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Resilience in Healthcare: A Modified Stakeholder Analysis

14.2 Stakeholder Analysis

“O saber só emancipa se permite que eu o requestione e o reconstrua incessantemente” (Apap).

Entendemos que a capacidade de interagir com o saber, reformulando-o, acontece pela condição de confronto que o sujeito passa em relação aos saberes do mundo, saberes diversos e temporais. A sua ação no mundo e o questionamento sobre a realidade são características que só o sujeito que é passível de educação poderá exercer em relação ao contexto. A sua condição de sujeito está submetida à sua condição humana, singular e social. Humana, com seus desejos e incompletudes, social, através das relações que estabelece, e à sua singularidade, ligada à sua própria história, às suas interpretações e valores.

Advogamos por um sujeito social, epistêmico e afetivo, que por isso é um sujeito da educação. No dizer de Bernard Charlot (2000), isto significa que não se pode estudar educação sem considerar o sujeito, porque na educação estudamos a relação com o saber. Para ele, o/a aluno/aluna7 se constrói como sujeito, quando é capaz de construir sua própria experiência, não podendo assim reduzir o sujeito apenas à interiorização do social, pois ele também interage neste social. Lembremos que, neste sentido, Freire (2001) fala

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que “o homem é um ser de relações e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo” (FREIRE, 2001, p. 47). Acreditamos que através da educação o indivíduo possua outras formas de viver, interpretar e se relacionar com/no mundo.

O indivíduo poderá tornar-se sujeito autônomo ao viver/construir o conhecimento criticamente. Para sermos sujeitos precisamos das relações com o outro, com o mundo e consigo mesmo. Necessitamos de fatores internos e externos, dimensões objetivas e subjetivas. Contudo, a reflexão do homem sobre ele e as relações que estabelece com o mundo são primordiais para a legitimação do seu espaço como sujeito e cidadão.

O caráter de mudança na atualidade colocou em voga a pluralização das identidades e seus cruzamentos. As sociedades em constantes mudanças trouxeram impactos quanto às identidades culturais, pois são sociedades que não têm uma lei única de funcionamento. A globalização, fenômeno marcante nas mudanças contemporâneas, trouxe tensão entre o global e o local, minimizando distâncias e alterando características do homem individual e coletivo. As culturas locais se desintegram e as culturas globais passam a se fortificar, num movimento em que a estrutura de poder é econômica, política e cultural.

As mudanças levaram os indivíduos à descentração de suas identidades. A multidimensionalidade das realidades trouxe aos sujeitos uma negação das identidades culturais em que este poderia dialeticamente conhecer outras culturas e fazer conhecer a sua. A diversidade pregada mascara uma uniformidade, por vezes substantiva. Essa tendência, como afirma Gómez (2001), conduz a um equilíbrio de forças, dos interesses em jogo:

Os indivíduos são entidades singulares em permanente processo de construção, divididos entre os diferentes sistemas de categorização, normas de conduta, significados e expectativas que requerem os distintos cenários em que nos toca viver – cada dia mais, mais diferentes e mais efêmeros -, tentando elaborar um conjunto pessoal coerente, uma rede própria de significados com sentido, a partir de tão manifesta e freqüentemente contraditória diversidade (GÓMEZ, 2001, p. 44).

A construção do sujeito autônomo a partir das condições de rupturas e fragmentações que se impõe parece ser um desafio para o nosso tempo. As dúvidas que marcam o momento tendem a defrontar o sujeito com a construção se sua identidade e autonomia.

Outro importante autor já mencionado e que trata sobre a noção de sujeito é Stuart Hall (2002). Ele faz uma análise a partir dos vários momentos históricos pelos quais passamos, partindo da idéia de que a falta de estabilidade do mundo social está gerando novas identidades no indivíduo que fragmentado e disperso é requerido por mudanças das mais diversas direções. Hall (2002) analisa a noção de sujeito, abordando o sujeito moderno, o sociológico e o sujeito da pós-modernidade. Utilizamo-nos dessa análise na tentativa de melhor compreender este sujeito que constrói saberes e se constrói mutuamente.

O sujeito moderno, o sujeito do iluminismo, era centrado, portador da razão, buscava a racionalidade para pautar sua vida, acima de tudo. Era um sujeito individual, com identidade centrada de uma pessoa singular, era o “sujeito-da-razão”. Em seguida aborda o sujeito sociológico como concepção

interativa do eu, mas não sendo este, autônomo e existindo a partir das relações com os outros. Cita que

De acordo com essa visão, que se tornou a concepção sociológica clássica da questão, a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o eu real, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos oferecem (HALL, 2002, p. 11).

A respeito desse enfoque sociológico, Charlot (2000) menciona que a sociologia desprezou por muito tempo a concepção de sujeito para entender a sociedade, trazendo grandes dificuldades para seus estudiosos.

