Quando o dado jogado caísse nesta opção, os participantes deveriam falar sobre o que gostavam de fazer na Geração e que estavam fazendo. Wanda foi a primeira participante que teve os dados arrumados nesta opção. Ela disse que gostava de fazer chaveiros e que gostava de fazer porque achava bonito. Assim como Wanda, Zípora e Carla também trouxeram a beleza como motivo para escolherem confeccionar determinado produto. Confeccionar um artesanato belo é atrativo para o mercado de vendas, desta forma, compreende-se que, na escolha de Wanda, poderia existir uma dinâmica de exigências afetivas e de eficiência no trabalho, onde o gostar de fazer chaveiros estaria atrelado a como ficavam bem feitos. Wanda, então, relacionou, no sentido de sua ação, o objetivo de vendas do produto à motivação pela atividade de criar chaveiros (CLOT, 2007).
Eliene, por outro lado, disse que o que mais curtia fazer era “fuxico” porque ocupava sua mente e porque ela era apaixonada por corte e costura. O sentido de sua atividade fazia ocupar a sua mente, seu tempo, possivelmente porque ela estava realizando algo do qual se sentia motivada para fazer, ao mesmo tempo, encontrava meios para tal (CLOT, 2007). Infere-se que na atividade de Eliene o ocupar a mente também pode representar ocupar um espaço, se inscrever na história de um trabalho através do que desenvolve na Geração.
Assim como Eliene, seu Wagner também estava conseguindo realizar as atividades que mais curtia. Ele disse que o que gostava e fazia era colar e mandala porque, no caso desta última em especial, podia escolher os canudos para executar a ação. Na fala de seu Wagner, pôde-se perceber que o ideal da Reforma Psiquiátrica de tornar os sujeitos atores de suas vidas revela-se em pequenas ações, como no direito de escolha, por exemplo. Mesmo que esta escolha seja de apenas um canudo para fazer uma mandala, já faz uma grande diferença para o sujeito, como para seu Wagner. Na sua escolha pôde-se perceber que, além do objetivo imediato da ação (CLOT, 2007) de realizar a mandala para vendê-la, sua facilidade para realizar a atividade, a motivação e o gosto por realizá-la torna a atividade algo além de eficiente, também prazerosa.
Zípora, por outro lado, diferente de seu Wagner e Eliene, não estava conseguindo realizar a atividade que mais gostava. A atividade impedida estava em sua preferência de trabalho. Ela atuava em seu querer fazer, sendo demonstrada em sua resposta sobre o curte e faz:
Zípora: Ah meu Deu, é que a gente ta fazendo outra coisa, né? Mas falo o
que eu faço aqui.
Pesquisadora: Não, mas a senhora... É, mas é uma coisa que a senhora faz. Wagner: E gosta.
Zípora: Ai meu Deus. Colar, colarzinho mesmo. Colar, aquele colar de
pedinha (sic) (faz gesto de colar no pescoço com as duas mãos).
É possível visualizar, então, que Zípora mostra em sua fala que a atividade impossível faz parte do desenvolvimento da atividade que realiza, pois em sua resposta remete imediatamente à ideia de que havia outro trabalho que gostaria de estar realizando.
Assim como Zípora, Érica também aponta uma atividade impedida como àquela de sua preferência para realizar. O que mais gostava de fazer era o tapete de tecido, mas ressaltou que precisava comprar agulha para voltar a fazê-lo. A atividade estava impedida para Érica, mas permanecia em seu querer fazer (CLOT, 2010a). A falta de recursos para a realização da ação impossibilitava a execução da atividade, mas continuava em seus pensamentos e isto
podia ser reavivado a partir do momento em que conseguiam debater sobre o que faziam e o que gostariam de fazer. Abriam-se, então, possibilidades para o próprio trabalhador buscar estratégias de ação.
Diferentemente de Zípora e Érica, Luciana apontou como estando em sua preferência não apenas uma atividade, mas várias. As que tiveram mais destaque foram a arrumação de materiais e a confecção de chaveiros. No que se refere à produção destes últimos, ressaltou que o próprio procedimento é agradável, pois ela tem habilidade no desenvolvimento da atividade. Sobre a arrumação, esta atividade a fazia sentir-se bem com a sua execução (CLOT, 2007).
A questão do sentir-se bem ao realizar algo também apareceu na fala de dona Suelen. Para ela, a motivação para sua ação era a satisfação que obtinha ao realizar a sua atividade. A questão do afeto superava a busca direcionada unicamente à eficiência da ação (CLOT, 2007), pois, para Suelen, o importante era fazer algo agradável, algo que gostava de confeccionar e não apenas executar uma tarefa qualquer.
Pode-se perceber que o prazer na realização de uma atividade por parte destes trabalhadores e a eficácia no seu fazer se obtém através do jogo entre o alcance de seus objetivos iniciais; os resultados que buscam alcançar como, por exemplo, um produto bonito que tem uma facilidade maior de venda; os procedimentos e técnicas para realização; o saber executar e ter meios para isso na Geração; e a motivação do outro e/ou do próprio sujeito, ou seja, gostar de realizar a atividade (CLOT, 2007). Grande parte das atividades ressaltadas pelos participantes como “curte e faz” eram atividades às quais havia meios possíveis de realização. Saíram desta condição apenas Zípora e Érica cujas atividades estavam impedidas, devido justamente a dificuldades de recursos do próprio Programa. Através da análise de seus fazeres, os trabalhadores puderam se implicar subjetivamente em seus trabalhos, podendo pensar sobre suas atividades e criar novas estratégias de ação (CLOT, 2006b).