A aula do professor D antecedeu a prova, e por isso, todas as atividades propostas tinham como objetivo revisar a voz passiva. As provas da instituição enfatizam o uso correto das estruturas gramaticais ensinadas durante o curso. Dessa forma, a aula de revisão teve como tema um dos principais assuntos a serem testados nessa prova. Como veremos mais adiante, mesmo tendo o componente lingüístico como o principal assunto da aula, o professor esteve sempre preocupado em revisar o assunto com algum tipo de enfoque intercultural. Tal atitude mostra que é possível almejarmos o desenvolvimento da CCI mesmo em uma aula onde a competência lingüística é a atriz principal. O quadro apresentado na página seguinte resume os diferentes momentos da aula.
Etapa da aula Descrição da atividade Oportunidade de desenvolver a CCI?
Como? Isso foi
feito pelo professor? Warm up Tell me something that was
very good and something that was very bad about your week.
Relatos individuais dos alunos. Sim Da mesma forma sugerida para o professor C na aula 1. Acredita que sim.
Pre reading Song: My heart will go on Sim Exploring song lyrics
Não
Reading Ler o texto sobre o Titanic e preencher as lacunas com os verbos na voz passiva.
Sim Discutindo o texto sobre partes da estória do Titanic que foram omitidas ou modificadas. Não Practice (Passive voice) Expandir as sentenças colocando-as na voz passiva. Sim Escolhendo sentenças que levem a uma discussão posterior. Acredita que sim.
Production Game: Quiz Sim Sentenças
levam a discussão crítica dos temas abordados. Sim Controlled practice
Miming game: Alunos fazem a mímica para que os outros adivinhem a frase.
Não ___________ _________
Quadro 9 - Formulário de observação da aula do professor D
De acordo com as respostas do professor à entrevista (Ver APÊNDICE G), a aula teve como objetivo desenvolver a CCI dos alunos em dois momentos: a) durante a primeira atividade da aula, quando falaram sobre coisas boas e ruins que aconteceram durante a semana, e b) durante o jogo, quando criaram sentenças na voz passiva.
Entretanto, enquanto os alunos participavam da primeira atividade, o professor não levantou nenhuma questão para discussão ou fez comentários que pudessem levar os alunos a refletir sobre as suas ações de modo a entender melhor quem são e quais as representações culturais expressas por eles. Um aluno diz, por exemplo, “I got my driving license.” O professor lhe dá os parabéns e continua com o próximo aluno. Essa seria uma boa
oportunidade para discutir o valor de ter um carro, ou tirar uma carteira de motorista. Um outro aluno diz, “I cooked because I wanted to help my wife. It was very important for her. I made beans, rice and chicken.” A discussão sobre o papel do homen e da mulher passou despercebida. O professor ri, aponta para o aluno que falou e diz à turma, “See, you guys?”. Outros alunos abordaram temas como festas, livros sobre negros, e brigas com a mãe. Todos esses temas poderiam permitir discussões interessantes que revelariam mais sobre as identidades e culturas dos alunos. Outra possibilidade seria pedir aos alunos que trabalhassem em grupos e anotassem as diferenças e semelhanças entre as atividades que demonstrassem as diversas culturas, no sentido restrito, presentes no grupo.
O texto sobre o Titanic (Ver ANEXO G) tinha como objetivo praticar o uso da voz passiva. Entretanto, o professor poderia ter aproveitado a oportunidade e discutir, por exemplo, a omissão no texto de informações importantes sobre os passageiros. O texto só menciona que a primeira classe era luxuosa e seus passageiros passavam as noites no restaurante. Não há referência à classe pobre que viajava no porão do navio. O texto também afirma que muitos dos botes salva-vidas ficaram vazios porque muitas pessoas acreditavam estar mais seguras a bordo do navio. Ouvir a opinião dos alunos sobre esses dois pontos poderia revelar interessantes diferenças culturais na sala de aula.
Na atividade seguinte, os alunos deveriam escrever frases na voz passiva utilizando as palavras dadas pelo professor. Das 10 frases, duas continham as seguintes palavras: Carandiru/2005 e World Trade Center/Sep. 11th.
No jogo verdadeiro ou falso (Quiz), proposto a seguir, algumas sentenças produzidas incluíram assuntos como: 80% of the women in Italy are considered prostitutes; Nelson Mandela was imprisoned for 21 years; Rapadura was patented by Germany. É possível que esses alunos estejam mais conscientes das realidades sociais existentes ou a atividade anterior tenha contribuído de forma indireta para esses resultados. A frase sobre a rapadura, por exemplo, gerou uma discussão sobre um produto brasileiro ter sido patenteado na Alemanha. Os alunos demonstraram ter conhecimento dos problemas sobre patenteamento de produtos brasileiros por outros países. Teria sido interessante também discutir as quebras de patentes feitas pelo governo brasileiro como forma de contrapor o assunto, mas isso não foi abordado.
A conscientização desse professor da importância do desenvolvimento da CCI fica evidente na preocupação em incluir sentenças com temas controversos em exercícios mecânicos de gramática. Entretanto, como já foi mencionado anteriormente, esse treinamento está sendo feito às cegas, isto é, existe uma discussão sobre assuntos que podem desenvolver a
CCI do aluno, mas não há conscientização metacognitiva no aluno necessária para que o que está sendo feito em sala de aula tenha o efeito desejado. Gail Ellis (1999) afirma que é preciso desenvolver a conscientização metacognitiva do aprendiz através da reflexão e que isso deve ser feito de forma explícita. Segundo a autora, a conscientização metacognitiva inclui uma conscientização cultural que implica em
[...] envolver os alunos em atividades que tornem possível a descoberta de semelhanças e diferenças entre eles e outros povos, sob uma ótica positiva. O desenvolvimento da tolerância e de atitudes positivas em relação a culturas estrangeiras e seus povos levaria os alunos para longe de uma perspectiva monocultural e para mais perto de uma visão mais ampla do mundo.30 (ELLIS, G., 1999)
A análise das respostas do professor D ao YOGA demonstra que o professor possui um nível 4 de consciência intercultural e um nível 2 de conhecimento. Entretanto, as aulas e as respostas à entrevista mostram que ele tem um nível mais alto de conhecimento do que o revelado na auto-avaliação.