Perguntando mais uma vez pelo impacto da situação tributária sobre mulheres, dispomos novamente de análises de Pollock, principalmente baseadas em estudos de Gelb, Mieroop e Hartmut Waetzold443. Graças à existência de fontes filológicas, esses estudos diferenciam não apenas entre
homens e mulheres, mas também entre pessoas adultas e crianças. Enquanto não há dados para
households familiares, sabe-se que tanto as households de palácios como as de templos
441 Cf. também as análises de DIAKONOFF, Igor M. Main Features of the Economy in the Monarchies of Ancient Western
Asia. In: Congress at Colloques, 10,3. Paris: Sorbonne, 1969, 26-29; IDEM. The Paths of History. Cambridge: Cambridge University Press, 1999, 172-184; MAISELS, 150-152.
442 ASHER-GREVE, Frauen, 170.
443 GELB, Household, 75-77; MIEROOP, Marc van de. Women in the Economy of Sumer. In: LESKO, Barbara. Women’s
earliest records from ancient Egypt and Western Asia: Proceedings of the Conference on Women in the Ancient Near East, Brown University, Providence Rhode Island, November 5-7, 1987. Atlanta: Scholar Press, 1987, 53-66 (aqui: especialmente 63); WAETZOLDT, Hartmut. Untersuchungen zur neusumerischen Textilindustrie. Roma: Centro per le Antiquità e la Storia dell’Arte del Vicino Oriente, 1972, 279p.
“empregaram” um grande número de mulheres e crianças escravas que, em sua maioria, eram prisioneiros de guerra (homens capturados na guerra eram geralmente mortos, mas há notícias de prisioneiros de guerra “doados” ao templo). Ao lado delas trabalhavam tanto pessoas adultas como crianças de ambos os sexos em regime de escravidão por outros motivos (venda por endivid amento etc.), e em outras formas de trabalho dependente ou de corvéia. Especialmente a produção de roupas era quase exclusivamente executada por mulheres e crianças (tosquiar as ovelhas, fiar, tecer, costurar e lavar as roupas), e deve-se lembrar que tecid os e roupas eram um dos principais artigos de exportação.444 Pollock conclui suas análises com as seguintes observações:
As mudanças provocadas pela introdução da economia oikos reverberaram em toda a sociedade mesopotâmica. Papéis e relações de gênero estavam entre os âmbitos que devem ter sofrido o maior impacto. Vimos que o trabalho de mulheres em empresas como produção de roupas contribuía grandemente com a economia política. Muitas vezes, mulheres tinham uma responsabilidade substancial pela reprodução social, através da criação de filhos e filhas, preparação dos alimentos e uma miríade de outras tarefas domésticas. Com a emergência da oikos, o contexto da reprodução social sofreu, para muitas pessoas, uma mudança radical, tirando-as do contexto familiar e doméstico e localizando-as primariamente dentro de uma
oikos. À primeira vista, a separação da reprodução social de contextos domésticos pode parecer libertador para mulheres,
mas um olhar atento sugere algo diferente. Mulheres (e homens) trabalhando para uma oikos perderam o controle sobre o uso dos produtos de seu trabalho. Além disso, o contexto social do local de trabalho foi radicalmente alterado. Textos mencionam grupos de trabalho altamente especializados que executavam tarefas altamente repetitivas, em contraste com grupos cuja composição, estrutura e plano de trabalho eram definidos por seus membros. A crescente diferenciação entre formas e contextos de trabalho parece ter aumentado, entre mulheres, as diferenças baseadas em classes. Até crianças foram incluídas na economia oikos, como uma componente significativa de mão de obra.445
Dispomos ainda de análises de questões de gênero acerca das sepulturas “reais” de Ur, oferecidas também por Pollock que dedicou sua tese de doutoramento a esse assunto. Apresento aqui um resumo atualizado.446 Sempre alertando sobre o infeliz fato de que, das escavações nos anos 20 e
30 do século 20, não participaram especialistas que pudessem examinar os esqueletos, ela afirma como dado básico mais comum a forte divisão segundo gênero e classe que se manifesta nos enxovais funerários. Mulheres da elite estavam acompanhadas de brincos e colares, e de jóias para a cabeça (fitas, coroas, grinaldas, toucados e objetos chamados pelos escavadores de “pentes”447), tudo feito de
metais e pedras preciosos e com altíssima qualidade artística. Homens da elite estavam acompanhados de machados, punhais ou facas, pedras de amolar e fitas para enfeitar a testa, também tudo isso extremamente precioso. Pollock chama a atenção para a enorme diferença no caráter desses conjuntos: mulheres da elite eram “exibidas” em sua riqueza e em seu status por jóias, mas de modo passivo. Homens da elite também eram “exibidos” segundo sua riqueza e posição, mas os objetos são
444 Cf. POLLOCK, Mesopotamia, 119-123; LIVERANI, Uruk, 36-40. Liverani chama a atenção especialmente para o caráter
“seqüencial” dessa produção que exigia uma administração muito mais complexa do que a produção, armazenamento e redistribuição da cevada.
