O público da pesquisa são estudantes dos cursos presenciais de licenciatura e de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará. Busco tais estudantes para que possa indagá-los tanto sobre as estratégias que adotam, como sobre os efeitos de recognição e de invenção de tais estratégias em suas práticas pedagógicas.
Universitários dos cursos presenciais de Pedagogia e Letras foram eleitos como público alvo por participarem de um processo especialmente dedicado a formá-los como profissionais facilitadores de aprendizagem. Adicionalmente, este público participa de disciplinas teóricas e práticas que objetivam prepará-los para serem professores de diversos níveis educacionais em um ambiente não virtual. É possível que este aspecto torne mais evidente o caráter inventivo de suas práticas de estudo on-line em comparação a universitários de modalidades semipresenciais de ensino, uma vez que os participantes desta pesquisa não contam com orientação direta de professores em suas práticas de estudo on-line.
Os critérios para inclusão de participantes na pesquisa foram: 1) matrícula regular em curso presencial de licenciatura ou pedagogia na UFC; 2) ter exercido a função de professor; 3) interesse em seguir carreira docente; 4) disponibilidade para participação na pesquisa.
A diversidade da experiência acadêmica dos entrevistados deve contribuir para pensar as práticas de estudo on-line sem atrelá-las às especificidades de um determinado campo do conhecimento. Nesta pesquisa, a aprendizagem não é determinada segundo a pontuação que os estudantes obtêm em suas avaliações, de modo que há pouco interesse em comparar notas de estudantes de um mesmo curso. Do contrário, a singularidade da experiência dos entrevistados foi valorizada, por isso a diversidade de cursos contribuiu para o enriquecimento das análises.
A expectativa era de que este público já esteja sendo confrontado com questionamentos a respeito da aprendizagem e de como favorecê-la tanto por práticas de estudo consideradas tradicionais, entre as quais consta o uso de livros impressos e encontros presenciais de grupos de trabalho, como por práticas de estudo on-line, a exemplo de leitura de textos na web e participação em fóruns de discussão na internet.
A escolha por este público apoia-se nas pesquisas de Miranda (2013; 2015). Miranda (2013; 2015) afirmou que professores tendem a apresentar visões dicotômicas a respeito dos efeitos do uso de mídia dentro do espaço escolar. Os discursos costumam se dividir entre aqueles que consideram a mídia uma redentora do desgastado dispositivo que é a sala de aula, e entre aqueles que criticam a mídia por considerá-la antagônica aos valores defendidos pelas instituições de ensino tradicional, como a escola.
(2012), pode ser produzida no encontro entre as subjetividades fluidas da contemporaneidade e os dispositivos de educação disciplinadora que subsistem. A busca por professores em formação que utilizem a mídia como aliada em suas práticas de estudo decorre da procura por percepções complexas a respeito de como a mídia pode contribuir tanto em processos de recognição como em processos de aprendizagem inventiva. Trata-se de um público que é formalmente convidado a pensar sobre processos de aprendizagem, por meio de suas disciplinas e estágios, e que emprega práticas de estudo on-line para beneficiar a própria aprendizagem.
A escolha por estudantes da UFC atende ao desejo de que esta pesquisa beneficie a instituição que tem lhe apoiado. A primeira pessoa convidada a participar da pesquisa compõe meu círculo social – uma vez que sou estudante da referida instituição, tenho contato direto com universitários de variados cursos da UFC. Após a primeira entrevista, este indivíduo indicou outro que atende aos critérios da pesquisa. Este procedimento é uma aplicação da técnica bola de neve, explicitada a seguir.
A qualidade dos elementos que integram a pesquisa é mais significativa para a representatividade da amostra do que sua quantidade. Limitar a amostra populacional em uma pesquisa cartográfica por critérios numéricos seria pouco frutífero, uma vez que números tem pouca eficácia na expressão de experiências. Devido à impossibilidade de entrevistar todos os indivíduos do universo indicado, é necessário delimitar o público participante da pesquisa. Para este fim, foram adotadas duas técnicas de amostragem não probabilística para pesquisas qualitativas: bola de neve e saturação teórica.
Segundo Vinuto (2014), a amostragem em bola de neve é conveniente quando há dificuldade em limitar o universo pesquisado, seja por dificuldade em acessar tal universo, seja pela delicadeza do tema pesquisado. A amostra é formada por indicações: a pesquisadora convida um participante, que por sua vez indicará um próximo participante, e assim por diante (VINUTO, 2014). A facilidade do contato inicial não implica descuidado com a constituição da amostra. Isso porque etapas e objetivos da pesquisa, bem como a importância do sigilo, devem ser cuidadosamente explicitados para quem participa, a fim de que sua indicação seja frutífera para a pesquisa (VINUTO, 2014).
Para delimitação do tamanho da amostra, foi considerada a possibilidade de empregar uma técnica denominada de saturação teórica. Segundo a mesma,
indivíduos seriam entrevistados até que os dados construídos com as entrevistas apresentassem uma repetição. Esta repetição se caracterizaria pelo fato de que a realização e a análise de novas entrevistas acrescentariam pouco ao conteúdo da pesquisa (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008.).
As perguntas que fazemos não estão desatreladas das concepções que utilizamos para organizar nossa vivência enquanto indivíduos e participantes de um mundo. O questionamento sobre como eu encontraria um ponto de saturação teórica nas entrevistas realizadas sobre o devir professor denuncia minha expectativa em encontrar similitudes, pontos de convergência nas diversas experiências com as quais me defrontaria. Entretanto, meu olhar deve estar atento para a busca de analisadores. Ou seja: para encontrar justamente aquilo que diverge, o que intriga o entendimento porque não parece ser facilmente explicável por um repertório previamente elaborado. Neste sentido, o emprego da técnica de saturação teórica foi abandonado.