O perigo das fábricas de cadáveres e dos poços do esquecimento é que hoje, com o aumento universal das populações e dos desterrados, grandes massas de pessoas constantemente se tornam supérfluas se continuamos a pensar em nosso mundo em termos utilitários. Os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram silenciosamente com os instrumentos totalitários inventados para tornar os homens supérfluos. (ARENDT, 1989, p. 511).
Esse tom “profético” de Hannah Arendt é bastante pertinente ao se considerar o caminho enveredado até aqui. Discorreu-se sobre a presença da desumanização no Ocidente e, do que foi exposto, a julgar pelas necessárias lacunas existentes, algumas lições podem ser apreendidas.
Esta pesquisa demonstrou que uma parcela significativa dos/as autores/as citados/as parecem concordar com a existência de uma desumanização latente nos atos “políticos” perpassados pela violência, embora quase nenhum/a deles/as tenha se demorado em especificar as diversas nuanças desse conceito. Não obstante, sua efetividade parece inegável.
Depreende-se, entretanto, que a desumanização se torna mais evidente nas relações de opressão como consideração de uns seres humanos sobre outros, a qual expressa tanto em discurso sobre o outro como em práticas em que uns tratam os outros como se esses últimos fossem algo que correspondesse à ideia dos primeiros. Destarte, talvez a crítica mais saliente que sopese a esse quadro diga respeito à seguinte pergunta: seria a desumanização somente um nome para designar tais relações de opressão, sendo essa a alcunha algo que um terceiro (fora da referida relação) afirma daquilo que vê ou a desumanização também se situaria num plano íntimo/psicológico/cognitivo que alterasse o olhar (e concomitantemente a concepção) do opressor sobre o oprimido?
Entrementes, não se nega aqui que a desumanização ocorra somente entre humanos. Tal fato, inclusive, é pressuposto. O que realmente fica difícil justificar é até que ponto o olhar ou consideração/tratamento do outro crê na humanidade daquele/a que é oprimido/a. Como foi mostrado, há quem defenda que o opressor sabia que sua vítima é um ser humano e, talvez por isso mesmo, trate-a de modo impiedoso. Todavia, ao verificar a análise dos discursos dos algozes, bem como suas conjecturas, e ao se perguntar pela raiz dessa impiedade imanente, entrevê-se uma possível dúvida em relação à humanidade do oprimido
(se não até mesmo uma crença, ainda que não nomeada e insinuante) nessa desumanidade do outro.
Também não se negou aqui a possibilidade de, nas relações de opressão, ocorrer uma super-humanização de si em detrimento do outro. Porém, entende-se que esse é apenas mais um foco possível de análise dentro das referidas relações. Portanto, a exploração desse foco requereria uma pesquisa específica.
Na realidade, averiguou-se a efetividade da desumanização na história ocidental, tendo como exemplo alguns fatos históricos intrigantes que nos auxiliam a refletir sobre as demandas da desumanização que ainda vigoram atualmente. Percebe-se que a luta que muitas minorias brasileiras, por exemplo, vêm empreendendo por aquisição de direitos e por respeito tem sido atravessada por casos em que a desumanização se faz presente. A própria escolha do tipo de discurso descaracterizador do outro já testemunha um pretenso ato de desumanizar.
Recentemente no Brasil houve um caso de racismo que ganhou notoriedade na mídia: num jogo de futebol, determinado jogador foi chamado por alguns membros da torcida adversária de “macaco”. Esse episódio foi ainda posterior a um outro ocorrido na Espanha, onde um torcedor jogou uma banana para um jogador negro brasileiro. O que há de ofensivo em tais atos?
Também os recorrentes casos de homofobia e feminicídio estão carregados de conteúdo desumanizador. A fuga do padrão de sexualidade proposto pelo modo de ser LGBTTTI ainda costuma fazer com que essa comunidade, muitas, vezes seja vista como coisa outra que não se constitui de seres “totalmente” humanos. Do mesmo modo, poder-se-ia ainda falar da desumanização que sofrem aqueles submetidos ao sistema carcerário, os pobres e moradores de rua, os nordestinos, os pacientes de determinadas “clínicas psiquiátricas”, os catadores de lixo e aqueles que retiram dos grandes “lixões” o seu sustento. Diante desse quadro, parece que a desumanização sempre esteve em voga no Brasil!
