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O elemento essencial para a compreensão da formação da grande indústria capitalista é o grandioso aumento na produtividade do trabalho mediante a incorporação da máquina-motriz, a qual atua como força motora de todo mecanismo. A incorporação da maquinaria moderna pela indústria aumentou gigantescamente a produtividade do trabalho, que nada mais é do que o volume crescente dos meios de produção em comparação com a força de trabalho neles incorporada (MARX, 1867). O capital se fez a partir da mais-valia proporcionada pela exploração do trabalho humano120. A maquinaria acelerou o processo de mais-valia relativa, por meio da redução do tempo de trabalho necessário para gerar o salário do trabalhador121.

120 Somente o trabalho humano cria o valor. A maquinaria não cria valor, mas

transfere seu valor ao produto encarecendo-o proporcionalmente ao seu valor que se apresenta maior do que os meios de trabalho do artesanato e da manufatura. Porém a máquina é um elemento formador de valor e formador do produto. Conforme Marx (1867, p. 441), “[...] todo instrumental de trabalho entra por inteiro no processo de trabalho e sempre por partes, na proporção do seu desgaste médio diário, no processo de formação do valor”. Pelo fato da máquina ter uma vida mais longa do que a ferramenta, possibilita maior economia no desgaste de suas partes componentes e de seus meios de consumo. E por ter uma produtividade incomparavelmente maior do que a ferramenta a diferença entre utilização e desgaste é muito maior na maquinaria. Ou seja, a máquina possui um tempo de duração e uma produtividade muito maior do que a ferramenta, assim parcelas pequenas do seu valor são agregadas no valor das inúmeras mercadorias que ela produz ao longo do seu tempo de uso. Esse valor ainda é diminuído pelo trabalho que a máquina poupa, pois a produtividade da máquina se mede pelo grau em que ela substitui a força de trabalho.

121 Sabe-se que o lucro do capitalista é realizado a partir do trabalho não

pago, a mais-valia, a qual pode ser obtida através do prolongamento da jornada de trabalho (mais valia absoluta) ou da redução do tempo e das mudanças de proporção ente os dois componentes da jornada de trabalho: a mão-de-obra e os meios de produção (mais valia relativa). A maquinaria realiza a mais-valia relativa responsável por baratear o produto com o aumento da produtividade. Ver mais sobre mais-valia em Marx (1867).

No entanto, essa não é a primeira forma de indústria no modo de produção capitalista. Entende-se, assim como Lenin, que se debruçou para explicar o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, que a pequena produção mercantil constitui as bases para o desenvolvimento do capitalismo e que o artesão tem os mesmos interesses de classe dos grandes industriais, constituindo-se em um pequeno burguês que divide seu tempo em diversas atividades e produz em pequena quantidade para um mercado regional, empregando, quando necessário, pequeno contingente de mão-de-obra.

O artesão ao se desvincular das atividades agrícolas e se especializar em uma ou poucas atividades produtivas, intensificou a divisão social do trabalho. À medida que o mercado se alargou e que surgem novos fabricantes, o pequeno produtor mercantil efetivamente monopolista em sua região é ameaçado e passa a defender seus interesses de classe que são idênticos aos interesses dos grandes industriais. “Se o grande industrial não recua diante de nada para assegurar-se do monopólio, o camponês- Kustar é, sob esse prisma, o seu irmão” (LENIN, 1899, p. 219).

A concorrência pelo mercado deu lugar a produção por meio da manufatura, que nada mais é do que o esfacelamento do trabalho artesão e a junção de diversos artesões trabalhando no mesmo estabelecimento sob as ordens do mesmo capitalista. Processo chamado por Marx de cooperação122. O período manufatureiro desenvolveu os primeiros elementos científicos e técnicos da grande indústria, pois as ferramentas manuais transformaram-se em um aparato mecânico ainda que a força motriz fosse o trabalho humano123.

122 Na manufatura a produção de mercadoria pode ocorrer com a organização do

trabalho em duas formas: na primeira forma, os trabalhadores de ofícios diferentes são reunidos em uma oficina sobre o domínio do mesmo capitalista e cada artífice faz uma parte da mercadoria. É uma combinação de artífices autônomos. Na segunda forma, os artesoes são também reunidos em uma mesma oficina sob o domínio do mesmo capitalista, mas são trabalhadores da mesma espécie de mercadoria, que continuam trabalhando conforme o seu antigo modo artesanal. Contudo para aumentar a produtividade e cumprir os prazos de entrega, o trabalho é dividido. As funções para fabricação de uma mercadoria são isoladas e cada artificie executa uma parte, transformando assim, a mercadoria em um produto social de vários artífices que realizam a mesma tarefa parcial initerruptamente (MARX, 1867).

