APPENDIX C RADIX 50
CHAPTER 11 SRCCOM, SOURCE COMPARE UTILITY PROGRAM
Como acontece na poesia lírica em geral, a “Mensagem” a que se refere o livro ora em análise não poderá ser compreendida antes de entusiasticamente lidos, sentidos e interpretados os poemas. Nessa etapa de experiência com a leitura, perguntas e respostas não são significativas para a apreensão do que supomos ser sua mensagem poética. Entretanto, a secura argumentativa dos símbolos articula-se de tal modo ao estilo fragmentário dos poemas, que o leitor se depara muitas vezes diante de um impasse quanto à clara compreensão dos versos que ali se enunciam. Sem se confundir com o organização lógico-causal de formas argumentativas, como nos gêneros narrativos em prosa, ou com argumentos demonstrativos a partir de ideias abstratas, como nas ciências matemáticas, os poemas de Mensagem causam uma sensação de estranhamento quanto à sua carga especificamente simbólico-argumentativa. Surge sempre uma pergunta: trata- se de um conjunto de poemas arquitetado com o intuito de transmitir uma percepção estética da história portuguesa ou de uma argumentação hermética em defesa de uma determinada visão de mundo? Em suma, não parece muitas vezes que os poemas procuram transmitir valores que precedem, atravessam e prosseguem para além da forma poética?
Um motivo para esse impasse está no fato de a maior parte dos poemas serem abstraídos de situações concretas, ou as situações que neles se apresentam serem propositadamente irrelevantes. O que prevalece é sempre o poder simbólico da linguagem com relação ao que o poeta compreende por modos verdadeiros de ver, pensar, sentir e agir. Mesmo quando a situação aparece com maior ênfase, ela ainda se submete à força sugestiva dos símbolos. A exposição simbólica dos limites da designação linguística e da
123 intencionalidade da consciência aponta sempre na direção de um plano objetivo de composição, que aparece não apenas como horizonte formal da expressão poética, mas também como predisposição existencial do poeta ortônimo com relação ao contexto histórico português. 141
Desde o romantismo alemão, passando por diversas vanguardas, sobretudo, a partir de Mallarmé, os poetas têm abandonado a prerrogativa subjetivista da poesia lírica como expressão dos estados de alma do poeta, para assumir uma atitude interrogativa sobre a função simbólica do poema enquanto idealização linguística e as exigências mínimas para sua composição. Desde então, o sujeito da escrita não se encontra aquém ou atrás da obra, como autor empírico ou como eu lírico, mas in litteris, como algo impresso na estrutura material da linguagem (o som, o sentido, a sintaxe) e que se manifesta sob a forma também material da leitura e da escrita. Com isso, o autor passa a exercer função interna à forma poética, concebida como algo que se autoengendra a si mesma através da oposição entre seus enunciados e seu potencial para gerar múltiplas enunciações. Levada às últimas consequências, essa concepção implica no completo abandono da prerrogativa idealista e subjetivista sobre a obra de arte.
Assim como para F. Schlegel, Novalis e Mallarmé, a poesia ortônima de
Mensagem deve romper com os limites impostos pela linguagem, não apenas no sentido
de transgredir as formas de pensar que ela cristaliza, como também de liberar as formas de ver, sentir, pensar e agir que ela oculta ou paralisa. Mas o que distingue o poeta ortônimo dos românticos e de Mallarmé? O fato de que a questão sobre a função simbólica do poema não ser o foco de suas preocupações. Nos poemas de Mensagem, o autor também não se encontra aquém ou atrás da escrita, pois sua existência como autor de uma forma heteronímica já é prova suficiente de que o heterônimo nada mais é do que a forma poética em movimento. Mas ao invés de limitar-se à explicitação de seu movimento interno, Fernando Pessoa ortônimo ultrapassa o fechamento objetivo da forma autorreflexiva, como personagem que busca fora de si, na não-identidade da forma, uma razão doadora de sentido à sua existência enquanto personagem heterônimo. Não-
141 A poesia, para Sartre, encerra um mundo fechado em si, resultante do aniquilamento da possibilidade de
comunicação engajada na relação da linguagem com o mundo. (SARTRE, J.-P. Qu’est ce que la
littérature?). Aplica-se, portanto, apenas parcialmente à Mensagem o diagnóstico de Sartre sobre o
fechamento objetivo da forma poética. A abstração de situações concretas não compromete a hipótese de uma escrita poética engajada na transmissão de uma determinada atitude existencial.
124 identidade exterior que, uma vez enclausurada na forma poética, sua subjetividade heteronímica não parece ser capaz de exprimir.
Os 44 poemas-fragmentos de Mensagem não são apenas um meio de acesso ou transgressão da universalidade histórica da literatura, mas, antes de tudo, um exercício de apreensão dessa exterioridade tornada opaca pela linguagem. Por esse motivo, a poesia do poeta ortônimo não será, à maneira da greve literária142 de Mallarmé ou da ironia romântica, uma recusa ao mundo exterior à forma poética. À semelhança do cuidado matemático quanto ao rigor objetivo com que constrói a estrutura rítmica e simbólica dos poemas, está em jogo em sua poesia uma forma de investigação sobre os modos como a linguagem se defronta com a dificuldade de exprimir o nexo que a liga à cultura, interrogando-se não apenas sobre o modo como a palavra escrita transgride a página em branco da literatura, mas também os modos como ela pode ser usada para prever, desviar e agir no ambiente naturalizado da cultura.143
Pode-se dizer que interessa aos românticos e à Mallarmé a possibilidade idealista de superação dos limites da linguagem reificada pela torção autorreflexiva da forma poética. Fernando Pessoa ortônimo, porém, busca não apenas o distanciamento da forma com relação à história, mas também uma maneira de remetê-la com novo impulso em direção a sua origem histórica, pela busca de um sentido que em geral escapa ao simples ato de enunciação. Ora, os símbolos não encontram a maneira adequada para exprimir o sentido encoberto pela linguagem reificada sem abandonar por completo sua face subjetivista e idealista, à medida que realizam o esforço de transfigurar a expressão e a significação em prol de uma designação negativa da visão que as contempla na escritura. Assim, ao visar a forma verbal, estática e concreta do sentido oculto nos poemas de
Mensagem, importa à forma poética apreender os modos como a página em branco reflete
a lucidez do sentido friamente calculado pelo poeta para fora da escritura, iluminando, através do olhar reflexivo do leitor, o mundo exterior a ela.
142 Cf. ensaio de Augusto de Campos, “Mallarmé: o Poeta em Greve” in Campos, A.: Pignatari, D.; Campos,
H. Mallarmé, pp.23-28.
143 “De fato, desde que uma palavra esteja escrita na página em branco, ela deixa de ser literatura. Quer
dizer que cada palavra real é de certo modo uma transgressão da essência pura, branca, vazia, sagrada da literatura que faz de toda obra não a realização da literatura, mas sua ruptura, sua queda, seu arrombamento”. (FOUCAULT, Michel. Literatura e linguagem, in Roberto Machado, Foucault, a
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