445 POLLOCK, Mesopotamia, 147-148.
446 POLLOCK, Susan M. The Symbolism of Prestige: An Archaeological Example from the Royal Cemetery of Ur. Ann Arbor:
University of Michigan, 1983, 408p; POLLOCK, Women, 366-387, especialmente 372-379.
447 Trata-se, por exemplo, de um “raminho” cuja ponta é composta por três rosetas de oito pontas. Esse tipo de jóias servia
para ser preso nos cabelos, semelhante ao modo como se costuma prender flores vivas atrás da orelha ou nos cabelos; cf. o gráfico em POLLOCK, Women, 375.
majoritariamente relacionados com uma atitude ativa (ferramentas e armas). Também homens da “não elite” estavam acompanhados de machados ou punhais (de materiais e acabamento inferiores), enquanto mulheres da “não elite” literalmente ficavam invisíveis, (também) na morte: não foram encontrados objetos que as acompanhassem e identificassem em algum papel ou função.
Outra contribuição para questões de gênero vem de Bahrani que analisou as estátuas votivas e chegou ao resultado de que, exceto a estátua de Urnanše, o Cantor, que apresenta características ambíguas ou andróginas448, estátuas do PDI são
em geral bem claramente caracterizadas como ou femininas ou masculinas, por meio de inscrições, vestimentas, penteados etc., numa estrita convenção de formas masculinas e femininas, com poucos elementos para diferenciá-las em outros aspectos, como indicações de idade, estatura corporal ou feições faciais.449
Depois de demonstrar que a distribuição numérica de estátuas femininas e masculinas preservadas não pode ser utilizada para tirar conclusões acerca da condição econômica de homens ou de mulheres, Bahrani sugere avaliar essas estátuas principalmente como um lugar onde pode ser inscrita a diferença sexual. Sendo que representavam a presença plena da pessoa diante de uma divindade, em oração “perpétua” – de modo muito mais personalizado e duradouro como, por exemplo, uma vela acesa diante da imagem de um santo na tradição católica –, esse sentido de “durabilidade fixada” é esculpida na imagem. Além disso, a imagem não é destinada a pessoas vivas que realizassem através dela um culto de ancestrais ou de um ser humano divinizado. É destinada a “agradar a divindade” diante de cuja face será instalada, e é diante dela que a “essência” da pessoa está sendo tornada presente. Sendo que essa essência é sempre dotada de construções de sexo e de gênero, essas construções precisam estar codificadas nessas estátuas. Bahrani afirma a esse respeito: ...certos aspectos da imagem precisam ser distintivamente femininos, para que ela possa funcionar como uma imagem votiva válida: objetos de vestimenta e de jóias, proporções do corpo com uma leve modelação dos seios, o penteado, e também o tipo da inscrição votiva. Estas são as características visíveis que podemos elencar como características que marcam uma estátua votiva como feminina. Não há nenhum indício de que esses corpos femininos estivessem mais imperfeitos ou desregrados do que os corpos de estátuas votivas masculinas. Também não há nenhuma ênfase nas capacidades reprodutivas, nenhuma zona especificamente erotizada, nenhum indício de falta que é geralmente associada com representações de mulheres. Examinando outras imagens de mulheres da mesma época, podemos ver que estas últimas observações são válidas somente para esse gênero de imagens votivas femininas. Em outras áreas das práticas representacionais da Mesopotâmia, corpos femininos são altamente sexualizados e erotizados. Até que ponto essa diferença se deve à patronagem ou à função da imagem votiva como doublé é inseguro, mas não podemos dizer desses retratos que são primariamente objetos de um discurso masculino que se apropriasse da imagem feminina para seus próprios fins, e nem podemos definir essas estatuías votivas em termos de objetos do Olhar masculino. Nesse sentido, permanecem um exemplo de um gênero mesopotâmico único, específico para seu próprio contexto sócio-histórico.450
448 Cf. acima, a discussão dos dados levantados por Asher-Greve. 449 BAHRANI, Women, 101.