123 A manufatura criou uma nova força produtiva de trabalho como forma

especificamente capitalista, ela desenvolveu as forças produtivas do trabalho através da mutilação do trabalhador e novas condições de dominação do capital

As fábricas artesanais de cerveja que evoluíram para uma produção industrial na virada do século XIX para o século XX foram, sobretudo, as que estavam instaladas no Sudeste do país. Assim como chamou atenção Lenin (1899), foram os artesãos instalados nas cidades que estiveram na base do desenvolvimento de pequenas oficinas artesanais em manufaturas e em grande indústria e não os artesãos rurais, por isso, no Sul do Brasil poucas fábricas de cerveja evoluíram para uma produção industrial na virada do século XIX para o século XX.

A Região Sudeste era onde se concentrava a maior parte do mercado, mas a indústria cervejeira também era beneficiada pela facilidade nas trocas comerciais, pois ali chegavam com maior frequência os navios vindos da Europa, de onde era adquirido o maquinário e a matéria-prima para a produção. Outro fator relevante para explicar porque poucas empresas artesanais se tornassem industriais, era o alto investimento em equipamentos para a produção de cervejas de baixa fermentação.

O desenvolvimento dos transportes permitiu levar para regiões mais longínquas os produtos industriais, visto que era mais vantajoso comprar a cerveja que chegava às vendas locais do que produzir. A bebida industrial que chegava às vendas apresentava maior qualidade em baixa fermentação do que as produzidas artesanalmente. Entretanto, as cervejarias artesanais ainda encontraram espaço no mercado no início do século XX, porque suas cervejas eram vendidas por preços menores do que as bebidas industriais. “Enquanto que em 1908 se pagava 750 réis por uma garrafa de cerveja de baixa fermentação, ou seja, industrial, uma garrafa de alta fermentação custava 240 réis” (KOB, 2000, p. 40).

As cervejarias Brahma e Antarctica dispunham de altos valores de capital fixo, bem como, uma rede de distribuição além das possibilidades de uma simples empresa e, ainda, a capacidade de custear o aprimoramento de seus trabalhadores no exterior.

Em 1900, a Antarctica era a maior empresa em quantidade produzida, mas a Brahma introduziu equipamentos industriais e, logo em seguida, tornou-se a maior empresa do país, como pode ser observado no quadro 7.

Conforme apresentado no quadro 7, a Brahma dispunha de 200 trabalhadores em 1907 e produção de 80.000 hectolitros em 1910,

sobre o trabalho e transformou a coerção em exploração civilizada e requintada (MARX, 1867).

quantidade que representava 13,5% da produção brasileira de cerveja nesse ano124.

A Brahma foi fundada em 1888, a partir da associação entre o imigrante suíço Joseph Villiger, o qual trouxe o equipamento de produção de seu país de origem e os brasileiros Paul Fritz e Ludwig Mack, no entanto, a cervejaria foi adquirida pelo também imigrante Georg Maschke, em 1894. O recém-chegado da Alemanha Georg Maschke trabalhava em uma cervejaria em Nuremberg, Sul da Alemanha, como limpador de barris, e veio para o Brasil com a intensão de montar uma cervejaria. Ao adquirir a manufatura, Maschke reestruturou-a com equipamentos industriais.

Outras grandes empresas do país no início do século eram a Guanabara no município de Guanabara (Rio de Janeiro), a Bavaria, a Atlântica e a Babilônia. Do total de 18 empresas apresentadas, nove foram adquiridas pela Antarctica e Brahma no decorrer dos anos 40 e 50, e seis desapareceram do mercado.

Quadro 7 – Fábricas de cervejas industriais no Brasil 1888 – 1930

Cervejaria fundação Ano de Local Operários Produção (hl/ano) Brahma 1888 Rio de Janeiro 200 - 1907 80.000 - 1910

Guanabara 1912 São Paulo 30 - 1900 60.000 - 1900

Antarctica 1885 São Paulo 1.300 – 1920 50.000 - 1904

Bavaria 1877 São Paulo 350 – 1905 40.000 - 1905

Atlântica 1901 Curitiba/PR 49 – 1928 33.000 - 1925

Babilônia - Distrito Federal 25.000 - 1899

Christoffel 1874 Porto Alegre/RS 20 - 1907 13.400 - 1880

Logos e Co. Distrito Federal 28 - 1888 12.000 - 1988

Bohemia 1853 Rio de Janeiro 41 - 1907 12.000 - 1899

Becker 1879 Porto Alegre/RS 90 - 1914 12.000 - 1889

Rio Brau - Distrito Federal - 8.000 - 1899

Adriática 1919 Ponta Grossa/PR 132 - 1928 6.000 - 1911

Klinger - Porto Alegre/RS - 3.000 - 1890

Catharinense 1923 Joinville/SC 80 - 1928 1.800 - 1928

Continental 1924 Porto Alegre/RS - -

Germânia - Juiz de fora/MG 30 - 1907 -

Hanseática 1912 Distrito Federal - -

Paraense - Belém/PA 80 – 1907 -

Fonte: Kob, 2000. Organizado pela autora.

*Distrito Federal era o município da Guanabara no Rio de Janeiro.