Hall (2002) continua sua análise quanto ao sujeito da pós- modernidade. Para ele, este possui uma identidade não fixa, devido estar num mundo em colapso, com a provisoriedade e variabilidade, em que as identificações com esses valores são temporárias. A identidade é compreendida como uma definição histórica, um processo construído ao longo do tempo. Hall nos faz lembrar que

A identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente (HALL, 2002, p. 12-13).

Dessa forma, as mudanças estruturais e funcionais ocorridas estão transformando as sociedades e fragmentando os contextos culturais. Essas mudanças imprimem às identidades dos sujeitos incertezas quanto a sua autenticidade e pessoalidade, integrados ao mundo social, afinal o sujeito só se torna sujeito quando aprende, mantendo relações com o mundo. O conhecimento é contextual, só adquire sentido se relacionado ao contexto.

Na construção das identidades se afirmam as diferenças, descobrindo os fundamentos das culturas, respeitando o outro e por conseguinte respeitando a diversidade. Acreditamos que estes são passos importantes para o homem, na conquista de sua autonomia e liberdade. Autonomia e liberdade que são fatores definidores na construção da identidade para tornar-se sujeito. A liberdade a qual nos referimos é a liberdade de escolha e poder de decisão diante das possibilidades que lhes são apresentadas, assim como a capacidade desses sujeitos de não aceitar o que lhes é posto, como algo pronto, mas acreditar na sua criticidade e reflexão diante da realidade, no intuito de ser construtor desse contexto social. E a autonomia significa o respeito às diversidades e a responsabilidade de cada sujeito sobre o seu entorno.

A respeito da instabilidade atual que impele opções por valores desconhecidos e às vezes contraditórios, Paulo Freire (2001) referencia que é necessário perceber o que o tempo nos coloca, pois este é um tempo marcado por opções e desafios. Adverte-nos que

A fim de que possa perceber as fortes contradições que se aprofundam com o choque entre valores emergentes, em busca da afirmação e de plenificação, e valores do ontem, em busca de preservação. É este choque entre um

ontem esvaziando-se, mas querendo permanecer, e um amanhã por se consubstanciar, que caracteriza a fase de trânsito como um tempo anunciador (FREIRE, 2001, p. 54).

Logo, analisar a situação contemporânea implica a análise do pluralismo das identidades e da realidade. Essas realidades estão relacionadas aos contextos sociais dos homens, por isso são diversas, e a identidade tido como processo construído social e historicamente. Identidade construída na experiência, através do tempo, mas submetida constantemente à reflexão crítica e criadora do sujeito. Tempo social que fornece saberes variáveis e plurais, advindos de várias fontes. Isto significa compreender que existe uma dialética entre cada humano e sua situação sócio-histórica. Portanto, a inclusão do tempo, da história e do homem gera sempre o novo, sendo premissas importantes para a compreensão e a transformação, ou seja, para a construção do conhecimento.

A partir das relações que estabelece com o mundo e sua realidade, o homem vai (re)criando e dinamizando esta realidade. Ele vai adicionando a ela seu traço de humano e singular. Para Freire (2001), esta é a possibilidade de decisão sobre os momentos históricos e conseqüentemente a oportunidade de participar integrando-se, e não ajustando-se, acomodando-se ou adaptando-se ao contexto.

Assim, podemos dizer que o homem está por completo na construção do conhecimento, uma vez que esta se traduz na construção de sua própria história. Logo,

Se é verdade que o ser humano precisa de paradigmas para construir o seu conhecimento, também é verdade que toda representação do real por ele construída passa necessariamente por uma (re)significação desse real, sempre mediatizada por esse sujeito do conhecimento, em todas as suas dimensões, quais sejam, como sujeito cognoscente, como sujeito apaixonado, como sujeito de relação e contextualizado (ALMEIDA e SILVA apud BRANDÃO, 2000, p. 55-56).

Na construção do saber, o sujeito estabelece uma confrontação interpessoal e identitária, pois além de estabelecer uma relação com o mundo e com os outros, relaciona-se consigo mesmo. A relação com o saber é construída pelo sujeito que não é só sujeito de razão, mas de desejos, utopias, ideologias e valores em relação permanente com suas características afetivo- cognitivas. Assim, entendemos que os saberes são resultados de experiências pessoais e sociais, nas quais sujeitos e saberes se constituem numa relação sócio-cultural, ativa, simbólica e temporal.

Esse núcleo de referência para o diálogo com outros saberes serve-nos de marco para entendermos a construção dos saberes docentes que são resultado da problematização das práticas e das experiências dos/das professores/professoras. É a partir desse aporte que trabalharemos o capítulo posterior, entendendo que a cultura escolar nas instituições de Ensino Médio é marcada por influências externas e internas à escola, onde os/as docentes são convidados a investir saberes pessoais e profissionais, a fim de entender seu contexto e sua tarefa educativa com propósitos sociais.

CAPÍTULO II – Saberes docentes, Ensino Médio e Cultura