A ação fortuita de produtos do metabolismo de fagócitos ativados nas áreas teciduais intactas tem sido o mecanismo mais frequentemente proposto na literatura para justificar parte do retardo na recuperação na força muscular após o dano muscular excêntrico (ZERBA; KOMOROWSKI; FAULKNER, 1990; MacINTYRE et al., 1996; 2001; LAPOINTE; FRENETTE; CÔTÉ, 2001). Em conformidade a isso, a hipótese de que a melhora na recuperação da força muscular, promovida pela suplementação de alimentos ricos em fitoquímicos, estaria ligada a eventos inflamatórios/oxidativos, mediados por células imunológicas, é a que tem sido mais correntemente considerada (CONNOLLY et al., 2006; TROMBOLD et al., 2010; TANABE et al., 2015). Portanto, é plausível sugerir que, durante o primeiro dia de recuperação, os constituintes bioativos do chá mate tenham favorecido a recuperação na função muscular, em parte, por meio da modulação de um cenário oxidante e/ou inflamatório (LANZETTI et al., 2008; SCHINELLA et al., 2014).
Relações temporais entre a infiltração muscular de leucócitos e as alterações na força muscular têm sido observadas após o exercício excêntrico (MacINTYRE et al., 1996; 2000; 2001; PAULSEN et al., 2010). MacIntyre et al. (1996) relataram um padrão bimodal de redução na força muscular em 0 h e, novamente, em 20 h pós-esforço (300 ações musculares excêntricas máximas com os músculos extensores do joelho). O acúmulo de leucócitos no músculo ocorreu entre 2 e 24 h pós- esforço. Os autores ressaltaram que a segunda diminuição na força permaneceu de 20 a 24 h após o exercício, período em que houve maior
concentração de leucócitos no músculo. Embora as associações entre a infiltração de células imunológicas e a redução na força muscular após o dano muscular excêntrico pareçam refletir, principalmente, o grau de dano muscular e a necessidade de regeneração (PAULSEN et al., 2010), um estudo envolvendo alongamento in situ, forneceu evidências de que a redução na produção de espécies reativas por neutrófilos provindos do sangue atenuou o agravamento de danos estruturais miofibrilares observados 24 h após o dano muscular excêntrico (BRICKSON et al., 2003).
Em conjunto, os resultados desses estudos despertam a ideia de que os benefícios do chá mate na recuperação da força muscular, particularmente, entre 0 e 24 h após o dano, poderiam, em parte, estar relacionados à atenuação de danos miofibrilares adicionais (BRICKSON et al., 2003; CONNOLY et al., 2006) associados à atividade inflamatória de neutrófilos e macrófagos (LANZETTI et al., 2008; TIDBALL; VILLALTA, 2010; SCHINELLA et al., 2014). Neste contexto, portanto, existe a possibilidade de que os benefícios do chá mate tenham envolvido uma miríade de mecanismos, incluindo a diminuição na infiltração de fagócitos (LANZETTI et al., 2008; SCHINELLA et al., 2014); a neutralização de ERO/ERNs (SCHINELLA et al., 2000; LEONARD et al., 2010); e a regulação na produção de mediadores inflamatórios, como IL-1β, TNF-α e •NO, por essas células, por meio da modulação do NF-κB (LANZETTI et al., 2008; PUANGPRAPHANT; DE MEJIA, 2009; BORGES et al., 2013; SCHINELLA et al., 2014).
