sujeito ativo do processo educacional e percebe que “ensinar é promover a discussão sobre os problemas colocados, orientar para a resolução cooperativa das situações problemáticas” (LERNER, 2008, p. 120).

Os alunos possuem muita energia em sala de aula e essa energia é exponencial, precisa expelir para algum lugar e, quando o professor não gera o interesse, essa energia vira bagunça. Se a criança não encontra meios construtivos, ela gera meios desconstrutivos, expressos na agitação, bagunça, rebeldia e outras situações. O aluno fica apenas quieto e imóvel, fazendo com que essa repressão gere “neurose”, pois, se o aluno fica estático e sem fazer algo que o estimule, isto é, sem interesse, ele fica “neurótico”. Por isso, o aluno fica

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cultivando neurose em sala de aula e isso não é bom. A energia que o aluno possui poderia ser gasta positivamente no ambiente escolar, por exemplo, em atividades em grupos.

Há impregnada, em muitas escolas, uma moda, na qual o professor, para ser aceito entre os pares, acaba entrando no modelo adotado pelos seus companheiros, e que subsiste uma ideia perene que resiste as novas mudanças teóricas e práticas (ROSSO, 1995). Numa escola, alicerçada numa moral heterônoma e com professores heterônomos, refletem uma moral heterônoma aos alunos. Além dessa moda educacional, um conformismo é velado nas escolas, refletido em alguns professores conservadores, que não aceitam novas ideias, prosseguindo o sistema educacional arcaico (ROSSO; MAFRA, 2000).

1.5 Indisciplina escolar e suas associações com o desrespeito, bullying,