ORALE DES CONTEURS
2.3.2 Sons, images et oralité sur le papier
Violeiro e artesão, Levi Ramiro Silva nasceu em 1966, na cidade de Uru/SP, e atualmente reside em Pirajuí/SP. Ministra oficinas de fabricação e toque de viola em várias regiões do Brasil com destaque para sua oficina “Fabricação da Viola Brasileira feita com cabaça.”84 Para Levi Ramiro, a Viola de Cabaça é uma legítima viola da terra.85
Levi Ramiro (2017) conta que, na música, conhece a viola desde criança, mas o instrumento conheceu em Campinas/SP no ano de 1992. Iniciou sua aprendizagem com
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Vídeo: João Arruda cantando “Desague,” composição de João Arruda e Alik Wunder. Laboratório Cisco e Estúdio Venta Moinho: Vozes da Terra. Publicado em 2 de mar. de 2017. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=ThDJXe7XWo4. Acesso em: 14 jul. 2017. 84
Disponível em: http://www.leviramiro.com.br/biografia. Acesso em: 27 jun. 2017. 85
Comentário de Levi ao final do vídeo: “Na Mourada, por Levi Ramiro.” Programa Viola, Minha Viola, apresentado por Inezita Barroso, TV Cultura. Publicado em 29 de jun de 2012. Disponível em:
música caipira e música regional, e atualmente toca música autoral (canções e instrumental), compondo em estilo variado: regional, Baião, Milonga, Caipira dentre outros, assim como também toca o cancioneiro caipira, e outros estilos e compositores.
Levi se relaciona de forma intensa com o meio ambiente, em especial com o Cerrado, “gosto de estar próximo a qualquer região onde o local é o máximo preservado, em especial no Cerrado, bioma de minha preferência” (Ramiro 2017). Esse violeiro nasceu em uma região de Cerrado, que ele chama de “cerradão paulista.” Segundo, Levi Ramiro, há algum tempo foi informado que resta apenas 1% de Cerrado nesta área. “Praticamente tudo foi transformado em urbanização, monoculturas, pecuária e por aí…” (Ramiro 2017). Viajando pelos cerrados brasileiros, principalmente norte de MG, Levi ficou com a impressão de que “o ser humano continua pensando que está acima da natureza, como se não fizesse parte dela e sim que ela está pra servi-lo em toda a sua vida de objetivos que fogem da máxima, equilíbrio ambiental” (Ramiro 2017). Levi comenta que isso ocorre também com os povos que um dia já foram mais equilibrados com o meio ambiente:
Parece que não fazemos parte do ambiente e da natureza. Pergunte hoje a qualquer pessoa, em que lua estamos agora? Quantas saberão responder? Habitantes do Cerrado de um tempo atrás, tirando os nativos, foram até mais equilibrados com o meio, estes já sofrem com a pressão midiática de padrão de vida e consumo. Muita transformação e falta de consciência (Ramiro 2017).
Por meio da arte, Levi diz tentar fazer sua parte, o que é visível em suas composições como, Tá no Balaio, um Pagode de viola,86 gravado em seu CD “Nosso Quintal” (2008), com Levi Ramiro (voz, viola e violão), João Carlos (viola e voz), Maurício (violão e voz), Magrão (percussão). Levi compôs essa música em ocasião que ganhou uma muda da árvore Pau- Brasil, “daí ela quebrou um galho lá, aí eu achei que ela tava tristinha, eu falei, eu acho que ela não vai vingar, né? Mas, plantei e ela vingou, daí eu fiz essa letra Tá no Balaio, fiz um balainho e plantei, e fiz esse pagode,” assim Levi fala em um vídeo postado na internet
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Sintetizando dois ritmos, o cururu e recortado, surge essa nova batida, onde Tião Carreiro cria um ponteado diferente com a viola e Pardinho ao violão faz o contratempo. Tião Carreiro é um violeiro de referência nacional que trouxe a utilização do modo mixolídio (escala usada no norte de Minas Gerais e Nordeste brasileiro) para a música caipira, graças suas introduções de pagode caipira (Peripato 2008).
