CARTE DE L’ANCIEN ROYAUME DU CONGO 60
IV. LA CONCEPTION DE LA VIE
3. LE SORCIER ET LE FÉTICHEUR
Os contributo de Le Bon e Tarde abrem um campo de estudo das massas, mas as limitações das suas análises obrigam a que o estudo do fenómeno não ignore as realidades específicas que determinam comportamentos coletivos variados e diferenciados (Geremek, 1999). A multidão deve ser entendida mais como a concretização da presença das massas na história, das suas aspirações e motivações, formadas através da consciência de um determinado contexto, do que como um corpo desprendido de humanidade, que se move ao sabor da manipulação a que é sujeito.
Geremek (1999) refere diferenças manifestações das massas, afirmando que podem manifestar a sua presença através do silêncio, do murmúrio ou do grito, fazendo com que surjam alternadamente massas silenciosas, que murmuram ou que gritam. Quando silenciosas, as massas suportam a sua condição por hábito ou por impotência, tendo uma atitude resignada, passiva e de indiferença à mudança, que pode exprimir tanto a aceitação da sua condição como a sua condenação - exprimindo assim uma felicidade e uma harmonia com a natureza, da qual são parte integrante, ou a camuflagem de uma rejeição da ordem existente, uma cólera contida que pode explodir a qualquer momento. Mas, quando as massas murmuram, estas já não aceitam a sua situação, tomando consciência de uma injustiça na ordem social e colocam tudo em causa nesse murmurar - desde os rendimentos, os costumes, os privilégios, tudo o que possa ser incorporado no tecido social-, cabendo ao riso e ao sonho do folclore ligar o passado e o presente, condenando o futuro através da memória e do lamento. O murmúrio age pelo contágio, espalhando a contestação como se de uma epidemia se tratasse, pelas conversas de café, encontros casuais e todo o tipo de reuniões sociais onde a troca de opiniões concordantes formam um entendimento geral, combatendo o isolamento da opinião. E se o murmúrio significa uma insatisfação social, existe sempre o risco de se transformar em “grito”, levando a contestação para um nível mais elevado onde a cólera da massa não consegue ser contida, passando a corporizar uma rejeição aberta e um sentimento de injustiça onde o silêncio explode no grito de mudança.
Perante esta noção de uma massa que existe e se manifesta ou se resigna, podemos caracterizar: a) o conceito de multidão como algo espontâneo e episódico, que reúne a massa num determinado tempo e lugar, a partir da noção de consciência coletiva moderna a que chamamos público; e b) o movimento
social imóvel e indiferente à mudança, que situa as massas no longo prazo. Assim, as massas existem, podendo ou não se manifestar e é neste sentido que quando adoptam as ideias revolucionárias, manifestam-se por uma espécie de mentalidade coletiva, que se traduz em comportamentos comuns, onde aparentemente o instintivo se manifesta sobre o racional. A motivação de mudança une as pessoas em torno de valores comuns e mobiliza-as para se reunirem e criarem a multidão, o corpo da massa que se manifesta a favor do seu interesse.
No entanto, não se defende que a alma da multidão traga características novas ao indivíduo, mas que liberte um conjunto de pré-disposições. É de recuperar a ideia de Sigmund Freud (2011/1920-1923), de que enquanto parte da massa, o indivíduo regressa a um estado primitivo que permite que manifeste um conjunto de condições já existentes e que se encontram reprimidas no seu inconsciente. Apesar das características primitivas que o comportamento do grupo demonstra, este é, também, capaz de inteligência criativa, como é o caso da linguagem ou das formas de cultura popular.
A ideia de sugestão não deve ser vista como uma mera alienação indivíduo, mas uma libertação de um conjunto de impulsos que se encontram inibidos pela ordem social e que encontram na presença entre iguais uma oportunidade para se manifestarem. Os laços do grupo são mais do que uma mera circunstância, mas o resultado da influência de um poder sexual, ou do “Eros”, que condiciona os indivíduos a abandonar a sua forma distinta, permitindo que sejam contagiados por sugestão, por sentirem uma necessidade de estarem em harmonia com o próprio grupo. A massa é uma necessidade de harmonia que o indivíduo detém e que se liberta pela comunhão com o grupo. Esta alteração mental é fundamental na vida do Homem e tão primitiva quanto a sua existência. Consiste num estado de regressão a uma atividade mental revivescente da horda primeva, uma manifestação do homem primitivo que sobrevive potencialmente em cada indivíduo. (Freud, 1920-1923/2011)
As massas constituem então uma estrutura de consciência popular, que manifesta um estado primitivo daqueles que a compõem, mas reconhece-se um afastamento da ideia de Geremek (1999) de que a proletarização das massas é a tendência do desenvolvimento social da época moderna. O aumento da importância e crescimento dos serviços na economia, melhoramento das condições de vida e níveis médios de escolaridade, tendeu historicamente para o crescimento de uma classe média que pouco ou nada tem a ver com o homem proletário descrito por Marx. No entanto, a rejeição de uma tendência para a proletarização da massa não corresponde a uma tendência de civilização da mesma. Se é verdade que a massa se insere num mundo civilizado, o habitante que a constitui não o é, nem vê a civilização como uma construção, aceita-a como natural (Ortega y Gasset, 1930/1998).
A massa é um estado de consciência na qual os indivíduos regressam a uma condição primitiva de olharem o mundo como natural, como dado, e não como uma construção humana que necessita de ser mantida. Isto cria o fenómeno do menino satisfeito, em que aqueles que compõem a massa têm em si uma sensação de domínio e triunfo, impondo a sua opinião e procurando realizar a sua vontade, comportando-se como um herdeiro de uma civilização adquirida, vendo o mundo que lhe é dado como natural e reconhecendo-se também ele como natural, ou seja, como um bárbaro moderno (Ortega Y Gasset, 1930/1998). A massa é um fenómeno coletivo de regresso a um estado primitivo, de procura de satisfação da vontade, onde os Homens se sentem parte de um coletivo que supera a noção de conjunto dos indivíduos, dando-lhes características novas e que não podemos encontrar quando os vemos enquanto pessoas isoladas deste fenómeno. É mais simplista, tempestuosa e incondicional, sendo que quando sugestionada num certo sentido dificilmente consegue ser contrariada, estando mais susceptível às emoções e menos às razões.
A ideia da multidão que se expressa em prol do interesse é uma condição da modernização das multidões que se exprime pela intervenção das instituições e organizações políticas sobre as reações colectivas (Geremek, 1999). É um facto urbano, fruto das cidades modernas e industriais, de novas condições de vida, de uma estrutura de organização social e luta política que criou uma pré-disposição nesse sentido. É assim que, nas sociedades modernas, as multidões têm ainda o papel de meio de expressão das massas, onde o mundo contemporâneo se descobre por detrás das altas estruturas da sociedade política como sendo a sociedade de massas.