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É crescente a produção de trabalhos que se dedicam a evidenciar os impactos positivos da reflexão na atividade docente, em prol de melhorias não apenas em sua prática, como também no contexto escolar geral. O professor que atua como profissional reflexivo deixa de ser mero transmissor de conteúdos e, na interação com os sujeitos e meio circundante, acaba por repensar as próprias ações, crenças e os resultados e impactos das escolhas promovidas. Neste processo, almeja-se uma adequação das práticas pedagógicas com a realidade dos alunos, indo para além de teorias rígidas e universais impostas.

Schön (1983), um dos autores que mais produziu acerca da reflexão e do conhecimento profissional, evidencia a relevância do processo reflexivo no desenvolvimento do conhecimento profissional docente. O autor trouxe a ideia de “prático reflexivo” para caracterizar agentes que refletem “na ação”, “sobre a ação” e “sobre a reflexão na ação”.

A reflexão na ação engloba saberes presentes na prática efetiva. Trata-se das escolhas e tomadas de decisão por parte do professor quando imerso em atividades de ensino. O exercício da reflexão crítica sobre esta atuação pode levar o docente a elaborar novas estratégias de ação, mais pertinentes e com adequações se preciso for. A reflexão sobre a ação é alheia a situação de prática, tomando esta como objeto de reflexão. Neste caso, há uma reconstrução mental das situações vividas que são posteriormente analisadas. O olhar estabelecido após o momento de ação permite ao professor pensar e perceber os fatos de forma mais eficaz, identificando como os obstáculos e imprevistos foram solucionados. A

reflexão sobre a reflexão na ação, por sua vez, é definida pela projeção futura de novas práticas após o processo de reflexão na ação. Este tipo de reflexão propicia que o docente estabeleça maneiras inusitadas de compreender a realidade, pensar e agir.

Considerando os pressupostos apresentados, a sala de aula consiste em um espaço privilegiado para o aprimoramento das competências docentes, o que só é viável diante da reflexão contínua. Os processos reflexivos e a experimentação passam a ser elementos fundamentais para o professor em um movimento de progressivo desenvolvimento da autonomia e emergência de habilidades inusitadas. Day (2001) diz que é fundamental “atribuir à aprendizagem através da reflexão o papel central no pensamento crítico e no desenvolvimento dos professores. Desenvolver-se como profissional significa dar atenção a todos os aspectos da prática”. Marcelo e Vaillant (2012) complementam ao citar que:

É a reflexão sobre a experiência que permite que possamos aprender novos conhecimentos e práticas, o que diferencia uma formação experiencial de uma formação baseada na impregnação ou no mimetismo. (...) A análise da prática observada ou experimentada, à luz das crenças e conhecimentos próprios, permite pôr em questão as próprias ideias e avançar em direção a uma maior autoconsciência do desenvolvimento profissional: o processo de interpretar ou reinterpretar o significado de uma experiência (MARCELO e VAILLANT, 2012, p. 41).

A reflexão sobre a própria prática se torna um processo catalizador para o desenvolvimento profissional ao possibilitar para o docente novas visões externas aos mecanismos das rotinas tradicionais. Entende-se que o professor deve estar buscando melhorar a sua atividade docente de forma contínua, questionando e avaliando o trabalho delineado e as ações tomadas em prol de aprimoramento.

Uma reflexão não surge apenas de contextos de insatisfação e de problemas a serem resolvidos. Enquanto seres humanos, refletimos também na intenção de aprimorar as atividades desenvolvidas e almejando um progresso pessoal e coletivo. Um profissional reflexivo mostra-se predisposto a estar inserido em situações que exigem o pensamento crítico na relação com o conhecimento, com o outro e com as instituições.

A reflexão sobre a prática pode se dar em contextos individuais e coletivos. Entretanto, Perrenoud (1999) destaca que:

Uma prática reflexiva profissional jamais é inteiramente solitária. Ela se apoia em conversas informais, momentos organizados de profissionalização interativa, em práticas de feedback metódico, de debriefing, de análise do trabalho, de reflexão sobre sua qualidade, de avaliação do que se faz. A prática reflexiva até pode ser solitária, mas ela passa também pelos grupos, apela para especialistas externos, insere-se em redes, isto é, apoia-se sobre formações, oferecendo os instrumentos ou

as bases teóricas para melhor compreender os processos em jogo e melhor compreender a si mesmo (PERRENOUD, 1999).

Envolvidos em atividades de reflexão coletiva, os professores são estimulados a buscar maior autonomia e emancipação ao passarem a ser questionadores das metodologias e práticas muitas vezes colocadas por organizações externas à realidade escolar. O diálogo entre os pares, além de propiciar a criação de novos conhecimentos educacionais e a reformulação de saberes cristalizados, acaba por findar a individualidade que demarca a prática docente.

As constantes reflexões revisitando a própria prática e tendo acesso à prática dos demais envolvidos por meio da escuta, possibilitam o aprofundamento dos conhecimentos do conteúdo e conhecimentos pedagógicos. Algumas ferramentas podem ainda ser adotadas na intenção de conduzir a troca de informações e saberes, como a produção escrita individual e coletiva, a gravação de áudio e vídeo de aulas, o debate a partir de leituras definidas intencionalmente, entre outras condutas.

Conforme identificado por Passos et al (2006),

a reflexão sobre a prática, sobretudo sobre o próprio trabalho docente, representa um contexto altamente favorável ao desenvolvimento pessoal e profissional do professor, pois ajuda a problematizar e produzir estranhamentos sobre o que ensinamos e por que ensinamos de uma forma e não de outra. (...) A reflexão compartilhada foi considerada como prática promotora de desenvolvimento. Os resultados apontaram que as tensões vivenciadas no grupo produzem a (re)significação de saberes e práticas e que os processos de reflexão promovem a tomada de consciência dos processos de aprendizagem; revelam o caráter formativo de algumas práticas de sala de aula; ampliam e enriquecem a aprendizagem e os saberes docentes (PASSOS et al, 2006, p. 201).

A reflexão coletiva certamente vai além dos processos individuais por permitir a troca de experiências e informações de modo a engrandecer a atuação e perspectivas dos envolvidos. É essencial que as oportunidades de reflexão sejam significativas e relevantes considerando as necessidades de aprendizagem dos professores. Neste contexto, os docentes deixam a imagem de executores que agem em conformidade com as exigências das diretrizes governamentais e empregadores, muitas vezes deixando de prezar pela valorização das próprias concepções.

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