(Verona 2013).87 Com ritmo de pagode em movimento rápido e contínuo, essa canção transmite uma mensagem de alerta à destruição do Cerrado:
O Brasil tá no balaio / se não quebrar outro galho / planto ele pra você Quem já foi matéria prima / desde a folha até a rima / morada do Pererê Tora rola no Madeira / Motosserra, trassadeira, machado pra escrever Pra falar do seu sucesso acompanhar seu progresso / tão difícil de entender Um formigueiro de gente / fumaça no capim verde / tudo veio acontecer Pra quem foi matéria prima / desde a folha até a rima / morada do Pererê Aprendi desde criança / que saci quem faz a trança
e Tupã quem vê a dança / e faz na terra chover Chora viola caipira / chora bicho curupira vendo a floresta morrer (Ramiro 2008).
Várias letras e temas instrumentais de Levi Ramiro falam muito do Cerrado, de sua importância e degradação, bem como da cultura nesse ambiente. Dois exemplos musicais de composições instrumentais relacionadas ao Cerrado estão em: Tema do Cerrado (CD “Viola de todos os cantos”)88 e Berço das águas (CD “Nosso quintal”).89 Essas duas peças passam um timbre meio melancólico e ao mesmo tempo com partes firmes e vibrantes expressando a paz e a esperança.
Na canção Outro Dia Quente (Levi Ramiro) gravada em seu recente CD “Purunga” (2016), a beleza da natureza e o clima quente do Cerrado são expressos por meio de uma melodia tranquila e uma letra que fala de flores, buritizal, arara e outros pássaros, céu, sol, noite, lua cheia, coral de grilos e o ponteio da viola:
O Cerrado florido, depois da queimada / O orvalho que brilha na luz matinal Um bando de araras que seguem na prosa / Pras copas frondosas do buritizal O murmulho das folhas e um ranger de dentes / Outro dia quente lá no taquaral A tarde começa no pé de pitanga / Canta o sabiá que visita o quintal
E longe os biguás, voando baixinho / Bem rente às águas, de rumo ao ninhal E acima as garças, flechando as nuvens / De um céu encarnado ao sono do sol A noite com vida, a viola ponteia / Nasce a lua cheia, canta o bacurau
O coral dos grilos, o frescor da mente / Não pensa nem sente, começo e final
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Vídeo: “Valdir Verona no programa SR Brasil da TV Cultura apresentado por Rolando Boldrin e participações de Levi Ramiro e Rosa Amélia. Composição: Tá no Balaio de Levi Ramiro.” Publicado em 3 de jan. de 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iUPI9pR2nSE. Acesso em: 13 jun. 2016.
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“Vento Viola - Tema do Cerrado”. Publicado em 22 de nov. de 2010: Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=GB8h6NNT8TI. Acesso em: 28 jul. 2017. 89
“Levi Ramiro - Berço das Aguas.” Publicado em 7 de dez de 2010. Disponível em:
(Ramiro 2016).
Na gravação dessa canção interpretada por Consuelo de Paula, Levi toca viola de cabaça acompanhado por Zé Esmerindo no violão barítono de cabaça e violão requinto de cabaça. O encarte desse CD “Purunga” é ilustrado por fotografias de diversos instrumentos de cabaça fabricados por Levi, como: violas, violões, rabeca, caixixi, reco-reco, xequerê, pandeiro, bandolim, dentre outros. A feitura de um instrumento de cabaça (também conhecida por porunga, porongo, cuia) impõe dificuldades que Levi considera irrelevantes, visto que se sente atraído pela beleza orgânica e estética apresentada pela cabaça, proporcionada pela variedade de formas, que permite também, segundo ele, diferentes timbres (Giacomini 2016).