De 1880 a 1928, a produção cervejeira do país estava concentrada nas regiões Sul e Sudeste. Em 1920, o Brasil produzia 86% de sua cerveja no Sudeste e 12% no Sul, onde se concentravam a maior parte da produção e da renda. Norte e Nordeste praticamente não consumiam o produto, embora a cervejaria Paraense tenha iniciado sua produção no início do século XX e em 1907 já apresentava 80 trabalhadores.

As cervejarias Brahma e Antarctica depois de equipadas com maquinaria industrial no final no século XIX iniciaram a produção em escala e passaram a adquirir cervejarias concorrentes. No Rio de Janeiro, a Brahma fundiu-se com a cervejaria Teutônia, em 1904, e adquiriu a Guanabara, em 1921. No estado de São Paulo, a Antarctica já havia criado sua primeira filial em Ribeirão Preto e adquirido o controle da cervejaria Bavária também logo no início do século.

No estado do Rio Grande do Sul, as principais indústrias cervejeiras concentravam-se na região de Porto Alegre, sendo as de maior destaque: a cervejarias Continental (formada pela fusão das cervejarias Bopp, Sassen e Ritter) e Polar. No Paraná, a produção se concentrou na região Centro-Sul. Além das cervejarias Adriática e Atlântica dispunha a Cervejaria Oceana, antiga fábrica de Friedrich Wilhelm Metzenthin, em Ponta Grossa. O Estado de Santa Catarina contava com a Cervejaria Catharinense, em Joinville e Minas Gerais com a Cervejaria Germânia, em Juiz de Fora.

Segundo dados do IBGE (2013), em 1907 existiam 186 fábricas de cerveja no Brasil, empregando 2.942 funcionários com valor da produção estimado em 22.686 contos de reis. A indústria cervejeira estava entre os 10 setores industriais com maior valor da produção, ficava atrás somente da usinagem de açúcar, produção de calçados, manuseio do charque, fiação e tecelagem do algodão, fundição e obras de metais, moagem de cereais e serrarias e carpintarias.

Das 186 cervejarias existentes em 1907, 133 eram pequenas fábricas operadas manualmente, 53 eram fábricas movidas a energia, e

dessas, as quinze maiores eram responsáveis por três quartos da produção, com 85,5% do capital, 90,4% da potência instalada e 60% da mão-de-obra ocupada. As três maiores indústrias eram a Companhia Cervejaria Brahma, Companhia Antarctica Paulista e a Fábrica de Cerveja Paraense, as quais controlavam mais de 50% do mercado, 62,9% do capital, 68% da potência instalada e 47,3% da mão-de-obra empregada (SUZIGAM, 2000). Demonstrando a concentração de capital no setor cervejeiro nacional no início do século XX.

Nos dados apresentados no gráfico 18, pode-se analisar a variação no número dos estabelecimentos industriais segundo número de funcionários. A primeira coluna demonstra que mesmo com a formação de grandes empresas, no início do século XX surgiram pequenas empresas produtoras de cerveja: o número de estabelecimentos de 1 a 4 trabalhadores passou de 93 para 130. Por outro lado, há um processo de concentração de capital, pois diminuiu o número de empresas de 5 a 49 trabalhadores, (86 para 65), ao passo que, ocorreu o aumento do número de estabelecimentos de 50 a 99 trabalhadores, (3 para 11). E houve o aumento do número dos estabelecimentos de 100 a 499 trabalhadores e de 500 trabalhadores a mais, de 2 para 6 e de 1 para 2, respectivamente.

Gráfico 18 – Estrutura da indústria cervejeira segundo funcionários em 1907 e 1920

Fonte: Kob, 2000.

O capitalismo pressupõe a constituição de grandes empresas e a soberania dessas no ambiente competitivo. A produção de escala surgiu no final do século XIX, juntamente com a expansão e consolidação do

sistema de transportes125. No final do século XIX e início do século XX, nos países onde o capitalismo se fazia mais avançado constituíram-se indústrias dinâmicas que atingiram economias de monopólios. Conforme Chandler (1962), as empresas dominantes são aquelas que são impulsionadas pela lógica dinâmica de crescimento e competição, pois esse é o fundamento do capitalismo moderno. As grandes fábricas podem produzir a custos muito inferiores do que as pequenas unidades, pois o custo cai à medida que o volume de produção aumenta.

A grande empresa tornou-se extremamente eficiente e, sem precedentes, a maior promotora da ciência e da tecnologia e sua utilização na produção de mercadoria e na “domesticação” do trabalho. Os homens especializaram-se e foram aprisionados pela divisão social do trabalho, tendo o salário como única justificativa para o trabalho. O indivíduo foi comprimido pela racionalização do trabalho e a luta patronal contra o ócio operário atingiu patamar superior ao já registrado. A moral do trabalhador passou a ser conduzida pelas punições econômicas, policiais e dos tribunais, já que o capitalismo monopolista foi incapaz de criar uma nova moral para conduzir o comportamento dos indivíduos (BARAN; SWEEZY, 1966).

2.4 O ciclo médio e a expansão das empresas Brahma e Antarctica

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