A IL-1β e o TNF-α, por exemplo, podem induzir o acúmulo de neutrófilos e monócitos/macrófagos no sítio inflamatório, bem como ativar essas células diretamente e/ou potencializar suas respostas a um estímulo ativador, e, desse modo, contribuir para a amplificação da inflamação (para revisão: CURFS; MEIS; HOOGKAMP-KORTANJE, 1997; CAVAILLON, 1994). No grupo controle, mas não no grupo chá mate, a concentração de IL-1β variou significativamente (28%; P < 0,050) entre o PRÉ e 24 h pós-dano (Apêndice H45). Além disso, neste grupo, embora não tenha havido alteração significativa na concentração sérica de TNF-α até 72 h, vale lembrar que a variação na concentração sérica de TNF-α no período PRÉ-24 h foi inversamente associado com a recuperação da força isométrica nos intervalos PRÉ-0 h (r = -0,54; P = 0,022) e 0-24 h (r = -0,53; P = 0,024) pós-dano (Quadro 3). Por outro lado, no grupo chá mate, as concentrações séricas de IL-1β e TNF-α mantiveram-se inalteradas ao longo do tempo e não foram
significativamente associadas com a força muscular, especificamente, entre o PRÉ e 24 h pós-dano, período em que a força isométrica foi recuperada significativamente. Além disso, o tamanho do efeito do chá mate na concentração sérica de TNF-α foi grande (d = -0,80), no PRÉ-, e médio (d = -0,62), em 24 h pós-dano. Diante desses resultados, especula-se que nos indivíduos que consumiram chá mate, as modulações, em conjunto, na produção muscular de IL-1β e de TNF-α, possivelmente via modulação do NF-kB, tenham contribuído para uma menor infiltração e/ou estado de ativação de neutrófilos e de monócitos (LANZETTI et al., 2008; BORGES et al., 2013; SCHINELLA et al., 2014) no músculo, ao longo das primeiras 24 h após o dano muscular excêntrico (MacINTYRE et al., 1996; PAULSEN et al., 2010). Deste modo, o chá mate poderia ter atenuado uma possível ocorrência de danos miofibrilares adicionais, associados à atividade dessas células durante esse período (BRICKSON et al., 2003), e, assim, contribuído para uma mais rápida recuperação da força muscular 24 h após o dano muscular excêntrico.
Embora a produção de •NO muscular não tenha sido medida no presente estudo, importa destacar que o chá mate/erva mate pode tanto atenuar a produção de ••••NO por fagócitos ativados (BORGES et al., 2013), como, por outro lado, favorecer a biodisponibilidade do ••••NO, prevenindo sua reação com o radical superóxido (SCHINELLA et al., 2000; 2005). Essas ações paradoxais do chá mate podem ter contribuído para um equilíbrio na concentração de ••••NO, necessário para os processos de clearance tecidual, mediado por fagócitos, bem como o início de degradação de proteínas danificadas (SAKURAI et al., 2001), ao longo do primeiro dia de recuperação, o que pode ter favorecido a recuperação na força muscular nesse período.
O •NO pode desempenhar importantes ações anti-inflamatórias, como, por exemplo, diminuir a migração de neutrófilos para o músculo inflamado (AKIMITSU; GUTE; KORTHUIS, 1995; DAL SECCO et al., 2004) e inibir a expressão de moléculas de adesão em neutrófilos (SATO et al., 1999) e em células endoteliais (KOSONEN et al., 2000). Há também evidências de que o ••••NO modula a expressão e a atividade da calpaína no músculo (MICHETTI et al., 1995; LOMONOSOVA et al., 2014), o que parece limitar a ação proteolítica da enzima no citoesqueleto assim como a ocorrência de danos secundários após o exercício excêntrico (LOMONOSOVA et al., 2014). Indícios de atividade da calpaína no músculo já podem ser observados 4 h após o exercício excêntrico (BEATON; TARNOPOLSKY; PHILLIPS, 2002),
sendo significativamente importantes em 24 h pós-esforço (LOMONOSOVA et al., 2014). Por outro lado, elevadas concentrações de NO• no músculo podem resultar em modificações oxidativas mediadas por peroxinitrito, em proteínas musculares, incluindo o receptor RyR1 e o aparato contrátil (LIMA-CABELLO et al., 2010; YAMADA et al., 2015). Lima-Cabello et al. (2010) observaram evidências de proteínas nitradas no músculo em associação ao aumento na expressão de nNOS, iNOS e eNOS imediatamente após o exercício excêntrico. A ação danosa de ERNs em proteínas contráteis poderia contribuir para a fraqueza muscular (YAMADA et al., 2015). Portanto, no presente estudo, é possível que a inibição, mediada pelo chá mate, dos efeitos citotóxicos do peroxinitrito em proteínas (BIXBY et al., 2005) tenha também contribuído na atenuação de danos secundários e, assim, no déficit na força muscular.
6.5.2 Modulações de eventos ligados a uma possível falha na