Num outro momento deste estudo, pensou-se numa ligação entre os textos literários
que influenciaram Cazuza em seu processo de criação. Alguns textos da Literatura Brasileira
foram adaptados para a música popular por este artista, e dois casos particularmente nos
chamam a atenção: “Balada do Esplanada”, que faz parte do álbum Só se for a dois e, na
verdade, é um poema de Oswald de Andrade, que está no livro Primeiro caderno de poesia do
aluno Oswald de Andrade, de 1927, que Cazuza apenas musicou, e “Que o Deus venha”, com
letra escrita por Cazuza e música de Frejat, gravada pelo Barão Vermelho já sem Cazuza (no
disco Declare guerra, de 1985), inspirada no livro Água viva, de Clarice Lispector, publicado
pela primeira vez em 1973. No primeiro caso, a melodia é a de um autêntico Blues.
Nascido em agosto de 1619, no delta do Mississipi, Blues quer dizer melancolia no
jeito peculiar de falar dos habitantes daquela região. Melancolia essa que também está
presente nas raízes dessa música, pois seu nascimento vem juntamente com o primeiro navio
negreiro que atracou na costa americana, trazendo escravos da África para trabalhar em
lavouras de algodão, tabaco e milho naquelas cercanias. A musicalidade latente dos africanos
não tardaria a se manifestar, dando origem às work songs, verdadeiras lamentações melódicas,
cantadas pelos negros, na árdua tarefa de plantar e colher os produtos da terra. Enquanto uma
voz entoava um verso, os outros trabalhadores faziam o coro. No início, nas línguas nativas e,
com o passar do tempo, numa mescla de palavras dos dialetos africano e inglês, incorporados
na convivência com os fazendeiros da região. Tudo à cappela, de uma forma primitiva, mas
não menos visceral, sentimental e sempre rítmica. Esta foi a primeira manifestação musical
dos negros numa nova América que começavam a erguer, com o sacrifício da liberdade
perdida em pontos diferentes da África. Com o fim da Guerra de Secessão e a libertação deste
teria trazido de bom para os recém-libertos cantores e tocadores dos campos de colheita. A
arte de deslizar sobre as cordas do violão uma placa metálica para obter um som luminoso
toma o lugar dos velhos banjos e a guitarra acústica desbanca então as tradições trazidas da
África. O som, imitando um gemido humano, e a versatilidade dos instrumentos de percussão
africanos dão a cara desta nova estética, que não dispensa o poder de interpretação e o
sentimento absoluto no cantar. Com simplicidade, sensualidade, poesia, humor e ironia, o
Blues procura seu significado além da música, nos problemas e dificuldades pessoais de quem
o canta.
Assim, chegamos a “Balada do Esplanada”:
Balada do Esplanada
(Cazuza sobre poema de Oswald de Andrade)
Ontem de noite eu procurei
Ver se aprendia como é que se fazia Uma balada antes de ir pro meu hotel É que esse coração já se cansou de viver só E quer então morar contigo no Esplanada Contigo no Esplanada
Pra respirar, abro a janela
Como um jornal, eu vou fazer a balada Fazer a balada do Esplanada
E ficar sendo um menestrel
E ficar sendo um menestrel do meu hotel Do meu hotel
Mas não há poesia em um hotel
Nem mesmo sendo o Esplanada um grande hotel Há poesia na dor, na flor, no beija-flor
Na dor, na flor, no beija-flor, no elevador.
Cazuza tomou emprestados os versos de Oswald, que falam, em tom melódico, sobre
a solidão do ato de criar o poema, incorporando a este especificamente e, diga-se de
passagem, de forma certeira, o tom saudosista do Blues, combinando divinamente verso e
música. Neste patamar, portanto, encontramos aqui uma visível prova do amadurecimento
estético de Cazuza, quando, dialogando com um texto já imortalizado pela Literatura
Brasileira, fez nascer, pela escolha da melodia certa, uma música que merece ser lembrada
nesta pesquisa.
A experiência da solidão na cidade é de maior importância na subjetividade urbana.
