Havia, isso é inegável, uma esperança muito grande, por parte do povo brasileiro, de que o governo Lula tivesse a sensibilidade e a coragem para propor um tratamento alternativo, com um conteúdo menos ortodoxo, para o paciente chamado Brasil, visto que durante o governo FHC a utilização de drogas tradicionais não surtiu o resultado esperado, além de ter criado complicações colaterais não previstas e de difícil solução. E mais que isso, havia um sentimento positivo de que com a ascensão de Lula à Presidência da República, iniciar-se-ia um processo de transformação social nesse país, na medida em que todo o seu discurso e prática política individual, bem como do seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), defendidos anos a fio, se assentavam na idéia de que era preciso mudar de forma radical o jeito de operar a política macroeconômica.
Isso foi muito bem assinalado por Souza e Oliveira (2004), quando lembram que aqueles que passaram a ter a incumbência de governar o país no período 2003 a 2006, durante o governo FHC, de posse das bravatas típicas dos esquerdistas, denunciavam o destino inexorável das políticas macroeconômicas levadas a cabo até então: um aumento crônico das taxas de desemprego, crescimento econômico medíocre e uma queda acentuada dos rendimentos da força de trabalho, em outros termos, um completo esgarçamento do tecido social53.
Não obstante tenha sido essa a postura (de crítica velada à política econômica de FHC) por parte de Lula e da equipe que o acompanhava, quando estes chegaram ao poder passaram a defender de maneira categórica, como única solução possível para a correção dos graves problemas que afligem a economia brasileira, a permanência da política econômica de FHC. Nessa medida, não resta alternativa, senão concluir que de uma hora para outra o veneno causador de todos os males vivenciados por essa economia, ou seja, as políticas econômicas de cunho neoliberal, travestiu-se, durante o mandato do Presidente Lula, do antídoto amargo, porém necessário, para recolocar nos trilhos do crescimento econômico sustentável a economia nacional, à revelia das evidências obtidas no período anterior.
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É sempre bom lembrar que a década neoliberal (anos 1990) registrou um crescimento econômico médio (1,8%) bastante inferior ao apurado para os anos 1980 (3,0%), período esse, como já mencionado, tido na literatura econômica como a década perdida.
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Em face disso é que se pode afirmar que a política econômica que vem sendo implantada, desde o inicio do governo Lula, em nenhum momento sinalizou para uma mudança substancial e efetiva em relação à política que foi perseguida na era FHC. Longe disso, ela sempre caminhou na direção do seu aprofundamento.
Esse foi, certamente, o problema maior que pareceu atormentar as mentes daqueles que enxergavam a ida de Lula para o Palácio do Planalto como a hora da virada, ou seja, o momento de se proceder a uma reorientação dos rumos da política econômica. Mais uma vez, vale lembrar que durante toda a campanha eleitoral, que decidiria quem seria o novo Presidente da República, a estratégia de Lula e do PT foi conduzida de modo a acalentar no seio da sociedade a esperança de que dias melhores estariam porvir, e que isso só seria alcançado com a elaboração de uma nova política econômica, que, diferentemente da anterior, privilegiasse a produção, o emprego e a renda.
Diante disso, causou profunda estranheza quando os integrantes da equipe econômica do governo Lula passaram a defender a tese de que era preciso insistir na política econômica que outrora havia sido, por eles mesmos, duramente criticada54. Infelizmente, o staff que compõe a equipe econômica do governo Lula rendeu-se, de forma incondicional, às exigências de flexibilidade, tão intensamente, presentes no mundo contemporâneo, e cujo sentido semântico, nesse caso, expressa a facilidade de ser manejado ou certa maleabilidade.
Obviamente, não se está aqui defendendo a tese de que o governo, em nome dos compromissos de campanha, adotasse uma postura intransigente, do não-diálogo em relação aos seus principais interlocutores, especialmente com aqueles do todo-poderoso mercado financeiro. Em verdade, melhor seria que o governo adotasse um posicionamento flexível que se expressasse na capacidade de ser adaptável a circunstâncias variáveis, porém que não fosse quebrado por elas. Inclusive é bom que se diga, esse é o sentido original, pelo menos na língua inglesa, atribuído à palavra flexibilidade. De acordo com Sennett (2002), ele é derivado da simples observação de que, embora a árvore se dobrasse ao vento, seus galhos sempre voltavam à posição normal. Dentro dessa perspectiva, tal termo reflete essa capacidade de ceder e recuperar-se da árvore, o teste e restauração de sua forma.
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Nesse ponto, não se pode perder de vista que esse era exatamente o roteiro que havia sido traçado pela antiga equipe econômica, chefiada pelo Ministro Pedro Malan, a qual preconizava a necessidade de se adotar medidas duras como o único caminho possível para se garantir a criação de novas bases, cuja solidez permitiria conduzir a economia brasileira para um verdadeiro eldorado. Pois é, passaram-se oito longos anos e nada! Os ajustes foram tornando-se cada vez mais dramáticos, ou, como muitos preferem dizer, o amargo remédio que devolveria a saúde da nossa economia passou a ser ministrado em doses cada vez mais fortes, sem, contudo, lograr resultados satisfatórios.
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É preciso estar atento a isso, pois no afã de ser vista como flexível, a equipe econômica do governo Lula passou a desenvolver uma política na qual buscou ser mais realista que o rei. Vide, por exemplo, o episódio em que não satisfeita com o valor referente ao percentual do superávit primário em relação ao PIB, previamente acordado com o FMI pela antiga equipe econômica, resolveu ampliar, ainda mais, esse percentual, de 3,75% para 4,25% do PIB, sem que houvesse tido a menor pressão por parte dessa instituição financeira para que isso fosse feito.
Na verdade, a referida equipe econômica procurou justificar muitas das ações que encaminhou utilizando-se do argumento de que boa parte delas visava blindar a economia brasileira de possíveis adversidades originadas a partir de ocorrências que, se especulava, pudessem vir a se confirmar55. Sua estratégia era mais ou menos esta: em resposta aos cenários negativos que eram traçados pelos agentes que atuam no mercado financeiro, em relação, por exemplo, à inflação, procurava-se esboçar alguma reação. No mais das vezes, essa reação assumia a forma de elevação da taxa de juros.
E aí estava o problema central que simplesmente inviabilizava, ou tornava pouco factível, o cumprimento da sua mais importante promessa de campanha, a criação de 8 a 10 milhões de postos de trabalho. Conforme apontam Souza e Oliveira (2004), essa promessa foi, indubitavelmente, aquela que mais interessou a sociedade brasileira no pleito eleitoral de 2002, que decidiu quem ocuparia a Presidência da República no período de 2003 a 2006 feitas, a bem da verdade, pelos dois principais postulantes ao cargo de Presidente da República (Lula e Serra).
Para que ela viesse a se tornar realidade, era necessário romper com a lógica da política macroeconômica levada a cabo pela equipe do então presidente FHC, sobretudo no que respeitava a política de definição da taxa de juros, tendo em vista que àquela altura estava mais que evidente a sua completa inadequação no sentido de permitir o crescimento econômico e, portanto, da produção e do emprego.