3. Comment saisir les prévisions ? 18
3.3. Spécificités
A tradição da filosofia ocidental apresenta três estratégias para controlar as emoções. A mais comum é encontrada na teoria aristotélica sobre a virtude. Aristóteles defende que ser virtuoso é ter a emoção apropriada para uma determinada situação, ou seja, ter esses sentimentos “no momento correto, sobre as coisas corretas, em relação às pessoas corretas, devido ao objetivo correto e na forma correta”. 2
Para tornarmo-nos virtuosos, devemos cultivar as emoções de forma que elas sejam apropriadas para cada situação. Esta posição implica que temos a capacidade de controlá-las racionalmente.
Em relação a este primeira posição, Kant pensa que não há sentido em deliberar sobre algo que não é inteiramente racional. Ele ilustra esse ponto quando menciona, como uma tarefa paradoxal, a
1 Uma versão deste capítulo foi apresentada na reunião da American Philosophical
Association, Central division, Mineápolis, maio de 2001. Eu gostaria de agradecer a
Jennifer Mensch, Robert Louden, Karl Ameriks, Gary Hatfield e Paul Guyer por críticas e comentários relativos a este versão.
dúvida de Sócrates sobre se deve ter ou não raiva num determinado momento.
Sócrates estava em dúvida se era ou não bom ficar com raiva algumas vezes, mas ter uma emoção tão sob controle que se poderia deliberar friamente sobre ela parece ser algo paradoxal. 3
Podemos certamente deliberar sobre o que fazer, independente da nossa raiva, mas a produção ou controle deste afeto escapa ao controle racional da vontade. Com respeito a esses sentimentos, nós seríamos passivos e estaria além do nosso poder extirpar ou produzir a raiva correta.
A segunda forma de controle das emoções é a visão estoica, segundo a qual devemos extirpar as emoções. Os estoicos defendem que podemos atingir o autocontrole apenas quando as paixões são suprimidas. A natureza nos teria dado uma disposição à apatia, que pode ser cultivada, a fim de atingir o autocontrole. Kant considera o princípio estoico da apatia um princípio moral correto:
“O princípio da apatia, segundo o qual o homem prudente não deve estar nunca num estado afetivo, nem mesmo em relação aos pesares do seu melhor amigo, é um princípio moral correto e sublime da escola estoica, porque os afetos tornam a pessoa cega”. 4
Na Antropologia e na Doutrina das Virtudes, a apatia é tomada no sentido de liberdade dos afetos.5. Nestes textos, Kant sustenta
que devemos lutar em direção a um estado no qual afetos estão ausentes. Contudo, ele não está tão certo que seja possível atingir
3 Kant, Anth, 7:253. 4 Anth, 7:253.
5 Kant nos dá ao menos três diferentes visões do que ele entende por apatia. Nas
Lições de Antropologia/ Mrongovius, Kant explica a diferença entre ataraxia pirrônica,
que seria a ausência de afetos (Affekten) e a apatia estoica, como ausência de paixões (Leidenschaften). (Anthropologie, Mrongovius, 25, 2:1353)”. Na Religião nos limites da simples
razão, o pensamento estoico é considerado uma batalha contra as inclinações (Rel,
6:58), onde inclinações devem ser compreendidas no sentido geral de móbeis sensíveis. Na Antropologia publicada, apatia é considerada ausência de afetos (Ant, 7: 753), tendo o mesmo sentido da apatia moral da Doutrina das Virtudes. Na Antropologia e na Doutrina das Virtudes, a apatia é tomada no sentido de liberdade dos afetos.
este estado, pois a apatia parece ser um dom natural e, como tal, fora do domínio da razão:
O dom natural da apatia, no caso da força espiritual suficiente é, como foi dito, uma feliz auto-controle (no sentido moral). Aquele que dessa é dotado, não é ainda um homem sábio, mas conta com os favores da natureza para tornar-se sábio mais facilmente do que os outros.6
A terceira posição baseia-se numa fisiologia específica de paixões e emoções, na qual elas estariam relacionadas a alguns movimentos corporais impossíveis de serem controlados pela razão. Esses movimentos, uma vez iniciados, dependem de uma causa física que age sobre órgãos e fluidos. Eu o denominarei de modelo fisiológico. Este posição foi expressa, por exemplo, nas Paixões da
Alma de Descartes, na qual as paixões são compostas por
movimentos de fluidos, chamados espíritos animais, contidos nas cavidades do cérebro. Na paixão do medo, por exemplo, os espíritos vão do cérebro para os nervos que fazem as pernas se moverem. De acordo com essa terceira posição, podemos controlar as paixões menores, mas não as mais violentas. Quanto a estas, devemos esperar que o movimento dos espíritos tenha cessado.