Figura 15 – Levi Ramiro tocando viola de cabaça
Fonte: Foto da internet
Levi diz não desenvolver um trabalho com a viola intencionalmente voltado à conscientização ambiental no Cerrado, mas em sua fala o violeiro menciona o intuito de que as pessoas se emocionem com as mensagens de suas músicas: “os temas são mais ligados a importância, beleza, histórias da ocupação e cultura popular do que algum tipo de militância em causa disto ou daquilo. Claro que a ideia é emocionar com conscientização” (Ramiro 2017). E isso se verifica claramente em várias composições de Levi, Diz aí, Curupira é outro exemplo, interpretada por Levi e João Arruda, em estilo falado, meio rap, com percussão e palmas, indagam na primeira parte da música, sobre o que afeta o Cerrado, e na segunda parte, de forma mais melódica, afirma o seu querer que o Cerrado sobreviva:
Pra quê tanto fogo pra quê tanto pasto / Pra quê tanto jogo pra quê tanto astro Pra quê tanta grana pra quê tanta festa /Tanto celular, será que isso presta? Pra quê tanta cana pra quê tanta soja / Pra quê tanta fama pra quê tanta loja Pra quê tanta grana pra quê tanta festa / Tanto eucalipto, será que isso presta? Eu quero mais cerrado, eu quero mais saúde
Eu quero mais riacho, eu quero mais floresta Eu quero mais abraço, eu quero mais conversa
Descendo rio abaixo, viola é uma floresta (Ramiro 2016).
Composições de Levi Ramiro com temas voltados à preservação da natureza acabam despertando interesse do uso dessas músicas em trabalhos ambientais, como por exemplo, algumas composições suas foram usadas como trilha musical no vídeo educativo “Cerrado, o berço das águas,” produzido na cidade de Bauru/SP, pelo Instituto Ambiental Vid'água (Barulhomarcel 2017).90
Levi Ramiro afirma que suas composições ligadas ao Cerrado saíram naturalmente em sua convivência com esse ambiente: “Todas foram assim, orgânicas. Andando Cerrado adentro, comendo poeira ou comendo fruta, passando calor ou se refrescando nas águas maravilhosas deste bioma. Tudo foi assim” (Ramiro 2017). Na canção abaixo, Folia Cores do
Cerrado, a paisagem do Cerrado é permeada pelo cotidiano e pela cultura do povo que nele
vive, e que ainda mantem a tradição dos giros de Folias de Reis nos caminhos do Cerrado:
Pelos olhos de uma criança, as cores das lavadeiras Das roupas quarando ao sol, sobre as pedras da ribeira Na brincadeira mais doce, do galho de um faveiro
Como fosse desafio, mergulha as águas do rio / Um menino brasileiro Pelos olhos das lavadeiras, passam cores do Cerrado
De flores, frutos, amores e lembranças do passado Das cantigas de trabalho, dos terços e das novenas
Rezadeiras, raizeiras, matriarcas brasileiras / Gente da pele morena Pelos olhos da passarada, passam cores da estrada
O novo verde das folhas, nas veredas orvalhadas Nos caminhos do Cerrado, seguindo a estrela guia
Pelas trilhas e atalhos, entre pedra, tronco e galho / Segue as cores da folia Pelos olhos de um folião, passam cores da bandeira
Na fé da graça alcançada, na devoção verdadeira No pulso e na melodia, na cantoria sagrada
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Barulhomarcel. “927 – Violeiro Levi Ramiro lança “Purunga”, novo álbum solo e nono da carreira.”
Barulho D'Água Música. 03 de abril de 2017. Disponível em:
https://barulhodeagua.com/2017/04/03/927-violeiro-levi-ramiro-lanca-purunga-novo-album-solo-e- nono-da-carreira/. Acesso em: 28 jul. 2017.
Nas fitas e suas cores, com violas e tambores / Segue a folia na estrada
(Ramiro; Rosa 2016).
Interpretada por Giovanni Guimarães, Consuelo de Paula e Levi Ramiro, o arranjo traz instrumentos típicos presentes nos grupos de Folias de Reis, mas confeccionados em cabaça por Levi Ramiro: viola de cabaça e violão barítono de cabaça tocados por Levi, acompanhado por bandolim de cabaça tocado por Paulinho Faria e rabeca de cabaça tocada por Thomas Roher.
Dando prosseguimento, serão investigados violeiros e violeiras no estado de Minas Gerais, iniciando por um dos violeiros que tem sido uma importante referência no universo da Viola Caipira no Brasil.