Na esfera internacional, os atos de genocídio que continuam grassando no século XXI também estão repletos de práticas e discursos desumanizadores. Os atuais conflitos no Oriente Médio, nos quais os palestinos são tratados de forma desumana pelos soldados israelenses (e até mesmo a negligência desses soldados em relação aos civis palestinos) afirmam uma consideração desumana das vítimas que sofrem constantemente com bombardeios e incursões militares. Poder-se-ia falar também do vírus Ebola e do desinteresse dos países ricos em financiar um tratamento não só para proteger as possíveis vítimas de seu país, mas também para minimizar o sofrimento do povo africano. O que há por trás desse desinteresse?
Em todos esses acontecimentos, é perceptível um descaso, uma desconsideração de uns sobre os outros que parece reafirmar o outro como não participante da condição humana, a ponto de não merecer os mesmos benefícios daqueles que os oprime. Nesse sentido, esta pesquisa pode servir para embasar um importante e necessário ponto de partida para uma reflexão militante contra a desumanização. Entende-se que, para combatê-la, inicialmente seja fundamental a compreensão de seu funcionamento e, assim, espera-se que as reflexões aqui contidas sirvam, pelo menos parcialmente, a esse propósito.
A compreensão acerca dos processos sócio/históricos que levam alguns seres humanos a atribuir características não humanas a outros ainda precisa ser ponderada com mais profundidade. Nesse âmbito, muito contribuem para esse estudo algumas análises da psicologia social, antropologia e sociologia. Há que se refletir, seguindo a sagacidade do pensamento de Lévinas, sobre esse tão incômodo olhar do outro, que tanto diz, que tanto pesa, que tanto violenta, e tão pouco se sabe. As razões que motivam um olhar desumanizador e o peso que ambos (motivação e olhar) têm no que concerne à ação são questões passíveis de investigação. Além disso, até que ponto o atribuir algo em relação ao outro “afirma” algo de mim mesmo? Se o olhar do outro é “motivado”, é possível escolher suas motivações? Sob quais critérios? E quanto há de crença na veracidade desse olhar?
Também não é menos intrigante o tratamento que se dá ao outro a partir das considerações que se tem dele. Quanto de ignorância das potencialidades e singularidades do outro são manifestas quando tratamos o outro do modo como achamos “certo”, “conveniente”, “necessário”? Por que o que há de ser preservado com a degradação do outro é “melhor” e mais “digno de existência”?
Ainda há que ser escrita a perspectiva do oprimido acerca da desumanização. O poder opressor pode até tirar a possibilidade do oprimido de argumentar em favor de sua própria causa, mas não retirar sua capacidade de gritar, nem toda sua possibilidade de agir. O que poderia fazer o oprimido diante da desumanização que o assola? Gritar para se fazer ouvir? Contar suas próprias histórias? Enveredar por uma concepção estética da existência? Assumir o discurso desumanizador e revalorá-lo? (Criar o desumano que tem direito à vida?).
Nesse ponto, há um notório retorno à tentativa de compreensão dos processos das relações de opressão e seus desdobramentos e adaptações. Processos esses que se desenrolam desde as relações parentais mais basilares (pai/filho, marido/esposa) até as mais exorbitantes (luta de classes, maioria/minoria). Estando a desumanização no âmago de diversos modos das relações de opressão, empreendê-la acaba por desembocar também no entendimento do modo como se estabelecem as referidas relações.
Desse modo, assumindo parcialmente um vocabulário deleuziano, poder-se-ia perguntar sobre os devires do desumano que possibilitariam a criação de um desumano – vivente (afinal, por que ser “humano” é bom, viável ou desejável?) ou mesmo se pensar em quais máquinas de guerra poderiam ser construídas para a luta contra o opressor que desumaniza e quais linhas de fuga (e sobre quais planos de imanência) poderiam ser traçadas dentro das relações de opressão.
Por hora, um possível primeiro passo para o rompimento da desumanização poderia ser o adotar a postura do porqueiro50, que nada tem, nem mesmo o próprio nome, e cuja denominação lhe é imposta por quem o oprime; mas, por mais que ainda não saiba (e, muitas vezes, não possa) justificar seu estado de subserviência, há algo nele, inquietante, como o pulsar de coração, que não se convence da “verdade” do opressor.