Ela está presente nos movimentos da multidão que, metaforicamente, podem ser vistos como
urbana e o flanar poético estão repletos da sensação do eu multiplicado, multifacetado, o eu
plural das ruas e, contudo, tão só. O paradoxo da solidão dentro da multidão desdobra-se em
outras imagens urbanas: a rua e o arranha-céu ou a experiência sensorial do horizontal e do
vertical nas cidades; o interior e o exterior ou a experiência vivida da casa, hotel, em
contraposição ao espaço público, o grande mercado que é a cidade. Neste poema, a
experiência solitária é vista na figura do estar em contato com a urbes e tão só entre os
quartos freqüentemente rotativos de um hotel, que levam o eu poético ao instante de criação,
oriundo tão somente do dar-se conta da unicidade humana.
O poema nos mostra o jogo entre o quarto de hotel e o exterior, as ruas, enquanto
ponte de afastamento e melhor observação solitária das cenas urbanas. A inspiração do fazer
surge com o abrir da janela, como um jornal, onde fatos e cenas desconexas são contrapostos
à lírica que não pode existir num hotel, mas surge prosaicamente no elevador, lugar de solidão
encaixotada
Em um outro momento, a adaptação feita por Cazuza de um trecho do livro Água
viva, de Clarice Lispector, rendeu uma bem sucedida paráfrase. Trata-se da composição “Que
o Deus venha”, de 1985, com letra e parte da melodia sendo elaborada pelo poeta e o restante
feito em parceria com Frejat. A música foi gravada, em sua versão original, pelo Barão
Vermelho e regravada, em 1990, por Cássia Eller, em seu disco homônimo.
Para Clarice Lispector, Deus não parece ser uma entidade perfeita e, portanto, precisa
constantemente da ação de suas criaturas para sua afirmação. Os personagens clariceanos
parecem intuir a um estado de imperfeição, a um desequilíbrio no mundo e, em nessa fúria
rotuladora, caminham solitários para reinstaurar a harmonia. A consciência da precariedade
do ser humano é o que dá à escrita de Clarice o limiar do indizível, dentro de uma atmosfera
totalmente angustiante. É o constante redescobrir do mundo, que traz o estranhamento do
Água viva, há uma busca pelo silêncio e uma constante negação da palavra, enquanto
narrativa, indo de encontro ao absoluto que existe em nós, ao inexplicável de tudo que contém
vida:
Fiquei de repente tão aflita que sou capaz de dizer agora fim e acabar o que te escrevo, é mais na base de palavras cegas. Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é o inesperado. Mas sei que terei paz antes de morrer e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida104.
O perecível irá se confundir com o absoluto, num jogo entre o eu e o espiritual,
alcançando o elemento místico que se denominou chamar de “Deus”, presente ao longo do
texto, longe de se constituir num sentido único e intransponível, agregando a ele um princípio
de fluidez e fertilidade ao mesmo tempo mórbida e geradora. Elemento, enfim, mais sutil que
a matéria e a linguagem. Deus como elo entre o transcendente, o silêncio e o concreto, a
palavra. Deus ainda como salvação.
E assim, ancorada na sutileza do incerto, é que surge a escrita de Cazuza, fluindo
entre a fé e a incerteza, entre o que, em si, há de bom e o que ainda há que se apreender para o
próprio crescimento.
104
Que o Deus venha
(Cazuza/ Frejat/ Clarice Lispector)
Sou inquieto, áspero E desesperançado
Embora amor dentro de mim eu tenha Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha Feito farpa
Se tanto amor dentro de mim Eu tenho, mas no entanto Continuo inquieto
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais
Corro perigo
Como toda pessoa que vive E a única coisa que me espera É o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte Que vou experimentar um dia O delicado da vida
Vou aprender Como se come e vive O gosto da comida
A constante invasão de elementos subjetivos presentes neste poema nos faz acreditar
que o seu campo ainda é a alma, ou tão somente ela. Vivendo uma fase em que parecia sentir
a inquietude do que o levaria a regiões poéticas das mais insondáveis e dolorosas, o poeta
sente a necessidade do apego ao divino, ao desconhecido e mágico, buscando explicações
para o inexorável da vida. Aquele instante do presente, imediato, que Clarice quer captar em
Água viva presta-se delicadamente ao eu poético desta canção. A epifania, esse sentimento
vivo da fluidez inapreensível do real, paradoxalmente se desdobra ao infinito da matéria
humana e recai sobre a velha questão do inesperado. Captar Clarice é, antes de tudo, explicar
o inexplicável e a beleza dos versos desta composição vem do encontro com a alma
clariceana, com a perplexidade diante do cotidiano. Daí a inquietude, daí a desesperança, daí
o desassossego e a certeza do fim, mesmo que seja um fim que aponte para um (re)começo,