Qual a visão kantiana? Eu sugiro que o objetivo da Kant assemelha-se àquele dos estoicos, mas que ele acredita que a extirpação de emoções é um ideal que os seres sensíveis racionais podem atingir apenas raramente. O ideal de apatia, da total supressão de paixões e afetos, depende mais do dom natural de um caráter não apaixonado e não de uma decisão racional.
Kant aproxima-se, contudo, do cultivo aristotélico quanto a alguns sentimentos, como a simpatia, sentimentos morais e outros sentimentos mais calmos, tais como o medo derivado da timidez. Em relação aos outros afetos, ele endossaria o modelo fisiológico. As paixões, visto que não podem ser cultivadas e não são efêmeras como os afetos, estão além do nosso controle.
Se Kant, como os estoicos, pensa que as paixões são ruins para a saúde física e racional, ele, contudo, permanece pessimista quanto à possibilidade de extirpar essas doenças da alma.
Kant defende a apatia e a extirpação estoica das emoções como a direção apropriada para quem quer obter fins morais e não morais. Contudo, o controle das emoções parece assentar-se num dom natural: algumas pessoas são abençoadas pela natureza com emoções mais pálidas, outras não. Se não podemo-nos livrar das paixões e afetos, nós devemos lidar com elas de alguma forma. Uma possibilidade é cultivar nossos sentimentos, a fim de ter, de acordo com a visão aristotélica, o sentimento correto sobre as coisas corretas, na forma mais apropriada para a situação. Contudo, como veremos, a ideia de cultivo, se não é totalmente ausente em Kant, aparece somente no que diz respeito a sentimentos morais, ou a emoções mais fracas, tal como o medo de falar em público. Em relação a outros afetos, Kant parece seguir o modelo fisiológico, de acordo com o qual esses sentimentos estão relacionados com processos corporais, de forma que os colocam fora de controle pela vontade. A raiva é um bom exemplo: a raiva de alguém é diminuída se o fazemos sentar e ficar numa posição relaxada, pois isso altera os movimentos e processos fisiológicos.
Se uma pessoa entra em sua sala para dizer palavras cruéis levadas pelo ódio, polidamente o convide a sentar e, se você for bem sucedido, sua raiva será já mais tênue, pois o conforto de estar sentado é um relaxamento que não é adequado aos gestos e gritos ameaçadores de quando se está em pé.7
A forma de controlar os afetos que ele propõe aqui é através da interferência no relaxamento do corpo e não por um comando direto da vontade. Se os movimentos são atenuados, o mesmo se passará com os sentimentos. Para emoções mais fortes, quando até mesmo o controle dos movimentos corporais é inútil, devemos esperar até que elas desapareçam, visto que o controle racional é impotente. A forma Kantiana de controlar afetos apresenta um interessante paralelo com a teoria cartesiana das
Paixões da alma, as quais são consideradas como relacionadas com os
movimentos de fluidos chamados espíritos, contidos nas cavidades do cérebro. De acordo com Descartes, a alma não pode ter controle total sobre suas paixões, pois estas são sempre acompanhadas por uma perturbação, que acontece no coração e através do sangue e dos espíritos: “até que a perturbação cesse, elas permanecem
presentes na nossa mente da mesma forma que os objetos dos sentidos estão presentes na mente enquanto eles estão agindo sobre os órgãos dos sentidos”.8 A alma pode superar as paixões menores,
mas não as mais violentas, assim como podemos evitar sentir uma leve dor, mas não o fogo que queima as mãos. Enquanto a perturbação ainda está agitando o sangue e os espíritos, a única coisa que podemos fazer é inibir os movimentos aos quais a perturbação dispõe o corpo a realizar: na raiva, podemos fazer parar a mão que deseja agredir; no medo, podemos impedir nossas pernas de se movimentarem em direção à fuga...
Não há, contudo, nenhuma evidência que Kant lera as
Paixões da Alma de Descartes. Minha hipótese é que Descartes e
Kant partilham de um mesmo pano-de-fundo, cujas raízes levam à fisiologia do século XVII e XVIII. Além disso, tentarei mostrar que a discrepância entre o objetivo da apatia e suas dúvidas sobre nossa habilidade em atingi-la encontra uma interessante analogia na polêmica entre duas escolas de fisiologia do século XVIII: os animistas e os mecanicistas. Mostrarei que, ainda que Kant defenda a primeira frente a segunda, alguns elementos mecanicistas estão presentes na sua teoria das emoções.
VIII.2. Animismo e mecanicismo na medicina do